A temática das canções funerárias na cultura kongo

As canções de ritos funerários geralmente abordam várias temáticas, onde a tristeza é o pano de fundo, havendo ocasiões de alegria em alguns casos. No entanto, para os bakongo, elas tomam um valor significativo por serem normalmente invocativas.

Para os bakongo, os ritos funerários estão divididos em duas partes fundamentais segundo o defunto. Se for um idoso a morte é uma grandiosa festa, com muita bebida e comida, por ter cumprido com o seu dever na terra deixando a sua experiência e sabedoria em prol da comunidade. Nesses casos normalmente não se chora, apesar da profunda tristeza que abate o coração dos que ficam. Aqui as canções são um hino à paz para a alma, e por isso refletem alegria, servem também para abrir a grande avenida, que se deseja cheia de encanto, por onde há-de passar a sua alma rumo ao reino dos céus. (Arlindo Isabel,1999).

Se for um jovem ou criança a morrer, a morte é sempre um infortúnio ligado a causas terceiras como ações dos bandoki que têm capacidade de tirar a vida de alguém que lhes tenha faltado ou simplesmente por querer elimina-lo por inveja. É um momento de grande tristeza, mas também de muita confusão, principalmente nos dias de hoje, se procuram os culpados para serem também mortos. Os mais velhos são normalmente os mais visados e no entender dos jovens que ficam, deviam morrer, os velhos por terem já cabelos brancos, são considerados feiticeiros e naquela confusão têm que ser batidos, pisoteados, chegando mesmo a serem mortos em alguns casos, onde não haja alguma intervenção.

O conteúdo dessas canções reflete as relações entre os homens e dos homens com o criador. Evocam a vivência dos pais com o filho defunto, ou da mulher em relação ao marido ou deste em relação a esposa, algumas vezes matizadas de um humor fino, um humor na tristeza e na dor. (Arlindo Isabel, 1999).

Os familiares, do defunto, ao chorarem, vão invocando os antepassados para que olhem com atenção para os seus problemas e possam assim resolve-los. Pedem acima de tudo que os antepassados não lhes virem as costas: A vida não tem sido fácil na sua ausência. Por isso, confiam tudo a eles. Os lamentos sucedem-se e cada um à sua maneira pede o que lhe falta, outros agradecem a proteção que lhes é concedida. «O fulano morreu a nossa esperança é que o recebam bem la no céu, o sicrano morto anteriormente já o receberam»?

A verdadeira invocação vai para Deus ser supremo, capaz de tudo, o que vê onde os nossos olhos não chegam, o verdadeiro pai que a todos ampara, para atenuar a dor causada pela morte do seu ente-querido. A ele entregam tudo a té suas vidas para que sejam governadas por ele. Também são lançadas piadas ao bandoki supostos causadores da morte da pessoa em causa, para que se sintam intimidados e parem por ai, para evitarem sérios problemas, que a partida podem ser facilmente resolvidos, mas que podem se complicar que se não se tomarem as devidas preucações, é a chamada procura dos culpados.

                 «Tradição secular e arte verdadeira, as canções dos óbitos dos bakongo são uma das expressões da cultura de um grupo etnolinguístico conhecido como sendo muito cioso das suas tradições e que, no conjunto do mosaico sócio-cultural que é Angola que é parte integrante, afirma, não obstante todas as influências, a sua própria identidade» (Arlindo Isabel,1999).

Toda Acão ou facto funerário reflete ou implica uma tristeza, mas toda tristeza não é necessariamente devido ao óbito ou ao facto funerário. A tristeza pode ser sentida ou vivida também:

  • Quando estamos doentes
  • Quando vivemos um fracasso sem atingir o objetivo nem realizar um sonho.
  • Quando sentimo-nos abandonados por alguém de quem gostamos.
  • Aquando de uma despedida para uma longa e duradoura viagem.
  • Quando não conseguimos realizar a nossa maternidade e paternidade.
  • Depois de uma discussão forte com qualquer pessoa próxima de nós ou não.
  • Quando presenciamos ou sofremos um acidente.
  • Quando perdemos um qualquer bem precioso.

Assim as canções funerárias apresentam como temas principais: os gemidos e as orações; as lamentações, as queixas e justificações (validas ou não); o ódio, as piadas e as provocações; a indignação, a deceção; a saudade, a nostalgia, o abandono e o desprezo; o desgosto, o desespero, a frustação; a raiva e também o ódio; o pânico, o susto e o louvor a Deus pelo facto de nos ter salvado; os choros, as lamentações etc.

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) Domingas H. Monteiro

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