Entrevista com o Dr.º Zavoni Ntondo

É preciso que nós intelectuais comecemos a fazer trabalhos de sensibilização de pessoas porque os nomes toponímicos que temos aqui, são vazios, cultural e historicamente. Os nossos nomes têm um significado, a menor modificação tira o seu sentido. Por isso, temos que estar a sensibilizar as pessoas nesse sentido porque muitos não têm noção do aspecto etnolinguístico, só aceitam o nome tal como está. A sensibilização da situação toponímica vai fazer com que se possa resgatar todos os valores.

Nota Biográfica

Zavoni Ntondo: Nasceu na província do Wíje aos 28 de Janeiro de 1953.

Fez os seus estudos, primários, secundários e liceais na República Democrática do Kongo. No mesmo país, licenciou-se em Língua e Literatura francesas na Faculdade de Letras da Universidade de Lubumbaxi. Frequentou a Universidade Livre de Bruxelas onde fez o Mestrado em Linguística Africana. Actualmente, é doutorando em Ciências da Linguagem (Linguística Africana) na Universidade Lyon II.

Zavoni Ntondo foi Director do Instituto Nacional de Línguas Nacionais e chefe de Departamento de Letras do Instituto Superior de Ciências da Educação onde ministrou as cadeiras de Introdução à Linguística Geral, Sociolinguística e Linguística Bantu. Actualmente ministra a cadeira de Introdução aos Estudos Linguísticos.

ENTREVISTA

A IMPORTÂNCIA DOS TOPÓNIMOS NA CULTURA ANGOLANA

MWELO WETO: Que apreciação o Dr.º faz em relação a esta temática?

Dr.º Zavoni Ntondo: É preciso, primeiro, consciencializar as pessoas porque a mentalidade das pessoas existe e está habituada com este tipo de toponímia ou essa mistura de línguas. É preciso que nós intelectuais comecemos a fazer trabalhos de sensibilização de pessoas porque os nomes toponímicos que temos, aqui são vazios, cultural e historicamente. Os nossos nomes têm um significado, a menor modificação tira o seu sentido. Por isso, temos que estar a sensibilizar as pessoas nesse sentido porque muitos não têm noção do aspecto etnolinguístico, só aceitam o nome tal como está. A sensibilização da situação toponímica vai fazer com que se possa resgatar todos os valores.

Temos que falar muito sobre os fenómenos de aculturação que também retiram a essência cultural dos topónimos e informar às autoridades. É a autoridade que atribui os topónimos. Se houver mais trabalhos alguma coisa poderá ser feita.

MWELO WETO: O Dr.º acha que num futuro breve teremos resultados sobre esta temática, tendo em conta os trabalhos que estão a ser divulgados?

Dr.º Zavoni Ntondo: Eu fiz parte de uma comissão criada por um decreto presidencial. Fizemos um trabalho em grupo andando em todas as províncias. Chegamos a um resultado com à coordenação do Ministério da Administração do Território (MAT). Deixamos o trabalho todo bem feito. O Ministério da Educação também fez parte para corrigir alguns defeitos nos livros de geografia. Porque é preciso devolver aos topónimos a sua essência cultural e histórica para que as pessoas saibam que este ou aquele nome, relativamente a nossa cultura, designa X ou refere-se a nossa origem. É o caso de Menongue que não existe. Existe, sim, Vunonge que é o chefe. Menongue não tem significado, mas Vunonge é uma personalidade histórica da cultura angolana. Menongue não pertence à cultura portuguesa nem angolana, quer dizer que está no vazio.

MWELO WETO: A desculpa até ao momento é de que o colono foi denominando as localidades, municípios e bairros. Mas também há bairros que se formaram depois da independência e somos nós que denominamos esses bairros com nomes também aportuguesados.

Dr.º Zavoni Ntondo: O português ficou em Angola muito tempo e é preciso ver como está o nosso português. Também carrega marcas das línguas nacionais. Nós damos nomes e se verificar, a forma é aculturada. Mesmo que escrevermos no quadro das línguas nacionais, a escrita como está MAGI YETO, é português porque o g em kimbundu não existe. Assim temos um g português e o conteúdo da palavra em kimbundu. Ali temos duas línguas. Esse é o problema, nós também somos aculturados.

Como fazia referência o Director provincial da cultura do Kwandu Kuvangu de que se deve recuperar o grupo Kamusekele. Ao invés de procurarmos pessoas que sabem escrever na sua língua para poder ensiná-las, não, começam a falar ngangela. Eles assim, começam a perder a sua língua e assim foram aculturados.

O problema é que temos que ter consciência como é que é a nossa cultura. Os aspectos da etnolinguística são pouco divulgados. Se houver mais trabalhos a este aspecto etnolinguístico penso que mesmo as autoridades serão sensibilizadas em repor os topónimos. As pessoas que dão os nomes preferem dar de alguém de fora. Como exemplo, Rock Santeiro veio de onde? Poderia ser daqui, mas preferem utilizar Rock Santeiro. Para eles o que vale é o de fora, o de dentro não tem valor.

MWELO WETO: Neste momento, daquilo que o Dr.º sabe, existe alguma província em que a preocupação dos topónimos é mais relevante?

Dr.º Zavoni Ntondo: Nas províncias a lei é mais aplicada do que na capital do país. Quando o governador diz X todo mundo respeita. As leis de Angola são boas. Em Luanda não se aplica, mas no interior das províncias aplica-se. Se as autoridades provinciais começarem a tomar parte ou conta dessa situação penso que podia se modificar.

Os intelectuais e todos aqueles que têm conhecimento sobre as noções da cultura têm muito trabalho no sentido de sensibilizar as pessoas o que deveria ser. A maior parte não tem noções de etnolinguística.

Por: Estévão Ludi

2 comments on “Entrevista com o Dr.º Zavoni Ntondo

  1. Madalena António
    22 de Novembro de 2014 at 16:41 #

    A questão dos topónimos é uma problemática em Angola, o nome do roque santeiro veio de uma novela divulgada na TPA nos anos 80. Recentemente o senhor ministro da admnistração do território, falou que temos que passar a escrever os topónimos na forma aportuguesada e deu ex: cunza sul em vez de kwanza sul para não criar constrangimento na escrita porque uns escrevem com C e outros com K e eu acho se assim for também têm de mudar a ecrita da kwanza que está no dinheiro.

  2. Taata Ngunz'tala
    11 de Fevereiro de 2015 at 10:11 #

    No Brasil esta problemática com as línguas bantu é maior ainda. Temos muitas rezas, cânticos, mitos, cultos, etc., trazidos pelos nossos ancestrais escravizados, mas a efluência do português é muito grande, ainda mais quando perdemos a ligação com a raiz e tivemos que preservar tudo que podíamos como ouvíamos. Se alguém puder ajudar com livros, dicionários, gramáticas, contos nativos, orações nativas, agradecemos. Ntondele

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