A Serpente

A senhora Maria e o senhor João viviam já há muito tempo. Mas nada de aparecerem filhos. A senhora Maria, desgostosa, resmungava, constantemente:

– Hexi! Fartamo-nos de trabalhar, é em casa, é nas lavras, para que? Para os outros comerem, para muita coisa se estragar! Se tivéssemos um filho, já ele nos ajudaria a comer o que colhemos…

O homem consolava-a:

– Para que aborreceres-te? Como tu há muitas mulheres que não têm filhos… Continuemos a trabalhar na nossa vida. Haja saúde e pronto.

A mulher não se conformava, sempre a lamentação estava na sua boca.

Um dia, sonha que estava na lagoa, provendo-se de água. Inesperadamente, uma velha a interpela:

– Senhora Maria!

– Senhora…

– Andas sempre a resmungar por não teres filhos. Se tivesses um filho gostavas?

– Gostava.

– Bem. Mas não contes o sonho a ninguém.

A senhora Maria despertou. Sentou-se na cama. Apreensiva, pôs-se a fumar o seu cachimbo.

O homem, acordando também, estranha-lhe aquela atitude:

– Senhora Maria, que tens tu?

– Nada… Não tenho sono…

– Nada, não. Nunca fumaste a esta hora…

A mulher, fiel a recomendação, nada revelou. Quis sair: aquela conversa de filhos enchia-lhe a cabeça. Mas o companheiro dissuadiu-a. Para quê expor-se a um perigo? Não sabia que os bichos andavam perto a essa hora?

O sono é como a morte. E o sono roubou-a. O homem, no entanto, já havia adormecido.

A senhora Maria, de novo no sonho encontra-se outra vez na lagoa, buscando água.

– Senhora Maria! – Chama-a a mesma voz.

– Senhora…

– Se te der um filho cumpres as suas quijilas? – sim senhora, cumpro-as.

– Vou dar-te um filho. Mas cuidado! Ele não pode ver a cara em espelho ou vidraça. Se vir desaparece.

A senhora Maria de manhã, levantou-se contente. Não desvendou nada ao companheiro, nem este lhe tocou o incidente da noite.

O ventre foi-se-lhe alteando. O homem parecia não reparar nisso. Só o povo murmurava.

– Hela! Já viram? A senhora Maria está grávida! Reparem só na barriga dela!

Nas histórias, o mês e um dia. E no tempo devido, a Senhora Maria deu a luz. Veio a parteira, e uma linda menina nasceu

O povo comenta:

– Então a gente não dizia? Ela estava mesmo grávida. Vejam lá, há tanto tempo sem filhos!

Nessa mesma noite, sonha com o tal ente.

– Senhora Maria – diz-lhe – dei-te o filho. Agora ninguém veja a criança. Ela não pode sair sem te avisar.

A senhora Maria assim fez. Para que ninguém visse a filha, deixou de ir a lavra. E quando ia a lagoa, ficava o pai a vigiar a criança.

Já a petiza gatinhava, quando a senhora Maria torna a sonhar com a estranha personagem.

Senhora Maria, a criança já pode sair. Chama-se samba. Mas cuidado com ao que te recomendei: não pode ver-se em espelho nem em vidraça.

O povo, ao vê-la espantou-se. – Eh! Eh! Eh! Mas que beleza de criança!

A mãe passou a trabalhar na lavra, ficando a pequena a brincar com outras crianças.

Filha única, samba apresentava-se sempre bem arranjadinha. Todos os mimos não lhe bastavam. Já com mais idade, os pais também a levaram a lavra. Mostraram-lhe as plantações de mandioca, de batata-doce de jinguba, de quanto existia. Samba ria-se, achava graça àquelas novidades. Pai e mãe encheram duas grandes quindas.

Quando regressavam desabava um aguaceiro. Deitam a correr; Mas samba não se apressava.

A mãe receosa que acontecesse algum mal à filha, não habituada a essas agressividades, rompe um pranto de chamamento:

Samba,f oge da chuva,

Minha filha!

Samba foge da chuva!

A filha mal correndo respondia:

Mamãe não posso correr

As missangas rebentam-se-me nos pés!

Papa não posso correr,

As missangas rebentam-se-me nos pés!

Foram assim nessa cantoria angustiosa até chegarem a casa. Felizmente, nenhum mal sucedeu à pequena;

Alguns anos mais tarde, a conselho de amigas samba foi confiada a uma senhora para lhe ensinar a lida duma casa, a qual se prontificou a respeitar a quijila e esconderia na mala os espelhos; Vidraças não existiam em casa.

Tudo corria normalmente. Mas um belo dia estando a arrumar o quarto da mestra, sentiu-se tentada a abrir a mala. A mestra sairá, e a chave, por esquecimento, jazia ali.

Satisfeito o apetite, remexe-se até ao fundo. Depara-se com um espelho. Intrigada, saca-o com jeito.

– Ih! Aqui, afinal, há uma pessoa!- Exclama. Mas logo emudece.

Vem a mestra. Quando lhe fala, só meneia a cabeça, as lágrimas rolando-lhe pela cara. Pouco depois, desaparecia.

Procuram-na por toda a parte. Onde estaria? A mestra, aflita, só então se lembra do espelho. Não se enganara: a mala estava resolvida!

Transcorrem dias. Como habitualmente, a mãe de Samba vai visita-la.

Leva a cabeça o tradicional presente para a mestra-uma fatia quinda com os produtos do arimo. Ao saber da ocorrência, rompe um pranto clamoroso.

Igualmente a família a procura. Ninguém a encontra. Pobre filha, a ambição de muito tempo!

Entretanto Samba havia fugido para junto dum hotel. Pela sua beleza e mudez, todos se compadeciam dela. Já era conhecida pelo pessoal.

Uma ocasião, na ausência do cozinheiro, uma enorme serpente entra na cozinha e devora a comida. Quando ele volta e da pela falta, atribui o facto à infeliz. E patrão e criados espancaram-na desalmadamente.

Samba muda de pouso. Na casa onde estaciona, tratam-na bem. Mas a cobra também la vai parar. Aproveitando a saída de todos, parte a louça e moveis.

E Samba apanha nova surra.

Refugia-se noutro sítio. Aí, condoiem-se dela. Recolhem-na. Mas a maldita não deixa serpente não deixa de fazer distúrbios. Os donos da casa a incriminavam.

Samba tornara-se querida. Tempos volvidos, o patrão teve que ir a Portugal. Antes de embarcar, pergunta à criadagem o que desejavam. Quando coube a vez de Samba, a mulher lembrou-lhe a sua mudez, portanto a inutilidade de a chamar. O marido desfez o alegado e também a interrogou.

Que surpresa! Recuperando a fala, Samba pede uma faca e «corta-se», uma navalha «afia-se», um candeeiro «ascende-se» e uma pedra do filho de Deus «acode-me». E novamente emudeceu.

O amo embarcou.

Em vésperas do regresso adquire quanto pediram os servos. Já vinha a caminho, quando se lembrou de que não havia comprado os objectos de Samba. Volta.

Chegando finalmente a casa, distribui as encomendas.

Samba guarda as coisas no seu quarto, Onde dormia só. De noite, a serpente entra nele. Rápido, a faca começa a esquarteja-la, a navalha-fia-fia, fia-fia – a aguçar-se, o candeeiro a queima-la e a pedra do filho de Deus a interpor-se entre o bicho e a Samba.

De manha, perante tão grandes bocados de cobra, os amos arrepiam-se de pasmo. Samba, novamente falando, declara que era a serpente o seu enguiço. Quanto padecera, o que pormenorizou, resultara dela. E todas as diabruras ficaram esclarecidas.

Como Samba já era estimada, mais estimada se tornou. E mais tarde casou com um dos filhos da casa.

In Óscar Ribas, Missosso vol I, 2009, Lisboa, edição Ministério da cultura, pag 106.

 

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