UM CONTRIBUTO AO ESTUDO DAS CANÇÕES DOS POVOS AMBUNDU

Por Minany Pena

Introdução

Esta pequena pesquisa visa fazer uma abordagem geral das canções dos povos ambundu, falantes da língua Kimbundu, ocupam as províncias de Luanda, Bengo, Kwanza Norte, quase toda província de Malange e a parte norte da província do Kwanza Sul. O Nosso objetivo é falar das canções ambundu, apresentando a sua natureza e funções, e as suas características gerais, mostrando alguns exemplos. Na ocupação colonial portuguesa, o povo ambundu foi o primeiro a sofrer duramente a colonização e um dos que mais sofreram a aculturação portuguesa.

1.1 – Conceito

As canções são as expressões profundas, manifestadas pelo íntimo de um povo (porque é coletiva e anónima), para melhor exprimir os seus sentimentos (de dor ou tristeza, arrependimento ou crítica, alegria…); ou simplesmente de recriação ou seja para diversão (brincadeira). Segundo Héli Chantelain, na sua classificação nativa da literatura tradicional, distribui as canções (Poesia e Música), na classe cinco: mi – imbu (mi – prefixo nominal de classe 4, que representa o plural e imbu, que é a base nominal, termo da língua Kimbundu que significa em português canções ou músicas). (DUARTE, 1975. p. 30).

1.2 – Natureza e função das canções

A natureza dessas canções, quanto a ideologia, o conteúdo e o sentimento, é anónima e funcionam como produto coletivo de um determinado grupo etnolinguístico, pois proveem do íntimo ou seja da alma artística do povo angolano, na sua pureza étnica. Esta natureza no campo da Literatura Oral Angolana, não abarca apenas as canções, mas sim todos os géneros, e foram sendo transmitidos oralmente ao longo do tempo e de geração a geração, por vários intérpretes, acompanhados de seus ouvintes.
Elas desempenham uma grande função no processo sociocultural, dos povos angolanos no geral e dos povos Ambundu em particular, pois elas servem de meio de expressão ou transmissão de uma ideologia, mas de forma musical, são usadas nos ritos de iniciação, fúnebres, religiosos, mágico ou fantasiosa e em recriação (geralmente, fazendo uma roda de pessoas a volta de uma fogueira), na sua recitação é sempre acompanhada de danças, assobios, batimentos das palmas das mãos, e também de outros códigos como “cinésico, proxénico e paralinguístico”, que são executada pelo recitador e pelo auditório. Os povos Ambundu em particular e angolano no geral é detentor de uma capacidade extraordinário de improvisação, não importa o seu sexo ou a sua idade. Quanto aos compositores de canções, são elas produzidas, acidentalmente ou vocacionalmente, por indivíduos de qualquer sexo, particularmente varões. (RIBAS, ÓSACAR, 2009:31)

1.3 – Características das canções

Quanto as suas características, as canções tradicionais dos povos angolanos, apresentam as seguintes:
– Paralelismo fraseológico ideológico ou de sentimento, estas canções apresentam repetições frequentes das frases ou versos, no geral ou em particular de uma canção;
– Ritmo, elas são rítmicas e melódicas de acordo com o seu recitador;
– Aliteração;
– Diversidade de tema, segundo Gomes Lembo “no trabalho ou no descanso, na alegria ou na tristeza, o canto é companheiro quase inseparável do negro”. (apud. 1975. p34 Literatura Tradicional Angolana)

Exemplos de algumas canções tradicionais dos povos Ambundu

Transcrição em Ngoya (uma das variantes do kimbundu)

Coro: toko tawé
Pange yami
Pange yami
Toko tawé
He he he!
Coro: Toko tawé
Toko tawé
Mungu wandufuka (waraneruwa)
Mungu pangelyami
Hi hi hi!
Coro: took tawé
Toko tawé
Oxitu yami oyino
Onzu yu lenda
Hi kondala ikumbi yé
Oxitu yami oyino
Hum hum hum!
Coro: toko tawé
Toko tawé
He he he!
Omundu wandupwa wé
Omundu wandupwa wé.
Toko tawé

Tradução

Coro: Vem aceita a Deus.
Oh meu irmão!
Oh meu irmão!
Coro: Vem aceitar a Deus
Vem aceitar a Deus.
Amanhã vais morrer
Amanhã vais morrer
Amanhã meu irmão!
Hi hi hi!
Coro: vem aceitar a Deus
Vem aceitar a Deus
Esse meu corpo,
É como a casa de renda
Na casa de renda
Os dias são contados.
Hum hum hum!
Coro: vem aceitar a Deus
Vem aceitar a Deus
O mundo vai acabar
O mundo vai acabar
Vem aceitar a Deus!

Informante: Cristina Jaime, 36 anos de idade, natural de Ebo, comuna de Sanga, província de Kwanza Sul, profissão: doméstica, habilitação literária: 6ª classe.
Esta é uma canção de tema religiosa, que retrata a vinda de Deus à terra, quando? Ninguém sabe! Esta canção alerta-nos apenas para estarmos em prontidão na hora do fim (mundo) e nos convertamos a Cristo, pois qualquer milésimo, segundo, minuto, hora, tudo pode chegar ao fim, e só será salvo aquele que fizer o bem e acreditar no Senhor (Deus), uma passagem nessa canção diz “o mundo é como se fosse na casa de renda (aluguer) ”, isso quer dizer que quando estamos na casa de renda devemos estar consciente que tarde ou cedo teremos de deixa-lo, e a vida é assim, só que na casa de renda avisam-te, sobre o teu fim de contrato, mas a morte não!

Transcrição em Ngoya (uma das variantes do kimbundu)

Coro: ngungandele ndele!
Ngungandele ndele!
Mona nzambi wacina
Ho ngungandele ndele ndele!
Ho ngungandele ndele ndele!
Mona nzambi mwolo yo wacina
Ngungandele ndele ndele
Coro: Ngungandele ndele!
Ngungandele ndele!
Takombe takombe
Ese takombe tatoka kutala okufuka
Takombe takombe.

Tradução

Coro: O tocar do sino
O tocar do sino
O filho de Deus (Jesus) está a chamar.
O tocar do sino, o sino!
O tocar do sino, o sino!
O filho de Deus está a chamar.
O tocar do sino.
Coro: O tocar do sino
O tocar do sino
Somos visitantes, somos visitantes,
Nós somos visitantes e viemos ver o mundo!
Somos visitantes, somos visitantes!

Informante: Isabel de Oliveira, natural de Ebo, comuna de Ndala – Xowa, 68 anos de idade, profissão: doméstica)
A expressão “ngunga” significa em Ngoya “sino”, e o seu acompanhante “ngande” é um idiofone que representa o som ou seja o barulho produzido pelo sino. Com isso a expressão “ngungandele” foi traduzido como “tocar do sino”. Está é uma canção religiosa, que retrata a chegado do filho de Deus (Jesus), com o tocar do sino como alerta de chegada, para os servos de Deus.

Transcrição em Ngoya (uma das variantes do kimbundu)
Ambete lyete
Mbetê
Mungwetu Madya!
Mbetê
Katuka kumoyo
Mbetê
Okaya kipunda
Mbetê
Tumana poxi
Tumana!

Tradução

Ambete lyete
Mbetê!
A outra Maria!
Mbete
Levanta e gira
Mbete!
Aquela trocha
Mbete!
Senta lá no chão
Senta!

Informante: Cristina Jaime, 36 anos de idade, natural de Ebo, comuna de Sanga, província de Kwanza Sul, profissão: doméstica, habilitação literária: 6ª classe.
Esta é uma canção de tema livre e recreativa (brincadeira), onde os participantes de ambos os sexos fazem uma roda entre si, batendo as palmas das mãos e entoando as suas vozes ao ritmo do coro da canção, pronunciado qualquer nome como vítima da brincadeira. E essa estava sujeita em fazer tudo que lhe fosse solicitado pelo grupo, assim como sentar, levantar, correr, tocar em qualquer elemento que estava na roda ou mesmo transportar certos objetos que faziam parte do jogo.

Transcrição em Ngoya (uma das variantes do kimbundu)

Tilo koteko
Teko!
Kukombe ekwowa
Kukombe ekwowa
Mama kali kamané
Teko!
Kukombe ekwowa!

Tradução
Deixa-me lá o que estás a comer
Deixa-me lá!
A visita não pede comida
A visita não pede comida
A minha mãe não acaba,
Deixa-me!
A visita não pede comida!

Esta é uma canção de tema sentimental ou súplica “lamentação de um filho”, que estava cheio de fome, porque foi educado de que a visita nunca pede comida, mas não suportando a fome, começa a cantar lembrando a sua mãe, que quando comia deixava sempre comida para ele, e na casa onde tinha ido passear já não encontrou comida, porque esses comeram muito antes da sua chegada, e esse saiu de casa sem comer nada, e como tinha vergonha de pedir pôs-se a cantar.

Transcrição em Ngoya (uma das variantes do kimbundu)

Coro: Ongembo kalayesa
Ongembo kalayesa weya
Ongembo kalayesa wé
Mungambo mano yami
Kusukula kungomala wé
Mataku ngambanhela kusukwila
Omalonga yéé!

Tradução

Coro:
A mulher do meu irmão
Não sabe lavar nem engomar!
Nádegas (rabo) dela parece banheira de lavar
Pratos (loiça)!

Informante: Cristina Jaime, 36 anos de idade, natural de Ebo, comuna de Sanga, província de Kwanza Sul, profissão: doméstica, habilitação literária: 6ª classe.
Este é um cântico crítico, geralmente cantada pelas cunhadas (irmãs do marido), para irritarem ou seja abusarem a mulher do seu irmão, por essa não saber fazer nenhum tipo de trabalho doméstico, como lavar e engomar (passar a ferro) a roupa do esposo, mas que detêm um grande corpo e especialmente umas nádegas grande “matako yonene”, que nesta canção é usada a expressão “matako ngambanhela (banheira) kusukwila o malonga”, uma figura de estilo.

Transcrição em Kimbundu

Coro: Kaxé leléé
Kaxé!
Kaxé leléé
Kaxé!
Kaxé kamoloxi
Kaxé kamoloxi
Dijina dyami wéé
Dingoloya wéé!
Eme ngyabanzé
Eme ngyabanzé
Zengulu kya
Kanzé nzé
Omano ya muka
Nzele nzele
Okitekula
Teku teku!
O kubatula
Batu batu
Tewóó!

Tradução

Coro:
Kaxé é o único
Kaxé é o único!
O meu nome é
Já estou a ir!
Eu pensei,
Já vou-me embora
Kanzé nzé!
O mano (irmão mais velho) é alegre
Nzelé nzelé!
Chama-te
Chamar chamar
Cortar!
Abrir abrir
Tewóó!

Informante: Domingas J. Kazenge, natural de Kazengu, província de Kwanza Norte, 20 anos de idade, estudante, 11ª classe.
kaxé é nome de um rapaz, e a expressão “nze (le) ou “ka – nzele” o morfema ka representa algo pequeno ou seja de nível inferior e o idiofone nzele ou nze nze, que representa nome de um inseto com aspeto de grilho. Esta é uma canção recreativa do povo de kazengu, um dos municípios de Kwanza Norte. Ela retrata uma súplica de uma jovem para o seu namorado que neste cântico é chamado de kaxé, para que não sinta medo de seu irmão mais velho, porque esse é de bom ânimo. 

Conclusão

Este foi um trabalho bastante pertinente e com um tema muito aliciante, que se pretende nas próximas pesquisas ser abordado mais a fundo e de uma forma genérica sobre os povos angolanos.
Notamos o quão é importante as canções não só para os povos angolanos, no geral, mas também para os povos Ambundu, em especial, pois as canções nestas regiões são utilizadas para vários fins, como resolução de problemas sociais, culturais, religiosos e ou mágicos.

Referências Bibliográficas

DUARTE, B. Literatura tradicional angolana, 1975, Benguela, Editora Didáctica de Angola.
RIBAS, Óscar. Misoso I, 2009, Instituto Nacional das Industrias Culturais, Luanda.

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