A Dança para o Mukongo

A dança é uma das três principais artes cénicas da antiguidade, ao lado do teatro e da música. Caracteriza-se pelo uso do corpo, seguindo movimentos previamente estabelecidos (coreografia), ou improvisados (dança livre). Na maior parte dos casos, a dança, com passos cadenciados, é acompanhada ao som e compasso de música e envolve a expressão de sentimentos potenciados por ela.

A dança pode existir como manifestação artística ou como forma de divertimento e/ou cerimónia. Como arte, a dança se expressa através dos signos de movimento, com ou sem ligação musical, para um determinado público.

A dança é uma manifestação representativa de alegria, tristeza, solidariedade, luta pela vida (todas aquelas danças rituais de cura), de acontecimentos memoráveis devido a certos factos marcantes como por exemplo o nascimento de gémeos e de crianças que nascem com algum defeito ou mesmo monstros (simbi)1, para espantar os maus espíritos e acolher os bons que ela possa trazer para que viva bem e em paz.

Todas as danças rituais normalmente são executadas ou realizadas por dançarinos profissionais ou seja dançarinos iniciados, que, familiarizados ou eleitos, tenham algum domínio na matéria por força dos seus próprios conhecimentos (os mais velhos) e por tudo aquilo que têm aprendido com os seus mestres (os jovens), vão animando a cerimónia com danças acompanhadas no geral por canções, que bem entoadas dão vida ao local e à própria cerimónia.

A dança do mukongo para expressar a alegria manifesta-se ou é sempre executada de uma forma muito escandalosa: pode incitar à excitação porque é localizada nas ancas.

Antigamente, nos óbitos chorava-se mesmo a sério, enquanto nos dias de hoje os choros são só nas primeiras horas após a morte, a que se segue uma música que se vai ouvindo de um rádio gravador (música religiosa) e até também já temos ou vimos cantores religiosos a cantarem nos óbitos. A vida parece não ter sentido nenhum, parece mesmo não ter diferença entre a morte e a própria vida, porque não a valorizamos, no lugar de alegria manifestamos alegria, tal como no lugar de tristeza.

A dança para o mucongo é um elemento fundamental na construção e partilha de valores tais como: culturais, sociais e religiosos que ajudam a alicerçar a vivência em grupo e em comunidade. Se em qualquer manifestação mesmo não sendo de alegria, a dança se faz presente é porque já se encaixa ou sempre se encaixou dentro dos povos, por isso se diz que «o africano tem a dança no sangue». Portanto é algo que herdamos dos nossos antepassados de uma forma inconsciente e consciente. Inconsciente, porque já nasce connosco, a herdamos hereditariamente dos nossos pais, consciente porque aprendemos e aprimoramos cada vez mais a dança, através das cerimónias rituais (iniciação, circuncisão, casamento), nas rodas e nos convívios sociais ao longo dos tempos.

Para os bakongo, a dança constitui elemento essencial na educação social, porque é através dela que se ensinam as práticas de coesão social, a solidariedade e o amor ao próximo, através dos ritos de iniciação. «A dança, para o homem africano é uma predestinação, um mistério, uma ânsia de ritmo supremo. Dizem, nas zonas do leste, que as rodas de dança rodam para a direita, segundo um conceito de harmonia com o movimento (aparente) dos astros». (Redinha, José, 1975:331).

As danças participam de todas as manifestações do povo por recrearem a vida e porque por meio delas se ensinam e se aprende parte da sua cultura.

«Constitui, então, a dança uma poderosa fonte de conhecimento. Cada etapa da história dos povos, bem como as transições dos diferentes regimes sociais em manifestações artísticas onde a dança ocupa um lugar privilegiado. Quer a das suas ações motoras, quer a nível das diversas formações coreográficas, é possível distinguirem-se elementos indicadores de estatutos sociais, classe política, relações económicas ou mesmo caraterísticas geográficas dos lugares onde essas danças tinham lugar» (Marques, Ana Clara Guerra, 2007:5).

Normalmente, a dança é acompanhada por batimentos das palmas da mão, a que se segue o canto entoado pelo solista, com o coro e o cantar de todos que fazem parte da cerimónia. As canções, as palavras contribuem significativamente para a representação de qualquer dança. Com as canções, dançam incansavelmente, mas, não as havendo improvisam palavras que acompanhadas de batimentos das palmas das mãos, constituem motivo de dança.

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) Domingas H. Monteiro

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: