Entrevista com Alice Leretrait “Estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto”. Falando-nos da sua experiência de viagem a Ouagadougou, Burquina Faso.

“Os valores são os da partilha, do “saber brincar”, encontrar uma pessoa, qual seja a sua idade, e falar com ela. Também, a confiança é muito mais grande quando uma criança vai num transporte por exemplo, ficar com/no lado da sua mãe, por causa do número das pessoas. “O saber sorrir”, isso é como uma coisa transmitida, em geral, apesar dos problemas existentes, a necessidade de ser forte é muito mais transmitida, tornando-se como “uma obrigação”, na educação”.

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Eu, desde pequena, gostava de fazer teatro, desejando num momento ser actriz, mas isso passei. Portanto, era uma criança tímida e com falta de confiança, ate aos 14 anos. Mas gostava muitos dos outros, dando atenção para eles. Ganhei confiança em mim, quis ser professora de música (flauta numa escola de música), porque tenho pais muito sensíveis, a música, nomeadamente tradicional (da minha região), mas também, outra, e do mundo (popular). Afinal, quis ser animadora da natureza, porque desde pequena, achava a natureza importante, e acho que várias pessoas da minha família transmitem-me esse “amor” pela natureza. Mas, me foi dito que não teria trabalho para fazer isso, então sendo animadora (só num centro de lazeres), vi que gostava de falar do saber viver e do saber ser com as crianças, e pensei ser professora no ensino básico. Também sempre gostava de descobrir: música, dança, culturas, arte, alimentos, pratos. Acho que desde jovem, para ver os documentários, tinha admiração pela cultura africana, era atraída por essa cultura, para acho eu, sentir essa solidariedade que devia não sentir muito no meu país.

MW – Fale-nos da sua aventura à África, em que país esteve e como foi essa experiência?
AL – Fui para o Burquina Faso, um pouco mais de três semanas, ou seja, um mês, e essa experiência foi riquíssima porque permitiu ter consciência de modos de vida e culturas diferentes. Essa experiência ficou tal como uma aprendizagem de um outro modo de vida, fazer as coisas de maneira diferente (lavar-se, cozinhar, comer, lavar a roupa), exprimir-se de modo diferente (através da dança, canção e musica, o que gostei muito porque sou uma pessoa muito expressiva e sensível à música).

MW – Descreva-nos esse país, o Burquina Faso.
AL – Não fui em todas as aldeias, mas poderia dizer que o Burquina Faso é um grande espaço estruturado pela capital: um enorme núcleo urbano (com muito tráfico, algumas grandes estradas, e muitos bairros, muitas pessoas, muita pobreza) que representa Ouagadougou, e desde que você sai do núcleo, há muita vegetação (árvores, água), e aparecem aldeias com vários campos de diferentes cereais (milho sobretudo…). Nas aldeias, vemos sobretudo as mulheres a trabalhar, as vezes com as suas crianças muito jovens (três anos) (ele esta sentado no seu lado). Há como pequenas cidades menos rurais como no subúrbio, ou seja, não muito longe da capital: elas têm uma mercearia de tamanho médio, um cyber, vários cafés (para conviver…), e várias casas tal como um bairro mas em estado bastante bom, onde todas as crianças do bairro jogam dentro, onde encontram um terreno bastante grande para jogar o futebol.

MW – Em termos de convivência social, quais são as diferenças que encontrou no Burquina Faso, comparado à França?
AL – As pessoas no Burquina, convivem muito mais do que em França, eles encontram-se a maior parte do tempo, entre amigos (jovens, colegas…) no café quase, pelo menos, no fim da tarde, ou seja, no início. É muito raro ver uma pessoa sozinha a fazer a suas coisas (que poderia ser em França, ir para o supermercado…), no Burquina, sempre estais pelo menos a dois mesmo para fazer um papel… Dizes bom dia ou boa tarde às pessoas que encontras, e a maior parte do tempo, são pessoas que não conheces. Pelo contrário, em França, poucas pessoas dizem bom dia às pessoas que não conheçam, as pessoas mesmo nas aldeias ou pequenas cidades pouco se conhecem. No Burquina, você vê sobretudo pessoas em conjunto, falando, rindo, sorrindo, ou também pessoas que falam no telemóvel. Enquanto na França, você vê sobretudo pessoas sozinhas ou em conjunto, mas não falando, estressadas, preocupadas, parecendo triste, ou ouvindo música no seu mp3, escrevendo mensagens, as vezes, falando no telemóvel. As pessoas estão como na sua bolha individual, tal como retirados da vida com os outros (ficando geralmente, só com a família “limitada”: marido/mulher, filhos).

MW – Sabemos que as crianças burquinabês a seduziram, em que aspeto?
AL – Gostei as crianças burquinabês, porque elas são muito mais naturais que as crianças em França, como liberais comparativamente aos da França. Achei as crianças burquinabês vivas, expressivas, alegres em geral (não todos), dinâmicos, ou seja com mais energia comparativamente as crianças francesas em geral. Também, achei as crianças burquinabês mais solidárias entre elas, os maiores cuidando dos mais pequenos.

MW – Como carateriza a cultura africana, especificamente a burquinabê?
AL – Caracterizaria a cultura burquinabê, mesmo que não sei diferenciar de outras culturas africanas, de ter como costumes de levar o tempo, de dizer bom dia ou boa tarde geralmente a pessoa que cruze no seu caminho, de se ver um amigo, tomar o tempo para falar um pouco com ele, de reunir-se para conviver: fazendo música, ouvindo, dançando, celebrando. Os valores são os da partilha, do “saber brincar”, encontrar uma pessoa, qual seja a sua idade, e falar com ela. Também, a confiança é muito mais grande quando uma criança vai num transporte por exemplo, ficar com/no lado da sua mãe, por causa do número das pessoas. “O saber sorrir”, isso é como uma coisa transmitida, em geral, apesar dos problemas existentes, a necessidade de ser forte é muito mais transmitida, tornando-se como “uma obrigação”, na educação. Todas as portas estão abertas para todos, entram muito mais facilmente na casa da outra. Num bairro, muitos se conhecem e vão ver cada um segundo o serviço que ele dá, ou seja o seu trabalho, tomando notícias. (O europeu, geralmente, não tomaria notícias mas sobretudo vai em centros comerciais onde não conhece os trabalhadores do centro comercial (ele não sendo a escala humana). Na educação, e respeito pelo outro é muito mais transmitido, comparativamente ao quase orgulho de ser individualista, mais forte que os outros que poderiam transmitir a maior parte do tempo os pais europeus. Também, o papel dos maiores, na família (mais velhos, nas crianças) torna-os muito mais responsáveis, atenciosos para os seus irmãos. A cozinha é uma coisa muito importante, é tradicionalmente o papel da mulher, ela transmite amor quando faz a comida para a sua família ou para os outros. O saber fazer um prato é muito importante, há muita atenção para o molho.

MW – Quanto a alimentação, o que tem a dizer-nos?
AL – A alimentação: a tradicional é tal como uma sêmola de milho (feita com água e farinha de milho) que vai ser acompanhada de um molho (geralmente com uma base de óleo de palma ou outro, tomate, e cebola). Depois, podem ser vários molhos, que segundo a sua natureza e as possibilidades das famílias, pode conter porções de carne… (Existe molhos com uma verdura bem especial, ou nos quais, por exemplo, com um certo peixe). Hoje, o arroz torna-se cada vez mais consumido, porque se calhar é menos caro do que a farinha de milho ou antes era a comida dos ricos (pelo menos porque importado, fica bastante barato, acho eu). Acompanham também o arroz com um molho. A maça também pode ser comprada nas mercearias, mas acho que ainda é pouco consumida. Se não, há algum tipo de batata (muitas ricas em proteínas) que são fritas. Também comem-se nas “pequenas cantinas” (tal como restaurantes familiares, baratos, simples), feijões-verdes.
Gostei muito da comida no Burkina, do tempo que tomamos para preparar, da atenção a fazer o molho para que o prato fique bom, da partilha da comida sobretudo, acho que dá muito mais felicidade que comer seu prato sozinho ou preparar só para si próprio, ou ainda comprar um prato já preparado e então não cozinhar.

MW – O tem a dizer-nos sobre a música?
AL – Sobre a música, acho que é muito sensível, retratam o que vive o ser humano, é expressiva, é como se as notas seguissem primeiro lentamente e no fim da frase, aceleram. A música fala da alma para mim, do sofrimento que pode sentir o ser humano. Depende também do instrumento, mas ela geralmente exprime-se mais do que numa outra música moderna por exemplo, que pareceria superficial. A música é autêntica aqui, os djembé brincam, exprimem a alegria, permitem o convívio, a dança.

MW – E sobre a dança?
AL – Quando houver convívio, você quiser conviver, brincar, partilhar entre amigos: vocês vão dançar, também transmite-se quando por exemplo os pais dançam com os seus filhos que sentem o ritmo e que vão aprendendo. Também permite jogar entre homens e mulheres, pode ver-se como um meio de mostrar, de maneira discreta, de que você “gosta” tal pessoa. É muito diferente que na França em geral: além de libertar o corpo e o espírito, ao contrário fica só as vezes, sobretudo pelos jovens, uma maneira de encontrar uma pessoa, ou como um objeto de marca para mostrar que você dança bem…portanto ainda existem danças tradicionais apesar de não ser tão expressivas para mim. Na dança africana, você brinca mais.

MW – Fale-nos da arte africana no geral e daquilo que viu no Burquina Faso.
AL – A arte africana, teria muito para dizer, podemos pensar na arte do conto: contar é uma arte, mas uma arte quase natural, porque transmite-se, e várias pessoas, jovens têm e possuem essa arte de contar uma história, de fazer comparações com imagens, usadas nos contos. A música é importante, quando você vai festejar, ou para um evento importante, a música é importante para dizer isso, dizer a alegria de estar em conjunto para esse evento, ou então para mostrar que você esta tocado do evento. Há também todas as artes manuais: a costura (com diferentes motivos que tem significado, isso é arte), o artesanato: o trabalho da madeira, da terra, ou outros materiais…há também a pintura, postais com diferentes “cenas” da vida tradicional (desenhos com pintura ou outros materiais), além de ser somente fotografias. Não tive a ocasião de ver muito sobre o arte, mas acho que há muito mais para dizer.

MW – Enquanto estudante, que mensagem deixaria para a juventude estudantil?

AL – Gostaria de dizer para a juventude estudantil, qualquer ela seja, tentar familiarizar-se com uma cultura, identificar-se a uma música, uma dança, ou outras artes, isso permite identificar-se a outras coisas do que o que esses estudantes podem sentir pelo que dá ou transmite a família. Além disso, permite dar um outro valor às coisas, basear-se na vivência das coisas e não no seu consumo. Além de querer essa coisa, de pensar nesse jogo, ou seja, de ficar em frente a televisão ou do computador, pensar em partilhar coisas com as pessoas que permitem mais exprimir-se e viver um instante mais forte, que traz mais, que enriquece. Gostaria de dizer também que a juventude deve tentar viajar se possível, e ousar encontrar pessoas com outras culturas, é muito enriquecedor. Também que os estudantes sentem-se constrangidos pela obrigação de encontrar trabalho, tentam ter projetos, ideias para investir se em associações.”O dinheiro contribui para a felicidade, mas só, não faz a felicidade.” Também acho que a ligação com a natureza faz muito bem, uma pessoa que não se sente bem pode tentar jardinar, cultivar a terra, ou somente ir para o campo, usufruindo do olhar da vegetação, da tranquilidade do campo.

“Uma viagem que fica na minha memória”. Diz Alice Leretrait…

É uma viagem, uma experiência mais do que memorável.
Move-se, vive-se em Ouagadougou, não é como nas nossas cidades (de frança). Há muitos mais “atmosfera”, “convívio entre as pessoas, as diferentes gerações. Há mais pessoas fora (além da sua casa ou nas grandes superfícies comerciais como em França), falando, sorrindo, rindo. Todo o mundo é muito mais expressivo, comparadas às pessoas da minha cidade por exemplo, onde mesmo, muitas pessoas não falam, ouvindo músicas no seu “mp3” ou enviando sms sobre o seu telemóvel. É tão bom, agradável comparado ao meu país onde as pessoas estão como na sua bolha individual, tal como retirados da vida com os outros (ficando a da família, e ainda quando existe). Aqui, você sente a vida, se sente viver, a vida é simples, as pessoas não dão tanta importância ao superficial, as pessoas são muitos mais autênticas, apesar da dificuldade existir para todos que vivem a pobreza, mas também aqui (no Burkina) a solidariedade não tem a ver como em França, é muito mais forte, generalizada, e real.

Eu amo a alegria das crianças.
Eu também adoro a energia, a vivacidade que eles têm no momento das aulas, na escola e da animação, é um prazer ver tantas crianças voluntárias. Acho que eles são muitos mais solidários entre grandes e pequenos (segundo a idade) e que então as crianças do meu país faltam de expressividade, vivacidade, se calhar por causa do tempo que passam em frente a televisão.
Aqui (no Burkina), tomamos o tempo, não somos tão presos do tempo como em França, é como se as pessoas fossem muitos mais livres no seu corpo, respiram!

A cultura: a dança: todo o mundo dança, dançamos para conviver, brincar também!
A comida: cozinhar é partilhar, comer juntos é muito importante, várias vezes convidas uma pessoa para comer contigo porque és feliz de poder partilhar esse prato com ele, isso é muito raro em frança, a cultura perdeu-se, e várias famílias nem fazem reais jantares, ou as crianças não têm a possibilidade de transmitir essa preparação dos almoços e jantares, a comida não tem tanta importância e isso agrava a perda de cultura.

Por Domingas Monte

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