Entrevista ao poeta Ângelo Reis “O poeta dos pés descalços”

Biografia

Ângelo Miguel Domingos dos Reis, nasceu em Luanda, aos 26-02-1978, e teve os primeiros passos da sua vida na antiga Nova Lisboa, actual Província do Huambo, onde nasceu o seu pai. Aos nove anos de idade devido ao factor guerra civil que se desenrolava no país, é levado para Portugal, pela sua avó Maria Odete Lousa, mulher que o educou e o consagrou no mundo das letras.

Proveniente de uma família de artistas, desde o falecido avô que foi músico de bar no Huambo, à sua tia-avó que era artista plástica, passando pelo seu pai, que foi poeta declamador nos seus tempos de juventude.

Desde jovem sempre teve uma tendência e inspiração para o mundo das artes, sendo em finais da década dos anos de 80, princípios dos anos 90, foi integrante de um grupo de RAP, de elementos de várias origens africana e portuguesa, os então conhecidos Geração Rasca.

Depois de regressar ao seu país (Angola), permaneceu no anonimato e só reaparece declamando nos palcos da Galeria Celamar em meados de 2005. Em 2007 participa na criação do Movimento Lev´Arte, sendo um dos seus co-fundadores.

Ainda em 2007 e já na companhia de Kussi Bernardo (Kardo Bestilo), cinge os seus primeiros passos para a concepção do Projecto Misturas, onde participa na antologia poética denominada Palavras, que envolve escritos de vários poetas angolanos.

Já em 2013, participa na Antologia Poética do livro Raízes uma união Brasil/Angola. Autor de três (3) álbuns de poesia musicada no mercado angolano dentre eles “O casamento entre o Semba e a Poesia”, “Projecto o Fado e a Poesia e Memórias de Agostinho Neto”.

MW – Comecemos com a pergunta da praxe: quando se deu o contacto com a poesia, e em que momento decide escrever?
AR – Bem na verdade eu comecei a fazer escrever letras como integrante de um grupo de RAP nos anos 80 conhecidos na altura como os “Geração Rasca”.
MW – Quais as influências da infância e adolescência que determinaram para a sua opção pela poesia e não por outra arte? E porque?
AR – Eu acredito que o que tenha determinado o meu rumo artístico tenham sido as minhas vivências essencialmente o meu retorno á Angola em finais de 1998 e acima de tudo as dificuldades pelo qual passei. É obvio que tive influências familiares pois o meu avô Roque dos Reis foi músico de bar e pertenceu a um conjunto musical na antiga Nova Lisboa, actual Huambo.
MW – Para além do exercício da poesia, tem outra paixão? Qual?
AR – Bem para além da poesia tenho sim outra paixão sempre tive uma cativação muito grande pelas Artes Marciais tanto que sou hoje a custa de muito sacrifício faixa preta de JiuJitsu Brasileiro.
MW – Fale-nos dos seus álbuns.
AR – Os meus álbuns como é evidente eu não seria a melhor pessoa do mundo a falar sobre o meu trabalho apenas posso salientar que foram fases da minha vida artística onde devo referir com alguma propriedade que tive várias evoluções a nível musical, também como compositor e poético.
MW – Como foi o casamento do semba com o fado?
AR – Não houve na verdade um casamento do Semba com o fado houve sim uma tortilha de poesia e semba que foi o meu primeiro álbum que deu origem ao Casamento entre o Semba e a Poesia (Melancolias) e eu chamo a esse trabalho discográfico de a minha primeira experiencia onde não arrecadei nenhum dinheiro pois nunca foi minha intenção fazer estes trabalhos tentando adquirir algum fim lucrativo.
O Segundo álbum foi chamado de Projecto “o Fado e a Poesia”, onde reúne artistas do anonimato da nossa praça e tentei trazer a tona uma fusão de fado contemporâneo e poesia. Já o terceiro álbum foi feito com muita responsabilidade e maior maturidade pois estamos a falar aqui da poesia de Agostinho Neto “Memórias de Agostinho Neto”.
MW – O que representa para si, Agostinho Neto?
AR – Bem é preciso perspectivar Neto em três personalidades distintas que são: Agostinho Neto enquanto médico, o Neto enquanto Politico e o Man Nguxi conforme era carinhosamente chamado pelos seus como poeta. Temos que despertar a consciência de Neto, principalmente na nova geração de modos a que os ideais de resgate de valores sejam emancipados. Eu sou Agostinho Neto, sempre que leio ou declamo os seus poemas, eu sou a consciencialização dos “emaranhados de Africa” até “as mais distantes terras do mundo”…
MW – Em Angola, é possível viver-se da arte?
AR – É uma utopia pensar-se que em Angola, se pode viver da arte muito menos viver-se da poesia. Eu não conheço nenhum poeta na história universal, que tenho morrido rico em consequência da venda dos seus trabalhos.
MW – Em que momento da sua carreira o seu trabalho começa a ser reconhecido?
AR – A partir do momento que fui convidado para participar em actividades fora do país assim como foi a digressão artística que fiz em Lisboa nas (FNAC), e o convite que tive de ir ao Brasil representar Angola pelo Zumbi dos Palmares isso são sinais de reconhecimento artístico em prol do desenvolvimento da Nação.
MW – Que relações mantém com os poetas e escritores angolanos?
AR – Se quer que lhe diga acho que ainda existe uma grande animosidade entre os escritores da chamada velha guarda em relação aos poetas da nova geração e eu como pertenço “a ponte” acabo por ficar tediado entre um lado e outro tanto que não me perco nem me misturo muito menos me inoportuno.
MW – Na sua opinião quais são as dificuldades para se publicar um livro em Angola?
AR – Em primeiro lugar falta de oportunidade, segundo falta de editoras e terceiro falta de disponibilidade financeira para se o fazer.
MW – Fale-nos da literatura africana contemporânea.
AR – Bem devo confessar que não sou um leitor asserido da literatura africana embora isso possa vir a deixar algumas pessoas chocadas e deixar alguns escritores descontentes mas há grandes “monstros” se assim devo chamar desse ramo tais quais como poetas como: António Jacinto, David Mestre e sem esquecer nunca o poeta maior Agostinho Neto e nunca se pôr de parte o nosso grande Pepetela e falo dos nossos porque ignorância minha talvez não conheço os outros da Africa Lusófona.

MW – Na sua opinião como está a literatura africana de língua portuguesa, em termos de produção?
AR – Eu acho que o antigo está a ser substituído pelo novo, em detrimento da globalização, então na minha opinião e porque se evidência cada vez mais que temos perdido a anuência de falar ler e escrever a Língua Portuguesa tal como deve ser devíamos voltar ao “antigamente”.
MW – Sobre a literatura angolana, que livros recomenda para leitura obrigatória e porquê?
AR – Recomendo aqui e que eu conheço dois grandes livros de Neto:
“Renuncia Impossível” e “Sagrada Esperança” de Agostinho Neto pois são os que conheço e neles me encontro de forma intrinsecamente poética.
MW – Qual a sua relação com a internet? Ela tem contribuído para a difusão da sua poesia? Em que sentido?
AR – Graças ao elemento Google hoje consegue-se fazer qualquer tipo de pesquisa em termos de matérias poéticas e literatura de uma forma geral mas infelizmente devido a degeneração das sociedades, esta geração e o mundo estão de pantanas para o ar e a internet e os seus défices malévolos perverteram a mente e o coração dos seres humanos…
MW – Quais os projectos que pretende realizar?
AR – Eu tenho intenção de fazer algum dia um grande evento na casa 70 onde poderei obviamente convidar vários músicos inclusive os da Lusofonia que participaram no novo álbum a estarmos juntos em palco e fazermos uma fuão acústica linda de música e poesia.
Por outra tenho um livro de poesia pronto para ser lançado só preciso mesmo de um orçamento financeiro para levar á editara. Estou também a escrever agora um romance e estará pronto em breve.
MW – Como poeta e artista, que mensagem deixaria para os jovens angolanos que queiram iniciar-se na vida artística?
AR – Aos jovens da nova geração fica o meu ensejo de que estudem a Língua Portuguesa, emancipem-se para terem conhecimentos precisos sobre a Literatura Angolana, Africana e Lusófona, sejam humildes e acima de tudo não entrem nesse barco com intenção de serem famosos e fazer dinheiro pois no mínimo o que vai acontecer é caírem pelo porão abaixo e vão acabar por desistir mesmo antes de começarem!
Amem a vossa terra Angola e façam menção incessantemente ao resgate de valores cívicos, morais e culturais da vossa sociedade.

Por Domingas Monte

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