Entrevista à Dr.ª Joana Passos, investigadora auxiliar do centro de estudos humanísticos da universidade do Minho.

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MK – É professora e pesquisadora das literaturas africanas de língua portuguesa, sobretudo os estudos feministas e de género. Como surgiu essa ideia e que motivações tem em trabalhar nessa área?

JP – O interesse pelos estudos feministas ou de género é anterior ao interesse pelas literaturas africanas. Em ambos os casos, feminismo e literaturas africanas, a matriz que me levou a abordar estes temas é o interesse em compreender processos que tornam as sociedades mais equilibradas e mais justas, seja por contribuírem para que se reconheçam os legítimos direitos das mulheres à cidadania, ou porque estabelecem a contribuição das diferentes civilizações africanas enquanto sujeitos de uma história local com repercussões globais. Da mesma forma interessam-me vozes críticas que se debruçam sobre Portugal e as partes da história recente que são “esquecidas”. Sempre que lemos um autor que discute injustiças ou silenciamentos somos confrontados com uma forma de olhar o mundo que nos pode auxiliar a compreender problemas sociais e políticos. Embora leia por motivos profissionais, para mim, ler, sempre foi uma forma de aprender mais…talvez por isso uma escrita experimental, sobretudo envolvida com estética, nunca me interessou tanto. Mas repare que “ler” no sentido em que aqui invoco a palavra é um exercício livre e estimulante, sem qualquer doutrina ou controlo ideológico.

 

MK – Fale-nos dessas mulheres e do seu trabalho, ou seja das suas obras?

JP – De facto foi uma autora inglesa, Ângela Carter, que me fez reparar no poder das palavras. A minha formação de base foi em literatura inglesa, por isso este percurso anglófono. No âmbito das literaturas africanas mulheres como Paulina Chiziane, Ana Paula Tavares, Vera Duarte o Dina Salústio acabaram por ter um efeito semelhante junto dos seus públicos. Têm o poder de “por o dedo na ferida”, ou seja, de apontar  a raiz de vários problemas. Recordo por exemplo um poema de Dina Salústio que se chama Apanhar é ruim demais. Todos os dias mulheres e crianças são vítimas dessa covardia que é a violência doméstica e nunca ninguém escrevia sobre isso, como se não existisse. Da mesma forma, vejo a Paulina Chiziane a abordar o lugar das mulheres na sociedade tradicional africana, revelando os seus desejos e aspirações, de uma forma que nenhum autor o tinha feito. Ora não é importante compreender como se sente metade da população de uma sociedade? Como se define que caminho percorrer com a nossa família, o nosso bairro, a nossa cidade se não compreendemos as pessoas? Outra coisa interessante é o papel que as mulheres que escrevem têm para além da escrita. Ana Paula Tavares não só escreveu as palavras para conceber uma Angola “além guerra” mas também tem feito um trabalho incansável para se compreender, documentar e organizar a história da literatura angolana. Por fim, remeteria para a obra de Vera Duarte, que inscreve o desejo feminino na primeira pessoa como discurso público, legítimo.

MK – O que se pode aprender com essas mulheres?

JP – Aprende-se a ter voz, a ter uma opinião para além do doméstico ou do imediato. Aprende-se a sentir a responsabilidade de estar informada, de pensar sobre “as coisas do mundo”. Aprende-se também a ter mais defesas, a estar atento e a não compactuar com formas de abuso. Basicamente aprende-se a ter respeito por nós próprias e também pelos outros, se estes souberem ocupar o seu lugar.

MK – Do ponto de vista estetizante o que se pode dizer dessa literatura?

JP – É absolutamente inovadora, renovadora, explosiva. Faz bem ao mundo. A elegância, o rigor, a coerência e a qualidade destas obras inspiram públicos e criadores (e refiro-me tanto à escrita por mulheres conscientes do seu estatuo de género como ao contributo das literaturas africanas em diversas línguas para um sistema literário local ou internacional).

MK – Fale-nos da literatura africana contemporânea (Angola, Cabo-verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e príncipe).

JP – É difícil generalizar porque é uma realidade tão diversa e rica. Acho que o reconhecimento internacional é crescente, mas não só da literatura como do cinema, da música, da pintura, do teatro e da moda. Há uma produção cultural por artistas e criadores africanos que se afirma, e tem crescente impacto. Sobretudo pela qualidade com que esta produção é feita. Por outro lado, também está ainda a decorrer um processo de afirmação estética destas literaturas, que até certo ponto foram reféns da história e da urgência de projetos políticos. Já não se tem de escrever em função de um objetivo coletivo único e isso é uma riqueza que os autores atuais irão explorar. Há também que recuperar e publicar (online, por exemplo) autores que antes não foram devidamente apreciados, mas aqui não me cabe citar nomes. Essas escolhas e trabalho de divulgação são responsabilidade de cada sistema literário local. Apenas adiantaria que é necessário prestar especial atenção ao contributo feminino, pois as autoras tendem a ser esquecidas em detrimento de grandes figuras, e que é importante manter diversos registo linguísticos nas línguas nacionais, mesmo se existe e circula uma tradução para português.

MK – Como está a literatura africana de língua portuguesa, em termos de produção?

JP – Falta investimento interno no apoio à formação e acesso à publicação. A internet pode ter um papel importante aí porque o custo de publicação e circulação é reduzido. Mas a par da internet devem existir outras formas institucionais de reconhecimento público. Tem de haver uma politica de incentivo e experimentação. O fruto precisa de ser semente antes de crescer.

MK – O que nos pode dizer sobre a literatura oral africana?

JP – Em relação à literatura oral africana o desafio mais importante, a meu ver, é a questão da transmissão e arquivo. Uma tradição viva, teatral, não pode ser meramente filmada, ou, pior, transcrita. Estou a aprender isso por influência dos meus colegas de estudos teatrais. Ando a pensar precisamente estas questões. Mas acho que a circulação da literatura oral tem de seguir um pouco o modelo das produções teatrais e dos espetáculos de teatro.

MK – Qual a sua importância no contexto atual e num mundo cada vez mais globalizado?

JP – No contexto atual o seu valor é o de ser uma tradição africana. Tal como o fado português é uma tradição de Portugal, que diga-se de passagem, aprecio. Porque não haveriam os angolanos ou cabo-verdianos de apreciar o que é seu? Esta não é uma questão global. É uma questão local. Depende dos jovens e da renovação da tradição que a literatura oral se mantenha viva e não fossilize. Faz todo o sentido que continue a existir e a reinventar-se.

MK – Sobre a literatura de língua portuguesa, que livros recomenda para leitura obrigatória e porquê?

JP – Vou responder como mulher interessada em afirmar a perspectiva e o contributo das mulheres. Leiam as Novas Cartas Portuguesas. Com surpresa e desconfiança. Com ironia, com cumplicidade, com raiva. Não é um livro fácil. Entranha-se, devagar.

MK Enquanto professora e investigadora, que mensagem deixaria para a juventude africana?

JP – Não desistam. Respeitem vossos mais velhos, mas encontrem o vosso caminho. Estão em sociedades que devem mudar muito nas próximas décadas por isso pensem bem as vossas opções, e procurem opções. Também nunca podemos fazer nada sozinhos. Escolham em quem confiar. Por fim, às vezes é preciso saber esperar, mas não passivamente. Vão fazendo coisas, sempre. Um dia as oportunidades aparecem, mas sempre ouvi dizer que “Deus ajuda quem se ajuda”. E tenham cuidado. A margem para tudo correr mal está sempre ao nosso lado.

Por Domingas Monte

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