Características das Canções Kongo

As canções em kikongo caraterizam-se essencialmente por serem um meio de comunicação e de transmissão do conhecimento, onde se manifestam todos os sentimentos e de uma maneira muito profunda. Nas canções festivas e funerárias, encontramos um profundo sentimento em transmitir os conhecimentos da tradição secular do povo, pautado em cada indivíduo e generalizado no seio do povo. A comunicação torna-se importante para que haja uma interação entre os vivos e os mortos com Deus, porque às vezes para se chegar a Deus Todo-poderoso, é preciso fazer uma ponte com os antepassados. Nas canções festivas, detetamos uma preocupação iminente de se transmitirem o conhecimento condensado na vida de cada um, porque as canções é o veículo pelo qual se ensinam, não só todo o saber do povo, mas também as normas de conduta e convivência social, que são regidas obviamente pelas normas da sua própria cultura. Os conhecimentos são transmitidos oralmente: é nos rituais e nas festas, e até nos óbitos, que se aprende tudo sobre a vida. Já nas canções funerárias, o momento é de comunicação: estabelece-se assim o contato com o mundo invisível. As mensagens sucedem-se em busca de tranquilidade e principalmente de proteção, os deuses são chamados para ajudarem o seu povo. Acredita-se piamente que os mortos de lá do alto os veem e lhes dão a mão em tudo aquilo que precisam: consolo, amparo, cura e a sabedoria necessária para se resolverem os problemas. Por meio das canções, exaltam as virtudes do falecido, a falta que ele irá fazer não só no seio da família como também no seio do grupo e de toda a sociedade em geral. Os defeitos são lançados por meio de mini-piadas e de viva voz a fim de atingirem os seus familiares diretos, mostrando a todos a seu comportamento, tanto o bom como o mau. Assim sendo as principais caraterísticas das canções kongo são: o improviso, o paralelismo, a aliteração e o ritmo, que passaremos já a desenvolver e a exemplificar.

a)   O improviso «Improviso», etimologicamente, é uma palavra que vem do latim («improvísus») e quer dizer algo que se realiza ou se faz repentinamente e de forma inesperada, sem previsão alguma. No caso concreto das canções é tudo aquilo que se cria e se executa no momento sem preparação prévia, e essa é uma das características principais e fundamentais das canções em kikongo, onde os temas são variadíssimos e também muito explorados, uma simples frase ou pequenos gritos podem significar motivo de dança e música. Assim surgem as canções. Nas festas assim como nos óbitos, o improviso é uma constante, porque às vezes mesmo sem querer, ele surge e sob várias formas: com um simples bater de palmas, as pessoas cantam e dançam, inventam a letra e os passos de dança na hora tudo sai bonito como se fosse algo combinado. Os gestos de uma pessoa influente podem ser motivo de cantar e dançar e assim marcha a cerimónia com muito improviso, qualquer pessoa pode improvisar e todos entram na onda, cantando e dançando.

Exemplo: Kikongo                                                               Português

Twenda                                                                                     Vamos

Twende no 5×                                                                        Vamos 5×

Twende no kwa mvuluzi 2×                                             Vamos ao Senhor 2×

No coro da canção Twende no (vamos) encontramos uma espécie de improviso pois acreditamos que seja uma criação repentina e do momento sem qualquer preparação, onde o verdadeiro corpus da canção pode ser mudado em detrimento de umas quantas palavras ou vocábulos inventados, mantendo-se o coro para a sustentação do próprio convívio, o de tristeza no caso.

b)   O paralelismo O paralelismo é a repetição da construção frásica de modo que a estrutura gramatical e a ordenação dos elementos se mantenham, ainda que as palavras usadas sejam diferentes. Repetições em estâncias sucessivas, quer de sentidos, quer de construções sintáticas. O paralelismo apresenta-se também como uma das características fundamentais das canções em kikongo, porque como já dissemos anteriormente através de uma simples repetição do nome por exemplo do morto para se criar uma nova canção e dança e isso é muito frequente e verifica-se com clareza nas canções em anexo.

Exemplo: Kikongo                                              Português

Vo musamu mena yaku                                   Se estais em pecado

Lomba nlenvu                                                      Peça perdão

Kansi wa yambululu onkwaku                 Mais tens que deixá-los

Tina yeyeye                                                      Foge dele

E e tina masumu                                                Foge do pecado

Vo kindoki kina yaku                                     Se és feiticeiro

Lomba nlenvu                                                       Peça perdão

Kansi wa yambululu onkwaku                   Mais tens que deixá-los

Tina yeyeye                                              Foge dele

E e tina masumu                                        Foge do pecado

Tina yeyeye                                            Foge do pecado

A canção Tina masuma (foge do pecado) é quase um paralelismo na sua totalidade porque a construção frásica mantém-se do início ao fim, mudando apenas alguns substantivos que servem de diferenciação durante a entoação.

c)   A aliteração A aliteração é a repetição de um ou de vários fonemas ou letras na mesma palavra, na mesma frase ou no mesmo verso. Isso é praticamente igual ao paralelismo que já explicamos acima:

Exemplo: Kikongo                                                              Português

Sambanga, sambanga                                                               Reze, reze

Emama olusende 2×                                                                  Ó mãe o pico 2×

Yakalanga yo  pai                                                                       Vivia com o pai

Ya toma nyemenene olusende                                               Tinha o meu pico

Wa kafwa kwandi,                                                                      Agora que ele morreu

Nani dyaka nyema yandi olusende?                                   Quem mais vai me dar o pico?

A primeira parte da canção Sambanga (reze) é uma aliteração perfeita, visto que o fonema «olusende» aparece repetido três vezes dentro do mesmo verso e isso é uma decorrência constante dentro do texto.

d)   O ritmo Do latim, «ritmo» («rthytmus») é uma sequência de tempos fortes e fracos de um verso. Pode significar também repetição periódica dos tempos, ou partes de tempo, da qual resulta o compasso. O ritmo é um êlam vital, que obedece a uma expressão estética e artística de criação. As canções em kikongo apresentam muito ritmo e esse ritmo acompanha a vida do Mukongo em tudo. O ritmo é uma característica que se encontra praticamente enraizada nas canções que delas fazem uso para entreter cada vez mais a vida quotidiana.

Exemplo: Kikongo                                               Português

Am, am, am, am                                                  Am, am, am, am

É bamama luyangalele                                      Mamãs, se alegrem

Am, am, am, am                                                   Am, am, am, am

Nzambi kalanga yetooo                                     Deus estará connosco

Am, am, am, am                                                     Am, am, am, am

Kwenda yeto                                                            Está connosco

Kwenda yeto um ntangu zazo                            Está connosco em todos os momentos

Am, am, am, am                                                      Am, am, am, am

É batata luyangalele                                             Papás se alegrem

Am, am, am, am                                                   Am, am, am, am

Nzambi kalanga yetooo                                      Deus estará connosco

Am, am, am, am                                                      Am, am, am, am

Kena yeto                                                                  Está connosco

Kwena yeto mu ntabgu zazo                                Está connosco em todos os momentos

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) por Domingas H. Monteiro  

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