Impressões de Tindouf – Uma Terra Desconhecida

Confesso a verdade mais verdadeira que já confessei uma vez: nunca havia ouvido falar dessa terra!

Estamos assentados nos assentos de um autocarro, em caravana, depois de a noite passada nos ter passado num hotel luxuoso e confortável. Dizem que a vida é viva por causa dos contrastes dela. O autocarro nos transporta, como transporta animais humanos, e nos leva em direção a fora da vista da cidade. O autocarro corre e a sua corrida deixa atrás de si e de nós vários quilómetros de estrada asfaltada. Entrámos num no lugar que a primeira vista ninguém sabe de dizer o que é que era. Um homem, uniformizado na cor do mato, com uma arma no colo, como uma mãe com seu bebe dela, guarnece a entrada do lugar. É um lugar morto, silencioso, abandonado, desconhecido, fora do alcance da visão dos olhos de qualquer pessoa curiosa. Nos ofereceram permissão de entrar dentro e sentar no seu interior. Lá, no seu interior, vários homens fardados, também na cor do mato, deambulam num vai-e-vém descontraído. O próprio ambiente sozinho nos indica que estamos numa propriedade militar. Mais alguns passos adiante, a vista descobre algo que parece ser um rabo de um avião. A sala VIP, que de vip só tem o nome, concorda com o lugar. Entenda-se! Pede-se-nos para mais tarde, depois, seguirmos um militar fardado, que na língua árabe nos faz compreender que vamos na direção da pista aonde o avião nos espera, já com os motores dele furiosos e ruidosos. Entrámos, e a barriga do avião nos engoliu como  um tubarão de peixe grande engoliu Job na Bíblia. Um amigo, à minha mão esquerda, amedrontado – nunca tinha ido na tropa – pergunta o nome do avião. Na verdade o avião não tinha nome, cada qual um podia lhe dar um nome próprio. Mas ouvi alguém lhe responder na mesma sua língua que perguntou, que aquilo era era um avião chamado Antonov de fabricação soviética, de guerra (entendi que havia paz lá aonde estávamos, mas que mesmo havendo paz era preciso preparo para guerra, que pode vir e ir sem avisar. Não disseram já uma vez os romanos, ou sei lá quem, que se você ama a paz deve preparar a guerra?). Erada cor do mato também, como quase tudo naquele lugar. Dizem que os militares gostam muito da cor do mato, não sei porquê, e que os seus acampamentos e trincheiras deles não gostam lhes construir para ficar na cidade, mas no mato da mata. Na Chibemba, a unidade dos cubanos estava no mato; na Kahama, as Faplas tinham os quartéis deles na mata; do Quilómetro Dezasseis os Swapos tinham as unidades deles na mata; No Bengu, o ANC tinha os seus acampamentos nas matas lá perto do Ambriz; as tropas dos Komandos especiais tinham a sua unidade lá nas matas do Kabo Ledo; no Ambaka, a Unita tinha os seus quartéis no Mitivivali. Entendo, talvez é para atiçar mais o seu instinto do homem de animal, de bicho, a sua natureza de fera na guerra. O mato ou a mata faz um homem ficar menos homem, mais bicho, mais besta. É por isso que os latinos falaram na sua língua deles que homo hominis lupus. É verdade, agora concordo com eles, o lobo do homem é ele mesmo.

O avião, dizia, esse de que se fala aqui, aonde nos introduziram, era feio por fora, rijo e desarrumado por dentro: não tinha aeromoças ou moças do ar para te receber com um seu sorriso delas falso e depois te oferecerem uma bebida; não tinha cadeiras confortáveis dos aviões que a gente conhece, com cintos para apertar (mas, pelo menos podia-se esticar as pernas até aonde se quisesse, o que nos outros aviões só se dá às pessoas vip´s); não tinha tela de televisão para distrair ou trair a nossa visão e assim ver um cinema e passar tempo a ver o tempo passar; não tinha número de assento, cada qual se assentava aonde se assentava; não tinha janelas para se apreciar a paisagem lá fora ou lá em baixo; não tinha voz de um comandante-capitão para anunciar a partida e dizer quantos minutos já voamos e quantas horas faltavam para nós chegar na chegada; não tinha ninguém para te dizer qual era essa terra que estava em baixo da barriga do avião; tudo que precisamos saber não tinha ninguém para te falar; não tinha lugar vip, uma vez lá dentro, todos eram vip’s ou os vip’s tornavam-se todos. Sem nos darmos por isso, o avião ganhou voo. Meu amigo , mais, da minha esquerda perguntou se ainda estávamos no chão. O barulho era ensurdecedor, e não deixava nada lhe abafar, nem mesmo os pequenos escutadores do meu telefone móvel. Conversar era gritar, e gritar não era conversar nada. Nada amedrontava o barrulho dos motores furiosos do avião. Ao cabo de três horas e duas dezenas de minutos mais ou menos, o avião começou a se cansar e pouco a pouco começou a baixar e sem darmos por isso novamente o avião tocou no sôlo. O pássaro ou então o tubarão do ar abriu a sua barriga de lá  saímos como Job saiu da barriga do peixe grande. Foi o frio que nos acolheu primeiro e nos deu chapadas frescas de boas-vindas na nossa cara, no lugar da população daquela terra. E o frio nos escoltou até entrarmos num carro que já nos esperava a muito tempo.

Estávamos em Tindouf – uma terra que, confesso – nunca tinha ouvido falar dela em toda a vida da minha vida.

Era já a noite, meia-noite e tal, e não havia povo porque o povo já estava parece a descansar para matar o cansaço dos afazeres quotidianos de todos os dias. O carro nos conduzia por uma estrada e deixava os edifícios modernos (para aquela terra) para trás. Depois só o deserto nos nossos dois lados é que nos seguia juntamente com o frio que não deixava de nos escoltar mesmo dentro do carro. A estrada longa nos tirava fora da cidade, parecia era um sequestro oficial bem preparado, um rapto organizado. Ninguém mais tinha boca para falar. O cansaço e a surpresa tinham matado todas as palavras da nossa boca , nós que tinham depositado (era a única coisa a fazer) nas mãos do Criador as nossas vidas de criaturas. Estávamos em Boujedour, na fronteira da Argélia com o Saara Ocidental (hoje conhecido como República Árabe Sarawí Democrática), na terra dos beduínos dos deserto, no meio do coração do deserto do Saara.

Há terras amaldiçoadas parece por parte do seu criador delas que lhes criou: numas terras as pessoas vivem em cima das águas e procuram uma terra que tem terra para cultivar; numas terras só tem terra e areia e pedras mais nada, e procuram as pessoas de lá água para viver e pescar; noutras a terra é só colonizada por florestas, árvores, montanhas, bichos, e as pessoas de lá procuram nada disso para viver. Nessa terra aqui de que se fala, a vista de uma pessoa só era permitida ver areia, montanhas de areia, poeira e mais nada.

Depois o carro parou e seu motor morreu diante da porta daquilo que pareceu ser a administração ou um lugar oficial importante. A porta automática do carro se abriu sozinha e lá dentro do carro entrou um homem, que nos ofereceu boas-vindas e anunciou depois, numa língua que percebi ser Espanhol (tive professores cubanos nos meus tempos de aluno secundário do segundo nível da “27 de Março”, depois de sair da “63 da Mapunda”), anunciou que, em grupos de quatro pessoas cada ( éramos certa de trinta e duas mulheres) tínhamos de passar a noite ou então a noite tinha de nos passar a nós nas casas de famílias locais. Olhei nos olhos dos meus companheiros, que esperavam encontrar o conforto dos hotéis e pensões que uma vez gozaram. Uma mulher, nos mostrou o caminho da sua família. Entrámos na sala e segui o gesto dos meus três amigos, que saudaram um homem que, na sala, tomava um copo de chá: salaam aleikum. Era tudo que eu consegui saber naquela língua. Descalçámos os calçados e nos sentamos num chão alcatifado. Aquela família era uma família simples, humilde. Sem filhos. A casa era também simples e humilde como a própria família dela. Apesar do frio que nos guarnecia ainda lá fora, a casa era quente por dentro. Não havia bancos, os bancos era o próprio chão. Sentámos no chão e seguimos a posição do homem da casa que já estava sentado. O conforto dos bancos do escritório, a moleza das alcatifas dos salões luxuosos, não me permitiram cruzar as pernas como o homem cruzava com toda a normalidade do mundo. A mulher, nos ofereceu um chá, o que pareceu lhe ditar a tradição, enquanto preparava a ceia.

Há terras em que receber uma visita é uma honra, uma bênção, que a poucas pessoas se concede: na Mapunda, o soba Tchiheke ofereceu uma das suas mulheres a um primo que lhe visitou; na Quihita o Sekulo matou o melhor boi que tinha no curral para o seu cunhado que veio lhe ver; no Ndombe-Grande oRegedor deu uma festa grande no nome do seu sobrinho dele (filho da irmã) que veio do Katenge; No Munhino, o mais-velho Tchapinga ofereceu de beber as suas visitas que vieram da Huíla um caporroto de primeira tirada; na Humpata o avô Kapúia matou o porco que tinha criado com as crias para os seus visintantes dele; no Kipungo o Rei deixou o seu quarto para uma visita que veio de Kaluquembe e demanhã lhe ofereceu um almoço de galinha viva com pirão de fuba de milho moído na pedra junto com makau; no Koroka o Tio Zinho matou um cabrito bode grande na honra da visita do seu sobrinho pequeno dele que voltou do estrangeiro. Os exemplos da hospitalidade de algumas terras não têm conta, como não tem conta também a hostilidade de algumas terras para com as suas vistas delas que lhes visitam. Numa terra, que a gente conhece bem, um homem que visitou a sua irmã, sem lhe avisar, dormiu no quintal e jantou nada com água do rio; uma mãe que veio visitar seu filho teve que cozinhar seu próprio jantar dela na mesma panela aonde os empregados costumam cozinhar a sua comida deles; uma sogra que visitou seu genro dela lhe deram um jornal para ler na hora da refeição; um irmão que pernoitou na casa do irmão mais velho teve de contribuir antes com dinheiro para pagar o jantar que comeram fora no restaurante; numa terra um sobrinho durmiu na cadeia porque não tinha avisado o seu tio dele ministro que iria lhe visitar naquele dia.

Muitos exemplos.

Só para dizer que nessa terra aqui em que estávamos, a família nos recebeu bem calorosamente e nos ofereceu tudo o de melhor e bom que tinham. Na casa não tinha quartos. Os quartos eram a própria casa, ou melhor dizendo, os quartos eram duas salas largas comuns para todos: para a família, num lado, e para as visitas, noutro lado.

(Eu páro ainda por aqui, para descançar e assim aproveitar lembrar mais bem muitas coisas que vi com meus olhos despidos e senti na minha pêle: essa estória que eu pus aqui precisa ser continuada a ser contada).

Por: Franck Muíla

2 comments on “Impressões de Tindouf – Uma Terra Desconhecida

  1. Jorge
    25 de Novembro de 2013 at 8:35 #

    Linda historia

  2. como ganhar mais seguidores
    8 de Fevereiro de 2014 at 9:16 #

    Muito bom o post gostei muito !!

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