A Onça, o Veado e o Macaco

O senhor Onça tinha uma namorada que morava longe. Um dia, pediu ao senhor Veado que o acompanhasse. O senhor Veado acedeu. E ambos partiram, transportando aquele uma panda com maluvo de palmeira. Andaram, andaram, andaram. Avistam uma lavra.

– Vês aquela lavra? É dos meus sogros. É lavra de goiabeiras. Havemos de comer lá, algumas goiabas. Não as maduras, essas ficam para os donos. – Diz o senhor Onça.

Chegaram. O senhor Veado, conforme a recomendação, atira-se aos frutos verdes. O senhor Onça, depois de se certificar da observância afasta-se para lugar escuro, trepa a uma árvore, põe-se a comer os maduros.

Quando volta, lamenta-o:

– Ai, Veado, estás a comer goiabas verdes, havendo tantas maduras?

– Não foste tu que disseste, tio?

– Tu também! Brinquei só…

Continuaram a jornada. Outra propriedade se mostra.

– Vês aquela lavra? É também dos meus sogros. É de cana. Mas a gente só vai comer o caniço, a cana é para os donos.

O senhor Veado cumpre as instruções. O senhor Onça embrenha-se no canavial, furtivamente chucha a boa cana.

– Ai, Veado, tens os beiços feridos!

– Foi o caniço, tio…

– Este meu sobrinho não é mesmo parvo? Foi minha brincadeira! Pronto já, meu sobrinho.

Andaram, andaram, andaram. Agora é uma moita que se apresenta.

– Vês aquela divunda? Aonde vamos, não há colheres! Vamos esconder lá, as nossas.

No local indicado, o senhor Veado guarda a pasta em que se acham esses utensílios.

Caminharam mais um pouco.

– Xê, Veado, a gente dos meus sogros é muito malcriada. Quando disserem «uohoco», não respondas «uolo». Diz: «viococo, viococo» . Quando cumprimentarem, manda-os à fava. Quando quiserem receber a panda, atira-a para o chão. Faz-lhes assim, meu mais novo. É para lhes tirar o atrevimento.

– Sim, tio.

À chegada, as crianças gritam de alegria:

– Cunhado!… Cunhado!… Tio Veado!… Tio Veado!…

O pessoal mais velho saúda:

– Uohoco!

O senhor Veado despreza-os:

– Viococo, viococo!

Quando lhe vão descarregar a panda, arremessa-a para o chão. Em resultado, todos o censuravam pelas costas.

À refeição, o senhor Onça manda o senhor Veado buscar os talheres. Nesse entretanto, devora toda a comida. Depois, derrama água em vários lugares do pavimento térreo.

– Tu também, meu sobrinho, com esse teu andar, demoraste tanto! Estás a ver essa água no chão? Foi essa gente toda… Depois de comerem, lavaram aí as mãos. Nem eu comi nada! Pronto já, meu sobrinho, amanhã também é dia.

– Não faz mal, tio. Comemos já amanhã.

De noite, já todos dormindo, o senhor Onça vai ao curral, mata algumas cabras, suga-lhes o sangue. Numa casca de múcua, deita uma parte. Cautelosamente, entra no quarto do companheiro, despeja-lho em cima.

De manhã, como o senhor Veado tardasse a aparecer, as crianças resolvem despertá-lo. Mas logo se alarmam:

– Eh! Tio Veado está cheio de sangue!

A casa, já indignada com o morticínio, mais se enfurece:

– Aaah! Afinal foi ele quem matou as cabras! – Vingam-se numa surra. Tão grande foi, que o mataram.

Mais um tempo, o senhor Onça convida o senhor Macaco a acompanhá-lo. Ele aceita. E no dia da jornada carrega a panda de maluvo de palmeira.

Perto da primeira lavra, o senhor Onça avisa:

– Vês aquela lavra?

– Sim, tio, estou a ver.

– Pois é dos meus sogros. É lavra de goiabeiras. Havemos de comer algumas. Mas só as verdes, as maduras ficam para os donos. Ouviste?

– O tio também! Mesmo que não me dissesse, eu já sabia que as goiabas maduras são para os donos. Mesmo porque não gosto de goiabas maduras, são muito doces. As verdes, sim, dessas é que eu gosto, os passarinhos ainda não andaram por lá a bicar.

Já no goiabal, o senhor Onça quer ajudar a descarregar o senhor Macaco.

– Deixe, tio, isto não é pesado.

Na presença do senhor Onça, o senhor Macaco vai roendo as goiabas verdes. Mas quando o vê afastado, agilmente trepa ao cimo e delicia-se com as madurinhas. Entretanto observa o senhor Onça, fazendo o mesmo.

– Tiraste goiabas maduras? – Surpreende-o o senhor Onça, vendo-o com uma goiaba nas mãos.

– Ih! Com goiabas maduras, vou lá comer as verdes? Olhe que deixo ficar a panda e vou-me embora!

– E meu mais novo, não te zangues! Brinquei só!

O canavial já desponta.

– Vês aquela lavra? É de cana. Também pertence aos meus sogros. Havemos de lá ir. Mas só chucharemos o caniço, as canas ficam para os donos. Ouviste?

– Este tio! Eu já sei isso… Mesmo eu não gosto de cana, é muito doce. Caniço, hela! Gosto muito!

Ao pé do senho Onça, o senhor Macaco colhe caniço. Mal o apanha fora de olho, lança-se à cana grosso – a de rabo-de-quitandeira. No entanto, já havia reparado que o senhor Onça não cumpria o recomendado.

O senhor Onça vem. Encontra o senhor Macaco com uma cana grossa.

– Quê?! Estás a comer as canas alheias?

– Ih! O caniço, que fere, é que vou comer? Olhe que eu deixo a panda e vou-me embora!

– Ai, meu sobrinho, não te zangues só! Foi minha brincadeira!

Põem-se outra vez em marcha. A moita já se levanta aos seus olhos.

– E Macaco, quando chegarmos ali, esconde as nossas colherinhas. Em casa dos meus sogros, não há colheres.

– Sim, tio, vamos mesmo esconder as nossas colheres. Quando uma pessoa já conhece os hábitos duma casa, deve ter cuidado. Não é assim, tio?

Na moita, o senhor Macaco fingiu ocultar os talheres. Casa à vista.

– É meu sobrinho, a gente daquela casa é muito malcriada. Quando te disserem «uohoco», não respondes «uolo». Diz: «yiococo, viocom». Quando te cumprimentarem, manda-os à fava. E quando vierem receber a panda, atira-a para o chão. Ouviste?

– Está bem, tio, vou tirar-lhes a má criação. Vou mesmo partir a panda. Então uma coisa que me está dando tanto trabalho é que vou dar a pessoas malcriadas?

A petizada aclama-as:

– Cunhado!… Cunhado!… Tio Macaco!… Tio Macaco!…

O senhor Macaco sorria para eles

– Uohoco! – Salvam os adultos.

O senhor Macaco corresponde afetuosamente:

– Uolo!

Quando lhe recebem a panda, entrega-a gostosamente.

Valendo-se do alvoroço, o senhor Onça repreende-o:

– Xê, porque não disseste o que te ensinei? Porque não deixaste cair a panda?

– É tio, não gosto dessas conversas! Vou-me embora!… A panda, que me custou a carregar, é que eu ia partir?

– Eh! Eh! Eh! Cala-te! Falei só!

Ao repasto, o senhor Onça manda-o buscar as colheres:

– Não te demores, como o Veado, lá, com o seu andar – xacata-xacata. Vai mesmo soala-soala. Aqui, como estás a ver, come muita gente… Depois rapamos fome, como da outra vez.

– O tio já sabe o meu andar: perna aqui, perna com a comida, sucuama! Ninguém pode comigo!

Vendo-se só, o senhor Onça nhão-nhão-nhão – tira molha no feijão, tira fúnji, molha na carne. De fora, o senhor Macaco espreitava por uma fresta. Num salto, está ao pé do senhor Onça. Retém-lhe o braço.

– É tio, puseste quatro polegadas! Eu vi! Agora vou eu também pôr as mesmas quatro polegadas!

– Não, meu sobrinho, eu estava a provar só!… Eh! Eh! Eh! Tu!

Pela metade da noite, já todos repousavam fundamente, o senhor Onça vai ao curral, mata outras cabras e absorve-lhes o sangue. Como anteriormente, também enche uma casca de múcua.

O senhor Macaco, sempre alerta, ouvira-o levantar-se. Seguindo-o, empoleirou-se na porta que dava para o quintal. Quando o senhor Onça voltava com a sua casca na mão, o senhor Macaco levanta-lhe o braço e move-o a verter o sangue sobre si.

De manhã, o espanto enche a casa:

– Mataram mais cabras! Mataram mais cabras!

O senhor Macaco já estava a pé. Mas o senhor Onça ainda não aparecera. Os garotos invadem-lhe o quarto, querem arrancá-lo do sono. Mas logo se rasgam numa admiração:

– Eh! Cunhado tem sangue! Cunhado tem sangu!

A família, danada, dá-lhe uma sova, Tanta, tanta, que o mataram.

– Matámos o pobre do senhor Veado, e, afinal, foi ele quem matou as cabras da outra vez!

A noiva foi dada ao senhor Macaco. Dias depois, regressava. Procurando a mulher do senhor Onça, fez-se portador dum recado:

– O tio manda muitos cumprimentos. Ficou ainda, está a ajudar os sogros num serviço. Manda este bocado de carne assada.

A mulher ficou radiante. Há que dias não comia carne! Mas a filha mais nova lamuriou-se:

– Mamãe, a carne cheira a papai!

– Ih! Esta criança tem cada conversa! Estás maluca ou doente?

– Auá! É criança, não sabe o que diz! – Acode o senhor Macaco.

A mãe prepara uma funjada. Todos a saboreiam. Só a cassule rejeitou, persistindo na sua aversão:

– Mamãe, a carne cheira a papai!

De noite, o senhor Macaco, acompanhado do senhor Sexa, aparece para sunguilarem. Fora de casa, de volta duma fogueira – as mulheres e crianças instaladas em luandos, os homens em quibacas – palestravam amenamente. Depois duma pausa, o senhor Sexa, tangendo a sua cambanza, canta:

O Veado matou a mim Onça,

quem matou o Veado, fui eu Onça!

Por sua vez, o senhor Macaco respondia com idêntico acompanhamento:

Sexa, não descubras,

dou-te um boi!

Sexa, não descubras,

dou-te um porco! Sexa, por favor

dou-te um um boi!

Sexa, que te fiz! Dou-te um porco!

O despique prolongou-se. No final, o senhor Macaco conta quanto sucedera.

– A carne que vos trouxe – acrescenta – foi mesmo do seu homem. Fiz o mesmo que ele fez à família do senhor Veado, levando-se assado um bocado de sua própria carne.

A criança chorou:

– Eu não dizia que a carne cheirava a papa?

In Óscar Ribas, Missosso vol I, 2009, Lisboa, edição Ministério da cultura, pag 65.

 

 

One comment on “A Onça, o Veado e o Macaco

  1. janilson Py
    27 de Abril de 2013 at 1:56 #

    Que bom, lindo e emocionante conto..

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