Retrato negro

Menino de rua sou eu
Que deambula nas ruas de Luanda
De braço estendido em qualquer banda
Descalço e sujo a pedir esmola
Ninguém ouve o meu lamentar
Nem o meu chorar
Se pelo menos me dessem atenção
Saberiam…
Que tenho fome
E que estou doente
Não quero dinheiro nem roupas
Só quero pão com chá
Nunca mais comi
Conto os dias, as horas e os segundos
Para poder comer
Sou esfomeado, tão esfomeado
Que sinto o cantar das lombrigas
No meu estômago

Menino de rua sou eu
Que dorme ao relento
Sem teto
Sem cobertor, sem alma
Ninguém ouve o meu grito sufocado
Se pelo menos me dessem atenção
Saberiam…
Que fui brutalmente espancado
Insultado e acusado de feiticeiro
Dizem que comi a minha irmã
Como poderia ter comido a minha irmã
Se ela morreu de fome?
Com um estado avançado de desnutrição?
Minha mãe me desprezou
Meu pai, minhas mãos e pernas queimou
Disseram que era para eu parar de voar a noite
E que não queriam feiticeiros na família

Menino de rua sou eu
Abandonado…
Porque tenho malária e HIV
Sem tratamento, sem medicação
Todo mundo passa por mim
Como se eu não existisse
Se pelo menos me dessem atenção
Saberiam…
Que necessito de carinho e amor
Apenas isso
Um sorriso, um aceno, um beijo

Por Domingas Monte

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