ENTREVISTA AO ANTROPÓLOGO CARLOS MENDES, DOCENTE NO INSTITUTO POLITÉCNICO VIANA DO CASTELO

Carlos Mendes é antropólogo e ensina no Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Atualmente, desenvolve pesquisas nas áreas da antropologia do ambiente e do desenho etnográfico.

«Um museu de «arte colonial» na biblioteca: A arte indígena portuguesa de Diogo de Macedo e Luís de Montalvor (1934)».

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1 – Como surgiu a ideia de fazer este trabalho?

Foi um dos livros que trabalhei na minha tese de mestrado. Entre outras coisas, estava interessado em perceber a receção da escultura africana em Portugal e, sobretudo, se as ideias que sobre ela circulavam nos principais centros artísticos europeus do princípio do século XX tinham tido algum impacto cá. O livro “Arte indígena portuguesa” surgiu como uma expressão muito rara desse impacto, mas perfeitamente sintonizada com o tempo.

2 – Qual é o contexto original do livro «Arte indígena portuguesa»?

Nos anos 30, o escultor Diogo de Macedo publicou uma série de artigos sobre arte africana numa revista chamada O Mundo Português. Esses artigos acabariam por ser compilados em livro, em 1934, numa edição que se pode considerar de luxo, muito cuidada graficamente, como as que se faziam em França e na Alemanha desde a década de 10. Estes livros, como o influente Negerplastik de Carl Einstein, que Diogo de Macedo conhecia bem, forneceram-lhe um discurso novo para abordar a escultura africana.

Por outro lado, o livro foi publicado pela Agência Geral das Colónias e, como tal, também teve propósitos de propaganda colonialista, mesmo que esta não fosse a motivação de Diogo de Macedo. Este enquadramento é importante, porque nos ajuda a perceber como as novas ideias modernistas sobre a escultura africana raramente representaram uma verdadeira rutura com o olhar colonialista sobre as populações africanas e a cultura material destas.

3 – Como se deu o seu contato com este livro?

Foi por acaso. Uma vez, a minha mulher comprou uma pequena coleção, incompleta, da revista O Mundo Português que encontrou bastante barata numa feira num jardim da Parede. Por sorte, essa série de artigos do Diogo de Macedo sobre arte africana estava completa e interessou-me logo. Depois, como toda a gente que procura uma minudência qualquer sobre a arte portuguesa, encontrei uma pequena menção ao livro n’A Arte em Portugal no Século XX de José-Augusto França e também num catálogo do Museu Nacional de Etnologia. Acabei por o consultar na Biblioteca Nacional, já conhecendo, no essencial, o que lá viria a encontrar.

4 – Que tipo de resultado pensava obter ao decidir se engajar neste projeto?

Quando se fala – erradamente, diga-se – em “descoberta” da escultura africana na Europa das primeiras décadas do séc. XX, tende-se a colocar a ênfase nas exposições e nas coleções dos museus, mas os livros tiveram um impacto tão ou mais importante. Veja-se o caso de Fernand Léger que, quando preparava a conceção dos cenários e figurinos do bailado “A criação do mundo” para os “bailados suecos”, teve uma oferta para ir a Londres ver esculturas africanas, mas preferiu inspirar-se nas peças reproduzidas em livros de Carl Einstein e Marius de Zayas.

Por outro lado, quando se fala destes livros e fala-se pouco deles põe-se também muita ênfase nos textos, negligenciando-se a relevância do discurso visual. Por exemplo, num texto de Ernesto Veiga de Oliveira em que se fala de “Arte indígena portuguesa”, apenas os textos são comentados, quando estes têm apenas 20 páginas e as imagens reproduzidas ocupam 70. Isto intrigou-me logo que comecei a trabalhar sobre livros de arte africana e, dando atenção à iconografia, procurei perceber que papel podem ter tido a fotografia e os fotógrafos de arte naquilo a que chamamos a “recontextualização” da escultura africana na Europa.

5 – Acha que um trabalho como este poderia representar uma renovação das possibilidades contemporâneas do fazer antropológico?

Não, definitivamente. Desde logo, porque é um trabalho com um âmbito muito limitado e que até dificilmente poderá ser classificado como antropológico. É um estudo de literatura comparada feito por um antropólogo. Ou, talvez melhor, por alguém que pensa sempre como antropólogo. Por essa razão, quando trabalho sobre um livro é inevitável que procure os seus contextos de produção e circulação, o seu papel na circulação de ideias, que analise a própria materialidade do livro, que pense na fotografia e na reprodução fotográficas como tecnologias, etc. Olho para os livros como antropólogo, sem dúvida. Porventura, por esta razão, será uma pesquisa mais capaz de ser original – por assim dizer – nas áreas dos estudos literários ou interartísticos. Mas, claro, estamos a falar de um trabalho que não tem, e possivelmente jamais terá, a menor influência nos estudos académicos.

6 – Do ponto de vista estetizante e modernista o que se pode dizer de «Arte indígena portuguesa»?

Este livro demonstra de um modo muito evidente que Diogo de Macedo estava bastante familiarizado com as convenções “primitivistas” da época. O livro foi concebido para promover uma apreensão não mediada das esculturas reproduzidas que aparecem em cadernos hors-texte e sem legendas contextualizadoras (de resto, é significativo que estas legendas tenham desaparecido da publicação original em revista para o livro).

7 – Até que ponto as imagens representadas nessa obra podem ser consideradas verdadeiras obras de arte?

Normalmente, demito-me de classificar (ou desclassificar) o que quer que seja como “arte” ou “não-arte”. Não é apenas por falta de autoridade (que me falta, de facto) ou simplesmente por prudência. Neste caso, é sobretudo por consciência de que a “arte” é uma categoria cultural de resto, relativamente recente, em termos históricos que seguiu o seu curso por referência à arte ocidental. Como tal, sempre que nos interrogamos sobre se um objeto proveniente de outras culturas deve ou não ser considerado “arte”, estamos, na realidade, a perguntar-nos se é merecedor de figurar junto dos cânones da arte ocidental. Quando uso a expressão “arte africana”, uso-a sobretudo por comodidade, digamos, comunicacional por saber que no recetor se produz uma imagem, mais ou menos vaga, daquilo de que estou a falar.

8 – O que a arte africana representava nessa época? Na altura em que foi lançada «arte indígena portuguesa»?

Em Portugal, nos anos 30, não se falava de arte africana. São muito raros, raríssimos, os textos sobre escultura africana. Para se ter uma ideia de como eram vistas as peças africanas, em 1936, Diogo de Macedo organizou uma exposição de “arte gentílica” – uma das muitas formas de a classificar naquele tempo – na Sociedade de Geografia de Lisboa. Nessa altura, ele, que tinha como referência a exposição “African Negro Art” que esteve no MOMA no mesmo ano, escreveu muito ressentidamente sobre a receção da exposição da Sociedade de Geografia. Queixava-se de todos, na verdade. Dos jornalistas e críticos que não lhe dedicaram uma linha; dos visitantes que troçavam dos objetos; dos professores que não tomavam a exposição com seriedade nas visitas escolares. Todos viam “manipanços” e “feitiços” risíveis ou escandalosos onde ele via formas de expressão artística.

9 – E na atualidade o que representam e como são vistas?

Com ambivalência. Por um lado, a aparência de que existe um consenso geral de que são formas de expressão artística. Por outro, esta ideia é constantemente reafirmada, como se a arte africana estivesse continuamente a ser “redescoberta” desde o princípio do século XX.

10 – Qual a profundidade ou a importância do trabalho de Diogo de Macedo e Luís de Montalvor?

A importância do trabalho sobre arte africana é sobretudo histórica. Isto é, podemos apontá-lo como exemplo pioneiro em Portugal, em relação à receção da arte africana. No entanto, bem ou mal, não deixou influência, nem sequer nos modernistas da segunda geração.

11 – Fale-nos de outros autores dessa época e da relevância dos seus trabalhos.

Em 1923, António Ferro publicou um pequeno livro chamado A idade do jazz-band. Num outro livro, relata uma visita ao Harlem, numa viagem aos Estados Unidos, em que ouviu um conjunto de jazz ao vivo. Antes de Diogo Macedo, foi ele quem melhor compreendeu as convenções primitivistas que estavam em voga em Paris ou Berlim nesse tempo.

12 – Qual o primeiro museu que se lembra ter visitado e que memórias guarda dessa primeira experiência ou outros museus que o tenham marcado?

A memória muito remota de uma visita de estudo ao Aquário Vasco da Gama, ainda na escola primária, nunca me abandonou, e, de alguma maneira, é nessa memória que se funda uma espécie de interesse por temas ligados à “viagem” e à “memória”. Ainda outra visita escolar, já no liceu, ao Museu Nacional de Arte Antiga, em que vi, pela primeira vez, um quadro de Bosch. Como não existiam, na minha família, hábitos de visitar museus, serei, talvez, um exemplo da importância que pode ter o ensino oficial na criação de interesses.

13 – Quais os museus que visita hoje sem ser por questões profissionais?

Muito poucos. Apenas quando viajo, a bem dizer, o que faço pouco. Se pudesse, gostaria de visitar o museu etnográfico da Sociedade de Geografia de Lisboa sem o acompanhamento de um guia, o que, infelizmente, não é possível. De resto, vejo exposições regularmente, quando o artista ou o tema me interessam. Recentemente, interessou-me a exposição de Miguel Palma no Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela.

14 – Falando um pouco do seu percurso profissional, como é que se dá essa aproximação ao património e aos museus?

Como visitante e leitor. Apenas isso.

Por Domingas Monte 

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