Os fenómenos linguísticos nos textos literários

Por: Teresa Silva e Silva 

Um fenómeno linguístico se caracteriza por um determinado acontecimento que ocorre na história de uma determinada língua, criando uma nova forma de comunicação e modificando a língua como um todo.
Determinadas expressões idiomáticas que surgem no decorrer do desenvolvimento de uma língua são exemplos de fenómenos linguísticos. Palavras desconhecidas, com o uso quotidiano e com o tempo, passam a se tornar uma palavra reconhecida oficialmente. Entendamos, expressão idiomática, como a combinação fixa de palavras que adquire um significado que não pode ser compreendido pela divisão das palavras desta expressão idiomática. Estas expressões são vulgarmente conhecidas como “frases-feitas”.


Exemplos: “andar de boca em boca (informação transmitida oralmente); perder a cabeça (perder a ponderação ou a lucidez); sem pés nem cabeça (sem sentido); dor de cotovelo (inveja); ter língua de serpente (maldizer os outros); dar com a língua nos dentes (cometer uma indiscrição); com uma mão à frente e outra atrás (sem recursos materiais); ter costas largas (assumir as culpas alheias). Ou ainda, aquelas que podem ser substituídas por uma palavra equivalente, como: lavar avante (decidir); levar a mal (ofender-se); levar couro e cabelo (extorquir); não poder com … (detestar); atirar-se a … (seduzir); dar a língua (falar); dar a luz (parir); trazer à memória (lembrar); trazer no coração (amar)”; etc.

Normalmente um fenómeno linguístico de relevância é associado a alguma época ou a algum facto histórico. Assim, com a globalização, ou antes, com as rotas comerciais que deram início aos descobrimentos a língua portuguesa vem incorporando, num processo contínuo, termos das línguas africanas, “sobretudo do vocabulário ligado à toponímia, à fauna e à flora… no caso angolano, emprestaram alguns termos ligados à vida social como sunguilar, cochilar, cuchixar, xingar, fofocar e outros, como batuque, cabana, cassule, quilombo, samba, sanzala, cachimbo que encontram maior uso no português do Brasil.

Um fenómeno é um acontecimento observável, particularmente algo especial (literalmente “algo que pode ser visto”, derivado da palavra grega phainomenon = “observável”) como, por exemplo, os feitos de Galileu Galilei para a Astronomia e a Física, foram observados pelo Mundo.

Na filosofia de Immanuel Kant um fenómeno tem um significado específico e contrastou o termo “Fenómeno” com “Nómeno” na sua obra, “Crítica da Razão Pura”. Por isso, os fenómenos constituem o mundo como nós o experimentamos, ao contrário do mundo como existe independentemente das nossas experiências, ou “das coisas-em-si”). Segundo Kant, os seres humanos não podem saber da essência das coisas-em-si, mas saber apenas das coisas segundo os esquemas mentais que nos permitem apreender a experiência – Os falantes do português falam para serem ouvidos, às vezes para serem respeitados e também para exercer uma influência no ambiente em que realizam os actos linguísticos e isso torna-se uma prática observável para todos.

A Linguística chama isso de estilística , pois, cada falante pode cultivar o seu respectivo estilo, principalmente, se o tiver que empregar na obra literária. Napoleão Mendes de Almeida, na sua Gramática Metódica diz, ao se referir ao “estilo: O estudo da gramática não passa de munição para o combate; quanto maior for o nosso conhecimento de gramática, tanto mais munidos nos encontraremos para a luta. Não basta estar apercebido de abundantes e valiosos apetrechos, conhecer cabalmente o funcionamento das armas: é preciso servir-se delas. Se agramática estuda as palavras e a sua combinação para a expressão correcta do pensamento, a estilística mira a beleza. Se a gramática tende a fixar-se em moldes uniformes de expressão, a estilística, isto é, o estudo do estilo não tilhe a liberdade ao génio nas combinações estéticas da palavra. Se aquela é geral, esta é individual.” Estilo é a maneira peculiar de cada escritor expressar os seus pensamentos.

É com pensamentos como estes, que tenho dito aos meus estudantes que o mundo é um palco e a literatura é o palco de realização da língua, pois, somos todos actores sociais e devemos através dos textos literários adentrar na língua e sairmos da gramática normativa para criar e recriar a língua numa interacção entre autor e leitor para explorar de forma lógica os fenómenos linguísticos, sejam eles por influência de outras línguas, por hibridismos, por processos fonéticos de queda ou supressão, por adição, por alteração ou ainda por analogia.

São estes os fenómenos linguísticos mais conhecidos na gramática. Embora mais recentemente e por influência do internetês, venha a acontecer por muitas paragens e com muita frequência, a amálgama, que ocorre quando se fundem duas ou mais palavras, sem motivação morfológica, isto é, de forma aleatória. Por exemplo, expressões como imagináutica, que agrega (imaginação+náutica); e desesfeliz (desespero+feliz), verificam-se no domínio literário da obra de Mia Couto. Outras como informática, que agrega (infornmação+automática); e cibernauta (cibernético+astronauta) podemos encontrar em várias obras da área das novas tecnologias de informação. O caso das amálgamas é proficuo na formação de novas palavras. Pode ser encontrado com muita frequência na troca de mensagens telefónicas do quotidiano.

Entretanto, não podemos nos esquecer que a Língua Portuguesa, em Angola, possui muitas variedades diacletais, que identificam geográfica e socialmente os falantes pela forma de falar. Infelizmente encontramos muitos preconceitos atribuídos aos diferentes modos de falar.
Mas o nosso tema centra-se nos fenómenos linguísticos e não no preconceito linguístico. Analisemos então alguns fenómenos:
O mais comum é o “Rotacismo”.
É comum ouvir pessoas a pronunciarem as seguintes palavras: quarquê (qualquer) com apócope do (r) no final da palavra, grobo (globo), frauta (flauta), frauda (fralda), barde (balde), galfo (garfo), bo-talde (boa tarde), armoço (almoço) – erros elementares de ortografia na nossa língua portuguesa. Se examinassemos esses erros à luz da Sociolinguística, muitos linguistas podiam não concordar com o rótulo de erro aposto de modo definitivo e peremptório ao jeito de falar do povo comum, não alfabetizado ou iletrado.

A esta “língua errada”, típica das classes sociais cujo acesso à educação formal é limitado, a linguística moderna chama de “português não-padrão”, por oposição ao português-padrão ensinado nas escolas e encontrado nas gramáticas e dicionários. Mas, ainda assim, não deixam de ser fenómenos linguísticos, que podem ser analisados na linearidade frásica.
Longe de despertar o riso, ou de ser absurdo, ou fruto da ignorância do povo, o português não-padrão possui a sua própria lógica linguística, solidamente fundamentada na evolução natural da língua através dos tempos. A este fenómeno em particular, da troca do ‘L’ pelo ‘R’ nos encontros consonantais, dá-se o nome de rotacismo.

Sociolinguisticamente o rotacismo é só uma tendência natural na evolução das chamadas línguas românicas, aquelas cujo tronco é o latim (especificamente, o latim vulgar oubárbaro). Colocar o fenómeno como erro, significa desconhecer a evolução natural da língua, o que redunda em manifesto preconceito, se postulado sem razão de causa, principalmente para nós angolanos, que iniciamos a aprendizagem da língua de uma forma híbrida ou numa mistura entre as línguas nativas e a língua do colonizador. Gramaticalmente o rotacismo é um erro, embora possa ser tratado convenientemente dentro de um texto literário, como por exemplo numa crónica.

A aférese – é a supressão de um fonema no início da palavra e pode acontecer na oralidade com todas as camadas sociais, com palavras cuja evolução se conheça. Exemplos: atonitu (tonto), ainda (inda), escola (scola), estudante (studante), está lá (sta lá!).
A metátese – consiste na mudança, de lugar, de fonemas dentro da palavra. É um processo muito importante, que ainda hoje se verifica com frequência, na linguagem popular. Por exemplo: partelera, com síncope da semi-vogal (i) (prateleira), parteado (prateado).
A síncope – é a supressão de um fonema no meio da palavra, como aconteceu na evolução das palavras, que está na origem da existência de palavras divergentes, convergentes e outras. Por exemplo calidu (caldo), opera (obra) e viride (verde). Mas podemos verificar, também no dia-a-dia com palavras como: prossor (professor), Marquinha (Mariquinhas), dotora (doutora), etc.
Apócope – é a supressão de um fonema no fim da palavra. Exemplos: os pé e as mão (os pés e as mãos), perdê (perder), namorá (namorar), sê (ser), varrê (varrer), olhá (olhar) e tantos outros verbos mal terminados na oralidade.
Prótese – é o acrescentamento de um fonema no início da palavra, como alembrar (lembrar), o apá (pá), inrival (rival) entre outras palavras.
Nasalação – quando um fonema oral torna-se nasal por alguma influência, como: Njanini em vez de (Janini), Ansim (assim), Santanás (Satanás), ngoverno (governo), etc.
Desnasalação – que consiste na perda da ressonância nasal de algumas vogais. Exemplo: comadante (comandante), nu acredito (não acredito), Zinga (Nzinga), Nzambi (Zambi).
Outros fenómenos linguísticos podem ser encontrados na gramática, como: contração, sonorização, dissimilação e tantos outros e os seus exemplos podem ser encontrados percorrendo os mais diversos recantos do nosso país aonde verificam-se os mais diferentes registos de línguas populares.

A verdade é que em Angola, embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português de Portugal, esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não só pela extensão territorial do país – que gera as diferenças regionais, bastante conhecidas e também vítimas, algumas delas, de muito preconceito, mas principalmente por causa da trágica injustiça social que foi o assimilacionismo (termo usado para designar o africano como um ser não-indígena, que pudesse atingir o mesmo status legal que um branco europeu). São essas graves diferenças que provocam diferentes status sociais que explicam a existência de um verdadeiro abismo linguístico entre os falantes das variedades não-padrão do português e os falantes da variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola.

Sobre a questão da variação linguística e a estigmatização de uma língua falada, reconhecendo que existe muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão consideradas inferiores ou erradas pela gramática. Tais diferenças não são imediatamente reconhecidas e, quando são, são objectos de uma avaliação negativa.

Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa livrar-se de alguns mitos, como: o de que existe uma forma “correcta” de falar que não admite outras influências, ou de que a fala de uma região é melhor do que a de outras, ou ainda, de que a fala “correcta” é a que se aproxima da língua escrita, ou de que o angolano fala mal o português, ou de que o português é uma língua difícil. O importante é “corrigir” a escrita para evitar que se escreva diferente das regras gramaticais e empregar linearmente as novas palavras dentro dos textos literários.

A variedade da língua produz diversidade, mas é preciso que essa diversidade não comprometa a unidade da língua. A tripla Castro Pinto, Vieira Lopes e Manuela Neves Enfatiza que: “A existência desta multiplicidade de variações da língua portuguesa não é suficiente, no entanto, para impedir a sua unidade. Na realidade, a unidade é garantida por uma das suas realizações – a língua padrão. Que, actuando como modelo, ou como norma, desempenha uma função uniuficadora”.

Com a Diversidade Linguística, percebemos o quanto a língua falada e escrita sofrem alterações que acabam gerando um estudo sobre a cultura de cada localização. No livro A Língua de Eulália, publicado em 1997 por Marcos Bagno, vemos uma valorização das palavras por parte das professoras e estudantes Vera, Sílvia e Emília, que vão de encontro a Irene, uma linguística que está escrevendo um livro sobre variação linguística. Eulália, uma empregada e amiga de Irene deixa transparecer “erros” de português, considerados inadequados para a Língua Padrão, com isso, lhe é ensinado os fenómenos da língua, a fim de explicar a lógica do funcionamento das variedades linguísticas para combater o preconceito linguístico.

Nos textos literários, encontramos literatura como sinónimo de arte literária; e se à maneira de um indivíduo expressar os seus pensamentos se dá o nome de estilo, à arte de expressar o belo mediante a palavra, falada ou escrita, dá-se o nome de literatura. E para que algo seja belo, é preciso que, uma vez conhecido, agrade pelo explendor da sua grandeza e pela sua ordem, aonde haja:
Integridade – visto que é disforme e não belo, aquilo a que falta uma das suas partes ou perfeições;
Harmonia – isto é, que tenha proporção das partes entre si e delas com o todo, visto não haver agrado no que é desproporcional. Não é belo o rosto cujo nariz, muito embora perfeito em si, é desproporcional com as outras partes do rosto;
Claridade – visto não poder parecer-nos belo o objecto desacompanhado de cores harmonicamente distribuídas numa luz suficiente.
Quando se fala do belo como expressão artística não se tem em mente o antónimo de feio, senão clara, harmónica e integra objectivação do que se pretende manifestar. Nos textos literários concorrem para o cumprimento desses factores, as frases curtas, o emprego de palavras apropriadas, o uso variado de figuras sintácticas, a simplicidade, ou seja, a fuga ao preciosismo; o emprego de palavras elevadas, ou melhor, a fuga a trivialidade, pois, há vocábulos e expressões que, embora toleradas na conversa, destoam num trabalho escrito e o alimento para um trabalho literário excelente é a leitura de bons escritores uns já canonizados e outros com uma linguagem clara e diversificada com docilidade.

BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Napoleão Mendes de – Abc – Gramática Metódica da Língua Portuguesa. Editora Saraiva. SP-Brasil. 1999.
BAGNO, Marcos – A Língua de Eulália, Novela Sociolinguística, Editora Contexto. São Paulo. 2010.
CASTRO PINTO, J. M.; VIEIRA LOPES, Maria do Céu; NEVES, Manuela – Gramática do Português Moderno, Plátano Editora. Lisboa. 1997.
COSTA, João (Cordenação) – Gramática Moderna da Língua Portuguesa. Escolar Editora. Lisboa. 2010.
http://pt.shvoong.com/writing-and-speaking/speech/2090807

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