Os Bakongo e os ritos funerários

Os ritos funerários têm normalmente uma duração predefinida, decidida em reunião breve, após a morte de alguém, pelos «mfumo a kanda»1 e variam entre os três (3) e cinco (5) dias. Nessa reunião também é decidido o dia do funeral e da resolução de todos os problemas, entretanto o óbito pode ser prolongado em função da presença de todas as partes a que pertence o falecido. Na cultura kongo, a pessoa pertence a três partes, que são: «ki ngudi, ki sé e ki nkaka»2.

Na vida moderna quando morre uma pessoa, independentemente do local onde tenha acontecido e como tenha morrido, é levada à morgue onde permanece alguns dias ou algumas horas, no caso de uma criança, até um dia antes ou algumas horas antes da cerimónia do funeral, dependendo das possibilidades de cada família. Logo há uma gritaria e um choro provocado pela perda de alguém muito próximo e querido.

Os próprios pais do morto ou então os familiares mais próximos, os da casa onde aconteceu a morte começam a cantar e a dançar, para incentivar as outras pessoas que pouco a pouco vão enchendo o local, porque ouviram o barulho e outras pessoas porque foram avisadas. Aí as vozes se levantam ouvem-se os gritos dos que choram e lamentam. Nos óbitos às vezes as pessoas que mais choram e gritam, mesmo não estando diretamente ligadas à pessoa que morreu não estão a chorar o defunto presente: vão ao longo do choro e dos gritos, lembrando-se dos seus antepassados que já partiram dessa vida e dos problemas que enfrentam na sua ausência.

Nos bakongo, logo que a pessoa perde a vida, tem que se pôr ao corrente toda gente, principalmente os «mfumu a kanda» tanto materno como paterno e o porta-voz, porque sem eles, o funeral não se pode realizar. São eles que acolhem as pessoas e resolvem os problemas concernentes ao caso. Explicam como a pessoa morreu, se por doença ou por acidente e pode ser o caso se uma morte provocada, como se acredita muito entre os bakongo que exista uma pessoa capaz de tirar a vida a outra pessoa por forças maléficas, ou seja, acreditam existirem feiticeiros que fazem mal aos outros, aos próprios membros da família e da comunidade.

Antigamente a notícia dos óbitos transmitia-se por batucadas, fumo, armas de fogo, e pelas próprias crianças e jovens que anunciavam o sucedido de porta em porta e de aldeia para aldeia.

Havia um toque de batuque muito próprio, que era emitido do mondo ou do tambor «koko» para avisar as pessoas, de que o sítio onde vinha aquele som havia óbito. Através de uma fogueira espalhava-se o fumo de uma maneira muito peculiar em sinal de óbito também. Quanto à arma de fogo, o disparo era feito em cima de um de um telhado. As crianças iam nos locais mais distantes, onde não se ouviam esses sinais, avisando de casa em casa, de aldeia para aldeia.

O «nfumu a kanda» das duas partes, materno e paterno e também o «kinkayi» se responsabilizam por tudo; colocam no centro da mesa uma tigela ou panela onde se mete todo dinheiro que vão recebendo. Esse mesmo dinheiro se gasta para a despesa do óbito, como compra de comida, de bebida e os lençóis com que se tapa o morto e o que sobra é dividido entre os filhos, netos e bisnetos.

O mukongo esta consciente de que quando vai a um óbito, além de participar da dor da família enlutada ou da sua própria família, deve também contribuir com um «nkangu»3, para ajudar nas despesas, isso dentro do conceito de que o fardo da morte não é levado por uma pessoa apenas.

As canções funerárias são normalmente cantadas aquando da morte de alguém pelos amigos, que em vista do morto choram com a família. Elas têm sempre um solo, que é cantado por uma senhora, parente ou não do morto. Geralmente essas senhoras fazem parte de um grupo coral, a que se segue um coro dolente e aflitivo, canta-se em volta à cama do defunto.

As noites e principalmente na primeira noite, serve-se café (bem forte) a todos, para evitar que adormeçam, só assim é que tomam coragem para formarem uma roda onde dançam e cantam noite adentro.

No cemitério e na hora de enterrar o defunto, no caso de ser um jovem ou uma criança, e porque pensa-se que ainda é cedo para se morrer, chega-se a conclusão que é uma morte provocada, e num passado não muito longe os mais velhos rogavam pragas por todos os lados. Para que essa criança ou jovem não descansasse tinha a missão de voltar para vir vingar a sua morte: «onde vais não durmas e nem descanses, tens que vir buscar que te matou». Nos dias de hoje, com a crença acentuada em Deus, já não se fazem essas práticas. Quando chega a hora do enterro, faz-se uma pregação, por parte de um padre ou pastor, com uma oração final: «Que descanse em paz e que Deus arrebate sua alma!».

No caso da morte de um velho, não tem problema nenhum, porque ele cumpriu com a sua missão na terra: soube transmitir todos os conhecimentos que foi acumulando ao longo de sua vida, e deixa um legado, que vai com certeza ser transmitido de geração para geração. Então, no seu óbito é festa: não se chora, na verdade, ou chora-se, mas de maneira ponderada. Esse caso se assemelha um pouco com o dos gémeos, que quando morre um não se pode chorar, sob pena do outro que ficou também morrer. Pode-se destacar dois elementos: a figura do «mfwidi»4 e o  sinal de óbito.

a)   O «mfuidi» é facilmente identificável pela sua característica própria, é o mais triste, parece que é só ele(a) que sente a falta do (a) falecido).

b)   Dimbu kilufua (sinal de óbito)

Nos óbitos da vida urbana de hoje, normalmente usam alguns sinais para se mostrar que se está de óbito: um sinal de óbito é aquele que se usa quando se tem óbito pelos familiares do defunto. Geralmente é um paninho branco que se amarra a cabeça ou no pulso ou ainda no dedo de crianças, enquanto decorre o óbito. Já no dia do funeral, usa-se uma camisola com o rosto do defunto estampado e os seguintes dizeres: adeus tia, adeus avó, adeus mãe; adeus pai, adeus mano,etc. ou ainda um uniforme, feito para a ocasião, mas só para os mais íntimos.

Atualmente, para os bakongo, pelo menos nos centros urbanos, óbito que é óbito tem que ter uma grande demonstração de poder, tanto no vestuário como na comida e bebidas.

Como já se referiu Mário Milheiros na sua obra, anatomia social dos maiacas, os bakongo apontam cinco causas de morte: doença, desastre, fome ou sede, vingança dos vivos e por feitiçaria ou «kindoki»5

Atribuem a morte à doença, quando a pessoa antes de morrer, vive durante alguns dias e vai piorando a pouco e pouco até a sua morte.

Atribuem-na a desastre, quando uma queda ou acidente motivou a lesão grave. Todavia, mesmo certas mortes por desastre, atribuem-nas a poderes maléficos.

A fome ou sede também pode provocar a morte, se a privação de alimentos e bebidas é manifesta.

A morte da vingança dos vivos, é por desafronta de um ofendido, este mata quem o ofende. Já os «bandoki»6 matam subitamente, o doente sucumbi repentinamente.

Glossário:

«mfumo a kanda»1 – Chefe de família

«ki ngudi, ki sé e ki nkaka»2 – que pertence a mãe, ao pai e aos avós

«nkangu»3 – uma pequena quantia monetária que se dá nos óbitos para ajudar nas despesas

«mfwidi»4 – a pessoa mais íntima e próxima do falecido

«kindoki»5 – Feitiçaria

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) Domingas H. Monteiro

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