Breve historial do povo Cokwe

Segundo João Baptista Manassa (2011:31), os tucokwe são povos descendentes do reino Lunda. A expressão “cokwe” designa também a língua falada pelo mesmo povo. A história tradicional ensina que este povo emergiu para o oeste, provavelmente no princípio do século XVI depois das discussões no seio da corte real.

A rainha Lweji, sendo estéril, tinha consentido que o seu marido Cibinda Ilunga, um “kandaka” (forasteiro), tivesse um filho com a sua prima Mwali para garantir a continuidade do poder real pela genealogia. Este ato foi considerado como uma violação da pureza real e levou à dissidência dos “thubungo”, os chefes notáveis da corte real que decidiram abandonar o reino.
A emigração dos dissidentes os levou à região da nascente do rio Kasai onde se instalaram pela primeira vez no “usengue”. Este lugar tornou-se um sítio sagrado reservado à cerimónias rituais e obrigatórias para a investidura dos principais chefes cokwe. Durante a sua migração, os tucokwe expulsaram os “phende” e instalaram-se entre os paralelos 11º e 12º da latitude sul e os meridianos 21º e 22º da longitude leste.
A história consagra os Cokwe como um povo conquistador, devido à sua superioridade tecnológica (o domínio do ferro) e numérica para ocupar os territórios dos “phende” considerados como os primeiros habitantes das Lundas.
Depois de ter vencido os pende, estes se confinaram nas regiões longínquas de difícil acesso. Os Cokwe incorporaram alguns deles nas suas famílias e procederam de seguida à distribuição das terras conquistadas. O termo “cokwe” provém do rio onde os dissidentes do reino Lunda instalaram o seu primeiro “usengue” ou “mussumba” que significa “acampamento”. Esta versão nos parece a mais aceitável, atendendo a forma como esse povo tradicionalmente adopta os nomes.
Entretanto, a designação “lunda-cokwe” é histórica. Estabelece o parentesco deste povo quanto à sua origem ou região. O termo “lunda” designa o território e a expressão “cokwe” designa o povo que habita este território (Manassa, 2011:35).

Apresentação sociocultural dos Cokwe

Tipos de atividades

José Redinha (1975:305) considera que o povo cokwe é oriundo de uma velha cultura de caçadores savânicos. Este povo distinguiu-se pelo seu alto predomínio das indústrias tradicionais e particularmente o domínio da técnica siderúrgica.
Do ponto de vista artístico, os Cokwe mantiveram durante muito tempo admiráveis escolas de escultura e são hábeis em várias espécies de artesanato. As instituições e cultos referentes à caça mantêm o predomínio e os antepassados caçadores são, por excelência, seus padroeiros.
Por sua vez, João Baptista Abreu Manassa (2011:50) considera que os Cokwe são povos essencialmente agricultores, com uma economia agrícola simples, de acordo com a tecnologia empregue na altura. É uma agricultura de tipo familiar e de regime comunitário, onde se extrai o suficiente para o sustento e para satisfazer certa obrigação de caráter social.
A segunda grande atividade cokwe é a caça que se pratica de diferentes manierias em função do tipo de animal caçado. A pesca e a caça de pequenos animais e a colheita de algumas espécies de vegetais eram atividades secundárias e serviam apenas de recurso em momento de carência e/ ou de alternância alimentar. Geralmente, numa fase evolutiva do século XIX, as famílias cokwe inclinaram-se pela criação de animais (gados, ovelhas, cabras, etc).

Família

O regime matrimonial cokwe é a monogamia que coexiste com a poligamia reservada aos chefes políticos e aos indivíduos com certa influência social. O sistema de parentesco é principalmente definido a partir de laços de sangue às vezes por afinidade, por amizade ou por convivência.
O casamento cokwe observa o regime patriarcal com pagamento obrigatório de “cihako” (alembamento) que os pais da noiva pedem ao noivo antes de contrair o matrimónio.
A sociedade cokwe era essencialmente organizada em sistema de parentesco matrilinear, onde a herança era transmitida aos parentes da parte materna.

Organização política

Quanto à organização política, é de tipo piramidal onde a povoação era dirigida por um chefe “mwata” assessorado por dirigentes políticos considerados de “sangue nobre”, os “mwanangana”, que formavam uma classe aristocrática social e intelectual. São eles, possuidores das ciências, da sabedoria e das tecnologias (ferreiros, ervanários, mágicos, caçadores, guerreiros, etc.), enquanto o resto dos membros da sociedade sem especialidade era considerada como indivíduos de baixa classe e constituíam a maioria da população.
A autoridade dos chefes “mwata” provinha do poder divino ou sobrenatural. Normalmente, constituem um conselho de anciãos com funções de consultoria e/ ou deliberativa. Cada sociedade governava-se de forma autónoma, com uma entidade hermética, independente, com poder político próprio e autónomo. A sucessão do chefe fazia-se e ainda se faz por via materna dentro da linhagem, confirmada pelos anciãos.

Religião

Do ponto de vista religioso, pode-se dizer que os Cokwe eram animistas. Adoravam os antepassados para todas as atividades quotidianas (poder, caça, doença…) e recorriam à adivinhação e “mahamba” (adorno feito de barro) para evocar o espírito dos antepassados. A crença no feitiço é um dado da realidade material e espiritual: todo mal ou doença, toda morte tem como causa o feitiço (Manassa, 2011:54).

Educação

A educação cokwe é assegurada a partir da “mukanda” ou circuncisão, iniciação masculina e feminina. Esta é uma forma da escola de formação para os mais jovens na puberdade e permite a sua inserção na sociedade. Antigamente, os jovens de sexo masculino eram isolados das casas dos pais com idade entre os 10 e 13 anos para um período de estágio de aproximadamente dois anos e meio, onde eram chamados de “thundaji” circuncidados e recebiam instrução costumeira de variada ordem social e cultural. São esclarecidos os “thundaji” quanto ao modo de se comportarem na vida matrimonial, os conhecimentos da sua história tradicional, a aprendizagem das artes, do artesanato, da pesca, fabrico das armas simples e das armadilhas. esta iniciação é uma preparação psicológica e prática para uma melhor inserção social dos jovens.

Habitat

O habitat cokwe é de tipo retangular, quadrado e algumas vezes circular com uma cobertura de capim e as paredes de pau-a-pic construídas em aldeias implantadas no meio das chamas, junto de fontes de água em espaços abertos. Praticam a arte da pintura nas paredes das suas habitações.

Cerimónias

As diferentes cerimónias tradicionais são geralmente acompanhadas das danças como é o caso da “cianda” e as máscaras para a dança “akixi” (palhaços).

In “A Canção Festiva e Fúnebre na Cultura Cokwe Análise Temático-Estrutural”, trabalho de fim de curso apresentado para a obtenção do grau de licenciatura, de Maria Teresa Neia Muegita

5 comments on “Breve historial do povo Cokwe

  1. mdpiteira@sapo.pt
    25 de Agosto de 2014 at 17:07 #

    Domingas Muito interessante este artigo e,certamente,o trabalho de fim de curso da autora mencionada.Pode constituir uma mais valia para nós.Julgo que essa autora é angolana.Seria útil para o nosso trabalho Beijos

    Dolores Piteira

    Quoting “Mwelo Weto – Literatura, Linguística  e Cultura Africana” : > > > > Domingas Monte posted: “Segundo João Baptista Manassa (2011:31), > os tucokwe são povos descendentes do reino Lunda. A expressão > “cokwe” designa também a língua falada pelo mesmo povo. A história > tradicional ensina que este povo emergiu para o oeste, provavelmente > no princípio do ” > > > > > >

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    23 de Setembro de 2014 at 13:43 #

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    18 de Junho de 2018 at 12:58 #

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  4. Nhanga agosto kileza
    17 de Fevereiro de 2019 at 19:47 #

    Muito obrigado pela história de povo cokwe, na realidade o povo cokwe encontrados o povo pende que foram os primeiros habitantes das Lunda , certo , como hoje dia , com a independência e a soberania do nosso pais chamado Angola , o povo cokwe em 2018 , expulsa o povo pende na 3e fase na Lunda , segunda história , o povo cokwe a utilizar antropologia de divisionismo , e cabe também que não revela tão dito história do povo pende, que foram o povo de Ngola kiluanji kia samba , dono da terra chamado Angola .

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