Catarina Atrevida

O senhor João e a senhora Isabel tinham três filhas. A mais nova, Catarina Atrevida, era a mais esperta. Todas aprenderam a ler.

Já mulheres, o pai encarregou Catarina Atrevida de orientar as irmãs. Entretanto deu a cada uma um vaso com uma planta, que observava diariamente. E por aí verificava o procedimento das filhas.

Os pretendentes às mais velhas foram aparecendo. Mas nenhum ficava, logo Catarina Atrevida aconselhava as irmãs a não os aceitar: todos possuíam defeitos.

Os pais, por carta de Portugal, têm que la ir. Catarina Atrevida recebe instruções para vigiar as irmãs. Para maior autoridade, ocupou o quarto delas.

Os candidatos voltam à carga. A mais velha, reagindo contra a submissão á mais nova, acede à declaração. A do meio decidiu continuar a acatar os conselhos de Catarina Atrevida.

De noite, a mais velha atendia o namorado. À primeira entrevista, Catarina Atrevida abriu a janela e espreitou. Admoestou. Ela não ligou.

Sua planta aparece murcha. Catarina Atrevida nota-o à irmã. Ela faz-se ingénua. Mas o ventre foi-se-lhe pronunciando, e um filho nasceu.

Contava a criança vinte dias, quando chega uma carta dos pais, anunciando a sua vinda.

Catarina Atrevida, para valer á irmã, compra uma cesta e lindas flores. Com moinha de carvão, carateriza-se de negro, e, vestindo-se de panos, sai à rua a vender as flores. Mas, no fundo, ocultara a criança, dispondo as flores de modo a permitir-lhe a respiração.

Bate á porta da família do namorado da irmã. A mãe compra as flores, acha-as muito bonitas. Obsequiosa, Catarina Atrevida oferece o cabaz.

Quando a senhora retira as flores, acha uma criança. Surpreendida, contempla-a. Era o retrato do filho! Chama os familiares. Todos confirmam a parecença. Só o autor nega a obra.

Chegam os pais da Catarina Atrevida. No dia seguinte, o pai pede os vasos. A planta da mais velha está frouxa. Mas Catarina Atrevida apresenta duas vezes o seu. O pai fica satisfeito com o porte das filhas.

O namorado da mais velha quer reatar o namoro. Ela repele-o. Ele declara-se então a Catarina Atrevida, que aceita a corte.

O namorado é rápido. Ao pedido de casamento, abreviam-se os preparativos. Catarina Atrevida arruma a sua nova resistência.

Em vésperas, confecciona um enorme bolo, com a forma e tamanho duma pessoa. Guarda-o num quartinho. No dia nupcial, coloca-o na cama, envolto no lençol. É ela a primeira a recolher. Mas oculta-se por debaixo do leito, o boneco figuraria a sua pessoa.

Quando ele entra, atira-lhe de chofre:

– Sabes porque me casei contigo?

O boneco, movido por uma corda, volteou negativamente a cabeça.

– Não sabes? Só mexes a cabeça? Pois foi para te matar! – E virou-lhe uma punhalada.

O recheio salta-lhe para o corpo. Sentindo o dulçor, põe-se a lamber, pranteando ao mesmo tempo:

– Ai, matei a minha mulher, que tão doce é!

Catarina Atrevida, aproveitando aquela excitação, escapa-se matreiramente. Vai ter com os seus pais, contas-lhe tudo: o deslize da irmã, o ardil usado na entrega do filho, o motivo do seu casamento.

– Agora, quem vai para o meu lugar é a mana, para criar o seu filho. – Propõe.

Vão a casa do furioso noivo. Ainda o encontram a lamber-se, todo choroso:

Aí, que doce é a minha mulher!

E a mais velha assumiu a dignidade que realmente lhe competia.

(Narradora: Rita Manuel, sexagenária de Luanda).

In Óscar Ribas, Missosso vol I, 2009, Lisboa, edição Ministério da cultura, pag 101.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: