Entrevista ao escritor moçambicano Jorge Viegas

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Jorge Alberto Viegas nasceu no dia 06 de Novembro de 1947 em Quelimane, Moçambique. Publicou os livros «Os Milagres», Quelimane, 1966; «O Núcleo Tenaz», Lisboa, Edições 70,1982 e «Novelo de Chamas», Lisboa, Edições ALAC – África, Literatura, Arte e Cultura, Lda, 1989. Figura em «Cadernos Caliban nº 1 e nº 3/4» – 1971 e 1972, respectivamente; «No Reino de Caliban III» – 1985; «Nunca Mais é Sábado – Antologia da Poesia Moçambicana» – 2004; «Poets of Mozambique – A Bilingual Selection» – New York – 2006.

MW – Como se deu o primeiro contato com a poesia, e quando começou a escrever?

JV – Os primeiros poemas que li foram os dos meus livros da instrução primária e os dos almanaques da Bertrand. Os primeiros versos que escrevi tinham como finalidade a minha participação em Jogos Florais do Ensino Secundário.  

MW – Quais são as influências que marcaram a sua formação artística?

JV – Tenho uma admiração incondicional  por José Régio. Mas, dado o sistema de grandezas no qual está inserido, o Régio não pode ser imitado por ninguém. 

MW – Como se deu o processo de fixação em Portugal e para que fins?

JV – Vim para Portugal por motivos de saúde.

MW – Como tem sido a sua vida artística fora de Moçambique?

JV – Não tenho uma vida artística propriamente dita.

MW Que relações mantem com os escritores moçambicanos na diáspora e em Moçambique?

JV – Em Portugal estabeleci relações, de amizade e de solidariedade tribal e literária, com Delmar Maia Gonçalves e Renato Graça, zambezianos como eu. Não tenho contactos com os escritores residentes em Moçambique, mas requisito habitualmente as suas obras quando as encontro nas bibliotecas.

MW – Em que momento se sentiu reconhecido como poeta?

JV – Foi, em 1971, ao ver-me incluído no nº1 dos Cadernos Caliban, coordenados por Rui Knopfli e J.P.Grabato Dias.        

MW – Na sua opinião quais são as dificuldades, que os autores africanos enfrentam para publicar um livro?

JV – Uns dirão que é por falta de qualidade dos textos e outros que é por não fazerem parte da confraria. Mas, eu julgo que quem tem algum poder económico publica sempre.   

MW – Sobre a literatura oral moçambicana, o que nos pode dizer?

JV – Não a conheço, a não ser de um modo tangencial.    

MW – Participa de alguma associação artística? Qual?

JV – Sou membro do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, do Centro Cultural Luso-Moçambicano e do Espaço Rui de Noronha.  

MW – O que acha de subsídios oficiais para a produção dos artistas?

JV – Entendo que se refletem positivamente no seu modo de vida e na quantidade das obras produzidas mas, não na sua qualidade.  

MW – Sobre a literatura de língua portuguesa, que livros recomenda para leitura obrigatória e porquê?

JV – «Poemas de Deus e do Diabo», de José Régio, um livro que é o eixo da  literatura múltipla criada por esse grande escritor português; «Vidas Secas», do brasileiro Graciliano Ramos, por ser uma narrativa que descreve com uma nitidez absoluta a fragilidade extrema dos humilhados da Terra;  «Nós Matámos o Cão Tinhoso» de Luís Bernardo Honwana. Uma das razões para essa escolha consta dum texto meu, ainda inédito, que passo a transcrever:   «O Escritor»      Uma frase moçambicana /que tem a força de um axioma, / merece ser guardada numa redoma, /ou altamente fixada num diploma?  /Uma, pelo menos há, /que tornou a voz dos poetas /menos sozinha. /Assim falou Luís Bernardo Honwana:  A mão de  «As Mãos dos Negros»  é a minha.

MW – Fale-nos do contexto atual do estado Moçambicano, estamos a beira de uma guerra? Como cidadão qual é a sua opinião?

O angolano Valdemar Bastos tem uma canção  em que diz: «não fala política». Ao falar de Angola sempre me exprimi calorosa e emocionalmente como se fosse do MPLA. Moçambicano que sou, vivi as grandes emoções colectivas frelimistas. A Renamo nunca ocupou nenhum lugar positivo nos quadros do meu pensamento. Surpreende-me que a Comunidade Internacional considere figuras históricas positivas Jonas Savimbi e Afonso Djaklama.    

MW – Neste momento tem a palavra, dê a sua opinião ou alguma informação que não foi revelada pelas questões anteriores e que considere importante.

Como os angolanos dizem: Angola faz-se com a sua gente… que, do mesmo modo procedam os moçambicanos.      

MW – Enquanto poeta e escritor, que mensagem deixaria para a juventude africana?

A mensagem contida num poema que eu escrevi: «Num tempo em que todos somos / peças de um sistema /  saída só há uma: /  praticar o poema»

Por: Domingas Monte

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