ENTREVISTA À LINGUISTA ANA MARIA DE BRITO, PROFESSORA CATEDRÁTICA DA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO.

«É necessário estudar as línguas africanas, descrevê-las em gramáticas e em dicionários».

Ana Maria Barros de Brito Breve Curriculum Vitae Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade do Porto na área da Linguística, desde Abril de 2004. Docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto de 1976 ao corrente ano em cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento em Linguística; orientadora de cerca de 28 dissertações de mestrado e 3 de doutoramento. Autora e coautora de vários livros na área da Linguística, nomeadamente da Gramática da Língua Portuguesa, Caminho, Lisboa, 2003; autora de cerca de setenta artigos em vários temas da sintaxe do Português numa perspetiva comparada. Diretora de Linguística, Revista de Estudos Linguísticos da Universidade do Porto, desde 2010.

MW – Comecemos doutora com o assunto do momento, o acordo ortográfico. Como analisa o processo da sua implementação?  

AMB – Do meu ponto de vista, a implementação do acordo ortográfico poderia estar a ser mais homogénea e equilibrada nos diferentes países; mas por razões que dizem respeito a cada um, o acordo está ser implementado a ritmos diferentes. Apesar de poder haver ritmos diferentes, creio que não haverá grandes problemas e que o acordo acabará por ser implementado. MW – Qual é a importância de se estudar o português num contexto social?

AMB – O português é uma das línguas mais faladas do mundo e está presente em muitos organismos internacionais; é, portanto, uma língua prestigiada e para um falante de Angola ou de qualquer dos países que pertencem à chamada comunidade lusófona é importante e uma mais-valia saber comunicar em português.

MW – Qual deve ser o papel dos meios de comunicação no resgate ou no valorizar os usos mais particulares da fala?

AMB – Os meios de comunicação de massa são importantes difusores da variante padrão das línguas e, nas sociedades modernas, o seu papel é quase tão importante como o da instituição escolar. Tal como a escola se deve abrir a outras variantes, sem as menosprezar, também os meios de comunicação podem dar algum espaço a variantes sociais e dialetais, sem pôr em causa o papel unificador da variante padrão.

MW – Fale-nos da situação sociolinguística de Angola.

AMB – Nunca estive em Angola e o meu conhecimento é apenas teórico. Angola, como a maioria dos países africanos, é um país plurilingue, onde convivem línguas do grupo bantu e um pequeno número de línguas do grupo khoisan. Tais línguas são L1 (ou materna) para mais de 80% da população, uma população de 17 milhões de falantes; menos de 20% fala português como L1; não tenho dados seguros acerca do número de falantes que tem o português como L2. Como acontece na grande maioria dos países africanos, Angola é um país desigual do ponto de vista sociolinguístico, com 36% da população concentrada nas cidades e é nessa população urbana que o uso do português como L2 é mais acentuado.

MW – Como analisa a convivência do crioulo com o português?

AMB – Não é igual estarmos a falar de Cabo Verde ou de S.Tomé. No caso de Cabo Verde, mais uma vez, o crioulo é L1 da maioria da população e o português é L2. A sociedade cabo-verdiana tem um forte sentido de identidade linguística e cultural face ao crioulo e grande parte da classe política e da elite cultural pensa que o crioulo deveria ser oficializado como língua. A aprovação do ALUPEC, uma norma ortográfica para a escrita do cabo-verdiano, em 1998, pelo governo do país, para ser usado como modelo experimental, durante um período de cinco anos, poderia ter contribuído para a oficialização da língua. Tal ainda não foi feito por muitos motivos; essa é uma decisão que cabe exclusivamente ao povo e governo cabo-verdianos.

MW – Como analisa a convivência do português moçambicano com o português padrão?

AMB – Moçambique é um país ainda mais complicado do ponto de vista linguístico do que Angola, pois enquanto em Angola há meia dúzia de línguas africanas dominantes, em Moçambique as línguas são mais numerosas (entre 13 e 20, conforme as contagens). Por essa razão o papel “unificador” da língua colonial é importante. No censo de 1997, o português era a L2 de cerca de 39% de pessoas que têm uma língua bantu como L1, enquanto o censo de 1980 indicava que apenas 23% da população falava português como L2; vemos assim que o número de falantes de português aumentou consideravelmente, o que mostra que o português é considerado língua de prestígio.

MW – Quais são os fenómenos sintácticos e lexicais que podem ser identificados no português moçambicano?

ÃMB – A variante moçambicana tem sido estudada por alguns linguistas, entre eles a Prof. Perpétua Gonçalves, docente da Universidade Eduardo Mondlane. Esta linguista identificou já alguns fenómenos em que parece haver alguma sistematicidade e estabilidade no português moçambicano oral: (i) alguma tendência para a transitivização de verbos (“a pessoa ficou sem nascer ninguém”); (ii) tendência para o uso da construção de duplo objecto (“entregou o emissário as cartas”, em vez de “entregou ao emissário as cartas”); (iii) uso de “dequeísmo” e “paraqueísmo” em construções de complementação verbal (“dizendo de que hoje quero ver-te”; “combinou com o meu pai para que eu fosse à escola”); (iv) uso recorrente da preposição “em” com verbos de movimento (“ele chegou em casa”). Do ponto de vista lexical há naturalmente muitos empréstimos do português para as línguas nacionais e das línguas nacionais para o português. Há alguns estudos nesta área; mais uma vez, vou referir-me a um estudo de Perpétua Gonçalves e Bento Sitoe, que identificaram palavras do português no changana (uma das línguas do sul de Moçambique): pawà (de pão), rumázeya (de armazém), fofó (de fósforo). E palavras do changana no português: lobolo (o tributo pago pelos pais da noiva), dumba-nengue (mercado informal), tchova-xitaduma (transporte de tração animal ou humana).

MW – Sabemos que orientou algumas teses de mestrado em Linguística Africana, fale-nos desses trabalhos.

AMB – A Faculdade de Letras da Universidade do Porto esteve envolvida num mestrado em Linguística na Universidade Pedagógica de Moçambique, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; esse mestrado teve início em 1998 e prolongou-se por alguns anos. O objectivo era formar docentes da Universidade Pedagógica em Linguística; nesse curso foram realizadas 9 teses em áreas tão diferentes como a sintaxe, a semântica, a lexicologia, a linguística aplicada ao ensino da língua. Um dos mestres fez depois o doutoramento em Linguística também na Faculdade de Letras e sei que outros estão a realizar o doutoramento quer na Universidade Eduardo Mondlane quer em universidades brasileiras. Além disso, tem funcionado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, embora de forma um pouco irregular, o Mestrado em Estudos Africanos. A parte curricular desse mestrado funcionou duas vezes em Cabo Verde, um ano na Praia, outro ano no Mindelo. Foi uma experiência muito interessante. Nesse mestrado orientei quatro dissertações, todas relacionadas com o Crioulo de Cabo Verde, quer centradas em questões de ensino, quer em questões mais linguísticas. Esta experiência de ensino e de orientação fez-se no quadro de uma disciplina intitulada Linguística Africana, que é um termo muito abrangente e porventura inadequado (praticamente ninguém usa os termos de Linguística Europeia ou de Linguística Americana…). Mas o que é certo é que tal disciplina fez algum sentido num mestrado de Estudos Africanos e tive muito gosto em lecioná-la.

MW – Faça uma breve abordagem sobre as línguas africanas e a sua convivência com as línguas ocidentais.

AMB – Em geral, as línguas africanas convivem hoje numa relação de paz e de liberdade com as línguas ocidentais, que foram línguas dos povos colonizadores; mas essa convivência é complicada e deve ser motivo de reflexão a vários níveis. Por um lado, as línguas estão em contacto e o contacto, sabemos bem, é uma das razões principais para a mudança. Por isso, vamos assistir e já estamos a assistir a um processo de “emergência” de variantes nacionais, que pouco e pouco se estão a afastar das variantes padrão das línguas coloniais. Por outro lado, é preciso não esquecer as línguas africanas; se elas não forem apoiadas correm o risco de extinção, pelo menos as menos faladas. É necessário estudar as línguas africanas, descrevê-las em gramáticas e em dicionários. Finalmente, é preciso ponderar as vantagens e as desvantagens de se fazer de algumas línguas africanas línguas de ensino, sobretudo nos níveis básicos. Há organismos internacionais que recomendam o uso das línguas nacionais como línguas da educação básica. A adopção de línguas nacionais como línguas oficiais e de ensino é uma medida que cabe aos povos e governos africanos. Essa medida envolve muitos meios financeiros e tem de ser ponderada. Uma coisa parece certa: o bilinguismo e o multilinguismo, vistos da perspectiva dos falantes, são sempre mais-valias; por isso, as medidas a tomar pelos governos deverão ser sempre no sentido de favorecer o bilinguismo e o multilinguismo.

Por Domingas Monte

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