Os Desafios da criação literária em Angola nos anos actuais

Por Teresa Silva e Silva

Criação literária é o processo através do qual se produz a literatura e isso abrange o estudo e o exercício prático dos géneros, espécies e formas literárias.

Todavia, estaríamos a falar, se calhar, de uma oficina, que apareceria como extensão para a Criação Literária, uma vez que somos uma Faculdade de Letras. Essa oficina, supostamente, levaria os participantes a construir um estilo literário próprio, a partir da ideia da escrita como uma criação autoral, exercitando e desenvolvendo a fluência no discurso escrito criativo por meio da abordagem da prosa, da poesia e da dramatologia. Os participantes podiam ser: escritores, editores, professores de literatura e estudantes das áreas de Letras e Comunicação, além de interessados em desenvolver as suas habilidades de produção literária.

Mas, qual seria o objectivo disso? Pressupomos que seja fornecer subsídios teóricos e práticos para a construção da voz autoral na escrita, potencializando habilidades de observação, imaginação, experimentação de imagens, trabalho rítmico e sonoro com a linguagem. Além disso, o de reflectir sobre o processo de criação em diferentes manifestações literárias, na forma de poesia e narrativa. Aí seriam abordados temas como o género lírico, o poema moderno, a lírica contemporânea, géneros híbridos, o papel do narrador no conto angolanizado, o ritmo narrativo, etc.

Falando assim, até parece tudo fácil e o desafio seria só, colocar as ideias no papel…

Narrativas de ficção, como conto e romance, tudo o que se constitui a partir de alguns elementos fundamentais: narradores e pontos de vista, personagens, diálogos, descrições de pessoas, de objectos e ambientes da cultura de Angola. Tudo o que forneça aos alunos, a partir de exercícios de escrita e do estudo de autores clássicos e contemporâneos, o conhecimento básico acerca de cada um desses elementos. Os elementos transversais necessários para o estudo dos géneros e formas da literatura.

Enfim, queremos mostrar que a Faculdade de Letras pode incentivar a colocar as ideias no papel ou incentivar a Criação Literária, contando com a colaboração da UEA. Isso ajudaria muito os aspirantes a escritores, estudantes, professores e todos aqueles que amam a literatura terem atenção para o cuidado que se deve ter com a linguagem – fazer tudo para enxugar ou esgotar o texto, preparar um livro, exercitar a síntese, entre outras técnicas. Todo esse trabalho seria feito, principalmente, em cima dos textos apresentados pelos participantes, realizando um acompanhamento de cada projecto literário. Não excluiríamos a participação especial de renomados autores nacionais.

Oh! Mas isso é o que acontece quando me pedem para falar de literatura. Embarco num sonho maravilhoso, em que, pareço não dispertar, mas o que nos leva a esse debate são os desafios da Criação Literária e não, a criação literária na Faculdade de Letras.

Então, vamos nos ater aos desafios:

O primeiro desafio é exercer a carreira de escritor no nosso país, aonde as influências falam mais que a competência literária, como acontece na maioria dos países. Em Angola é ainda, muito desafiador abrirem-se as portas para a carreira de escritor;

Em Segundo lugar é como ganhar o gosto pela leitura um dos primeiros ingredients para escrever?

Por onde começar a explorar o universo de criação literária?

Onde encontrar ideias para escrever uma história?

Como criar personagens complexos e acreditáveis?

Como desenvolver uma cena?

Como escrever diálogos?

Como escrever um final que satisfaça os leitores?

Como transformar as suas histórias pessoais em narrativas de impacto?

Um depoimento de uma escritora, que se diz muito curiosa, começa assim:

“Em situações onde tive que decidir entre a curiosidade e a educação, escolhi com mais frequência a primeira opção. É um aspecto da minha personalidade que nunca consegui controlar e, para falar a verdade, há muito tempo desisti de tentar.

Fui julgada muitas vezes como intrometida. Mas decidi que prefiro ser acusada com esse adjectivo e satisfazer minha curiosidade, do que ser aplaudida por não alimentar a minha imaginação.

Há um tempo atrás, enquanto caminhava pelo corredor dum hotel, vi uma porta entreaberta. Imaginei que algum hóspede tinha saído às pressas, e não reparou que a porta não se tinha fechado completamente. Deixando de lado todas as lições sobre privacidade e boas maneiras dos meus pais, me aproximei entusiasmada e empurrei a porta discretamente.

Em poucos segundos de observação, reparei numa série de objectos espalhados pelo quarto. Uma peruca despenteada. Uma seringa usada. Uma maleta de maquilhagem quase vazia. Um espelho de mão partido. E antes que os seguranças do hotel me vissem pela câmera de segurança e resolvessem interromper a minha investigação curiosa, voltei para o meu quarto e comecei a meditar…

Com aqueles objectos em mente, fiquei a imaginar a história da pessoa que estava hospedada naquele quarto, e no que estava a fazer, um pouco antes de deixar o quarto. Depois surgiram as conjecturas… Seria uma senhora diabética que partiu o espelho para simbolizar o fim da sua escravatura na indústria de beleza? Seria uma drag queen[1] alcoólatra que bateu de cabeça no espelho enquanto aplicava botox na testa? Ou seria a Lady Gaga a se inspirar para escrever o seu próximo álbum?”

Temos aqui, uma história anónima e sem narrador a espera para ser contada.

Espero que fique claro que o meu objectivo não é vos convencer a bisbilhotar a vida alheia. O ponto que quero ressaltar aqui é que uma porta entreaberta tem um apelo quase irresistível à nossa curiosidade e as vezes, até a curiosidade pode gerar Romance. Acredito que mesmo aqueles que se deixam guiar pelas normas dos bons costumes, desejam secretamente colher as pistas e desvendar os mistérios de uma possível história interessante que cruza o seu caminho.

Aquela fresta das portas entreabertas são convites à curiosidade. É uma oportunidade de, ocasionalmente, fugir da previsibilidade do nosso dia e descobrir um universo diferente.

Eu acredito que todo o texto que se escreve é, também, um convite.

Grande parte da ficção em Angola, que encontramos em Pepetela, Ondjaki, João Melo, Dya Kazembe, entre outros é composta por uma série desses convites para praticar formas simples de criar essa vontade incontrolável de explorar o que está por trás das portas que você abre com os textos escritos.

O que você vai encontrar aqui são respostas possíveis para essas e outras perguntas relacionadas ao assunto, além de dicas práticas e recursos para desenvolver e exercitar a sua criatividade.

Um dos maiores e mais instigantes desafios com que tenho me defrontado na vida académica, vale ressaltar, uma das tarefas que considero vitais à humanidade, a docência, é desenvolver o exercício da Criação Literária.

As considerações a seguir advêm de um trabalho minucioso com o estudo e a prática individual na Literatura, com a imersão em aulas desenvolvidas na Faculdade de Letras da UAN e na Faculdade de Ciências Humanas e Comunicação da Universidade Metodista de Angoa, junto aos estudantes. Espaço interdisciplinar por excelência, ponto de fuga em que se tocam ansiedades humanas em princípio paradoxais, tais como fluidez e permanência, retraimento e exposição, orgulho e baixa estima, obrigação e necessidade – pares tantas vezes amalgamados[2] por uma cadeia de enganos: o acto de “criar” transita por modelos arquetípicos, imitações infundadas, inspirações e transpirações vitais, enfim, projecções que variam do lúdico, passando pelo terapêutico, até a busca e o domínio de técnicas “novas”.

Nas instituições em que leccionei e lecciono, nunca foi criada uma Oficina de Criação Literária, talvez porque existem poucos professores de Literatura e isso privilegie mais os professores de Língua Portuguesa, mas o que a experiência tem me mostrado é que o objectivo mais explícito daqueles que procuram uma Oficina ou Curso de Criação Literária é o estímulo para escrever e um olhar que lhe pontualize se “aquilo” que produziu até então é “literatura”.

As hesitações, portanto, que levam os candidatos a uma Oficina desta natureza, demonstra que a maioria vai a busca de um apoio, testemunho e uma espécie de garantia para a sua própria prática de produção textual. Nesta perspectiva, provavelmente estejamos a perder um grande grupo que esbanja sensibilidade, curiosidade, defesa e até mesmo uma certa desconfiança – até que seja provado o contrário, ou melhor, até que os sucessivos encontros provem a inutilidade deste temor.

Se é então extremamente delicado transitar por área tão fluida do ponto de vista daquele que se identifica como “criador”, pensemos juntos na condição de quem, mesmo momentaneamente, pretende assumir a tarefa de levar os outros a exercerem e exercitarem a criação, a se outorgarem o poder da linguagem, da materialização dos próprios e alheios pensamentos. Estimular a criação é também criar – uma via de mão dupla, como nos lembra Clarice Lispector:

“Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.”[3]

Parece claro que a escritora aqui nos fala da relação intrinseca entre a educação familiar desde tenra idade e a sua aliança com a fala, a leitura e a escrita, dentre outras grandezas, da experiência como factor vital no exercício da escrita: Criar acção. E é aqui, que nós angolanos encontramos os nossos desafios – o desafio de ler muito tarde, o de termos alguma “letargia” pela leitura e o medo de ler, ler e ler muito; pequenas, médias e grandes obras; obras angolanas, outras produções de outros mundos e obras universalizadas.

Não existe nenhum manual ordenado logicamente para adestrar o candidato a romancista, ou poeta, ou contista. E quando me refiro a não existência de manual, refiro-me à total inadequação de um guia-acessível que se trate, basicamente, da produção literária. Com todas as ambiguidades que a prática provoca, com toda a singularidade que cada sujeito constitui, com toda a insatisfação e alegria que o resultado pode – ou não – trazer ao seu “criador”, o grande desafío é orientar sem formatar, levar ao aprimoramento sem cortar, estimular sem mentir. “Especialmente porque, ao relacionar-se mais profundamente consigo mesmo, ao garimpar as mazelas do seu texto, ao encontrar o ouro, separar o joio do trigo e às vezes optar pelo joio, o autor recém-nascido é obrigado a enfrentar o mundo, a diluir parte do seu eu, abrir-se à projecção alheia. A partir daí vai contracenar com o outro na virtualidade do texto literário”[4].

O terreno é movediço, apoia e atraiçoa e, sabemos, a percepção desta duplicidade já deveria ser questão de senso comum, principalmente por ter sido levada a público diversas vezes. Mas muitas das belas reflexões dos literatos infelizmente não chegam ao conhecimento da maioria. Tal especificidade se restringe aos estudiosos do tema. Daí a importância do docente estar sempre atento e disposto a actualizar o déjà vu, a reabastecer ou desconsiderar o clichê e a trazer ou atrasar o novo – a exclusividade, mas também a fértil noção de simultaneidade mais típica das conjunções aditivas.

Quando Muanza, Soares e outros, escrevem o seu texto de literatura explicando “Como se lê um texto literário”, o objectivo é formalizar um método – comparativo – para aqueles que, analogamente a um biólogo, de facto queiram atingir um mais alto grau de conhecimento na matéria literária. A sua pretensão é clara: Obviamente será ele quem vai apresentar a matéria-prima necessária àquele que deseja tornar-se um expert em literatura.

Interessa-nos aqui compreender que a comparação elogiosa de Francisco Soares à Abreu Paxe pressupõe um conhecimento prévio dos escritores mais representativos da literatura, os quais, no seu entendimento, são aqueles que mantêm a linguagem “eficiente”, isto é, a sua precisão e a sua clareza. Para tal ele propõe “Duas maneiras de ler a poesia” criando uma mini-antologia que vai de Ezra Pound, passando por José Luís Mendonça e David Mestre. Vale considerar a relevância que Pound atribui ao acervo literário da humanidade como um patrimônio que não deve ser ignorado, mas conhecido e organizado de maneira que os demais possam ir além do que já foi de facto trilhado pelos antepassados. A escolha dos componentes deste ou daquele texto seriam aqueles que fazem “grande literatura”.

Sempre fui fascinada pelo processo criativo. Como, a partir de uma ideia, uma imagem, um tema, o escritor constrói um universo. Como as peças da narrativa se articulam na linguagem, na estrutura, na construção das personagens.

Queria entender o processo de criação de escritores como Hilda Hilst e Uanhenga Xitu, Florbela Espanca e Agostinho Neto, que são tão diferentes entre si e tão singulares nas suas obras. O que cria essa singularidade? É a pergunta que faço até hoje como leitora e professora de literatura. Essa pergunta é o ponto de partida das crónicas da vida, que percorrem toda a escrita que gira ao redor de uma questão sobre criação literária, leitura, vida e obra dos escritores, as suas angústias e descobertas. Anton Tcheckov, José Saramago, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Cordelina Fine, Kim Eduards, Flaubert, são alguns autores que estão no meu pensamento literário.

É interessante que pessoas ligadas à criação, mesmo de outras áreas, como teatro, música, se identificam também com o livro. São inquietações e descobertas que elas tem também. Outro retorno saudável que tive sobre o texto é uma mistura de ensaio e ficção conduzidos pela crónica, como o que experimentei lendo, recentemente, uma crónica inicial do nosso estudante Teodoro Miguel, numa linguagem que permite que questões complexas sejam tratadas com simplicidade e leveza.

Ser escritor hoje, no sentido criativo, é desafiador também, porque as nossas estantes estão cheias de livros fascinantes, criativos, ousados, maravilhosos e assim, vive-se num constante embate entre a fricção, a tradição e a vanguarda, nossas heranças estéticas. O desafio do escritor nos tempos actuais é encontrar a sua voz narrativa, a sua visão literária, construir uma escrita original, própria, diante de tudo que já foi feito, e muito bem feito, na literatura.

[1] Homem que se caracteriza de mulher para diversão pública.

[2] A amalgama ocorre quando se fundem duas ou mais palavras, sem motivação morfológica, isto é, de forma aleatória. Ex: imagináutica (imaginação náutica), desesfefiz (desespero feliz), cibernauta (cibernético astronauta), etc.

[3] “As três experiências”, Clarice Lispector. In: A descoberta do mundo.

[4] RIBAS, Maria Cristina – Criação Literária, p.109

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