A temática das canções festivas na cultura kongo

As canções bakongo de festa, assentam a sua abordagem na recreação por carregarem sentidos vários, pese embora serem mais cómicas, satiricas, dramáticas e heroicas, onde as ações heroicas são cantadas em saudação ao seu autor, por ter saído vitorioso de uma situação, que se afigurava muito difícil.

Por outro lado, as brincadeiras, as brigas, os ciúmes, os problemas são cantados e dançados normalmente, tornando-se assim numa maneira saudável de recrear a vida.

Os bakongo, mesmo estando em dificuldades, conseguem facilmente seguir em frente, tudo se esquece na roda da dança: o mais importante é fazer parte da festa, para eles a dinâmica da vida está exatamente em estar e conviver com o grupo.

Ao estar com o grupo e naquela manifestação toda de alegria e festa, as pessoas esquecem tudo e absorvem a felicidade espalhada no ar, cantam e dançam para celebrar a vida, o maior tesouro que há. As canções começam a surgir naturalmente, acompanhadas de palmas, danças e gritos, onde os problemas do dia-a-dia são focalizados com a intensão de dar mais sentido a própria vida:

                    «A festa provoca mobilização geral do grupo…e prescreve regras restritas de comportamento. São os ritos e as regras que regem uma festa… A festa é sempre sagrada, pois com a realização escrupulosa dos ritos os homens atingem o mundo do ser» (citado por Altuna, Raul Ruiz de Asua, 2006:40).

A festa é sagrada a partir do momento em que se situa num contesto simbólico que chega a ser divino como é o casamento por exemplo, que se encontra consagrada em todas as culturas:

«São imutáveis os ritos da festa. A tradição oral preserva- os, transmite-os e vela pela sua rigorosa reincarnação. A festa é periódica e insere-se, como uma antítese, no curso ordinário dos dias. Ela comunica o seu ritmo à vida dos mortais. Constitui um chamamento permanente aos artigos da fé e, com uma periodicidade vivificante, submerge o homem no mar infinito do ser» (citado por Altuna, Raul Ruiz de Asua, 2006:40).

Como recreação a festa tem como finalidades: primeiro entreter as pessoas, sejam elas homens ou mulheres, velhos ou crianças, para que possam assim esquecer nem que for por um período determinado os problemas da vida, para flutuarem na alegria que é viver, isso sim é o mais importante.

Segundo, buscam a diversão como um refúgio seguro para afogar as mágoas, não só do dia-a-dia, como também problemas do lar (com a mulher ou com o marido), com os filhos, os pais e até com a própria comunidade, como também das dificuldades que a vida acarreta.

As canções que são cantadas e dançadas nas festas, geralmente carregam consigo instruções de vária ordem para modelagem da conduta moral e social, não só do próprio grupo, como também de qualquer pessoa de outro grupo etnolinguístico que esteja a fazer parte da festa. Essas canções, as danças e até mesmo a festa em si realçam sempre um dado valor social, assim caminha o Mukongo, sempre a preservar a sua cultura.

Na vida, toda festa suscita uma alegria, mas o sentimento de alegria ou prazer não é sempre suscitado somente pela festa. Este pode ser também sentido:

  • Quando gozamos realmente de boa saúde (física psicológica e mental).
  • Quando estamos perante uma refeição conveniente em termos de ingredientes e bom sabor.
  • Quando estamos em companhia de um nosso íntimo…
  • Quando, por exemplo, sofremos a nossa maternidade e paternidade.
  • Quando como estudantes, aprovamos nos nossos exames; sobretudo os de fim da nossa formação escolar de um ciclo para o outro.

Assim sendo, as canções festivas podem ter como principais temas: o louvor ou reconhecimento a Deus (canções religiosas cantadas em agradecimento a Deus); a exaltação da própria natureza e as suas maravilhas pela vista de tudo que é rupestre; o entoar de canções obscenas populares, na tradição kongo para manter consigo mesmo os gémeos que, parece senão o fazem, poderão ir-se embora de onde vieram; a invocação dos espíritos para alegrar os gémeos que, supersticiosamente podem ficar na mata, caso estes forem levados à lavra; a expressão de alegria por ter conseguido criar filhos que puseram na prática os conselhos e conseguiram junta-los nas cerimónias (tradicional e religiosa) nos dias de casamento; a manifestação de alegria face ao esforço desprendido durante os anos de sofrimento escolar e que deram o fruto desejado e palpável; a gratidão a Deus, às senhoras que preparam a refeição merecida e ao protocolo que nos atende.

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) Domingas H. Monteiro

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