O lugar dos ancestrais na cultura Kongo

Em África, a invocação dos espíritos faz parte de um conjunto de crenças ligadas diretamente a um estilo próprio enraizado num profundo comportamento mágico-religioso. O mundo é conectado com o além e vive sempre em sintonia com os seus antepassados através dos espíritos. A sociedade e a religião encontram-se centradas no homem, assegurando o seu bem-estar, tanto físico, psico-mental bem como a sua total proteção.

Os espíritos dos antepassados habitam no mundo invisível, mas os vivos podem contacta-los por meio das invocações que se fazem nos diversos ritos existentes, têm a função de intermediar entre o homem e Deus, único criador, a maior força que há. Os antepassados, mesmo ocupando um lugar de destaque, nunca usurparam o lugar de Deus, pois ele é o maior ser e está acima de todos: Os antepassados estão conscientes disso, que ocupam o segundo lugar como mensageiros de Deus.

Os mensageiros levam consigo as orações, as súplicas e os agradecimentos dos homens e trazem as respostas de Deus. O mundo invisível dos espíritos e dos antepassados nunca esta desatualizado: os vivos podem a qualquer momento entrar em contacto com eles para saberem de alguma coisa, dependendo das circunstâncias e das situações e os mortos através dos seus espíritos podem manifestar-se mesmo sem serem convocados.

Geralmente os espíritos, quando convocados actuam como recetores e transmissores de mensagens por serem superiores ao homem. Eles fazem a ligação ou a ponte entre o homem e Deus, comunicam e transmitem, por isso a sua relação chega a ser vital porque fundamenta-se na participação, já que é preciso incluir a acão dos vivos entre si e com Deus: É assim que Gunther, F.K escreve na sua obra le mariage. Sa fome, son origine o seguinte:

Os mortos são os verdadeiros chefes, guardiães dos costumes; velam pela conduta dos seus descendentes a quem recompensam ou castigam segundo observam ou não os ritos e costumes. A fidelidade às tradições, o respeito pelos anciãos e pelos mortos, o cumprimento das cerimónias estão permanentemente sob o seu controlo…

Regulamentam as relações entre os membros do grupo. Todos reconhecem as suas regras. A conformidade é total e os excessos individuais coarctados. A coesão, a boa ordem, a participação na vida comunitária e nas cerimonias, uma certa igualdade das condições materiais, o respeito mútuo, são assim assegurados sem dificuldade por poderes superiores, sempre atentos, onde a sabedoria expressa a conformidade do homem com a ordem das coisas. (Altuna, Raul, 2006:461).

O Mukongo, ciente da sua cultura e das normas que a regem, sabe perfeitamente que tem que necessariamente respeitar e estar dentro dos das normas costumes comunitários, sob pena de ser castigado por Deus, por via dos seus antepassados a quem legaram toda a sua vivência. Existe uma grande veneração pelos antepassados, entendidos como detentores do poder sagrado (força vital) e um elemento fundamental, pois eles dão muitos benefícios aos vivos, principalmente às pessoas que foram mais próximas a eles tais como: saúde, casamento, filhos, sorte, prosperidade, colheitas, felicidade, harmonia, tranquilidade, paz de espírito e vida longa.

É preciso viver em tranquilidade para poder participar na vida social da comunidade efetivamente e dar um contributo valioso à comunidade, porque a vida gira em torno da solidariedade, o individuo se manifesta dentro do grupo pela assimilação e prática das muitas funções sociais (religiosa, económica, jurídica e política) da vida em comunidade. Sempre acompanhado pelos antepassados, mesmo conhecendo as regras de convívio social:

Todavia são o melhor sustentáculo da ética. Sem o temor das suas represálias, a sociedade cairia com facilidade na decomposição da moralidade e dos valores sociais (Altuna, Raul, 2006:461).

Os maus caminhos podem prejudicar toda a comunidade, se um se desvirtua leva consigo a comunidade (principalmente os grandes representantes da comunidade como sobas e chefes de família). Por isso, os antepassados se mantêm presente para regular o ambiente e os espíritos maus nunca conseguem uma abrangência total, apesar de serem convocados: o bem esta acima de tudo e de todos.

Os espíritos dos antepassados e dos mortos são convocados por rituais. As invocações acontecem mais em situações de crises, onde as forças dos homens se esgotam precisando da intervenção dos antepassados.

O culto dos antepassados decorre logicamente da ontologia bantu. Não é uma superstição, uma idolatria, nem a decisão angustiante de uma mentalidade primitiva. Brota como um ato de fé na sobrevivência da pessoa e no dinamismo vital. (Altuna, Raul, 2006:468).

Normalmente, quando uma pessoa está à beira da morte, sem conseguir um tratamento eficaz convocam-se os espíritos para tentarem de alguma forma entender as causas da doença e encontrar as possíveis soluções para a cura ou os maus espíritos que se apoderaram da pessoa em causa, por um motivo qualquer.

Nas cerimónias rituais para além de outros aspetos importantes, o batuque serve de elo de ligação com o passado por ser um meio de comunicação muito valioso entre os bakongo, bem acompanhado de danças, canções e palmas. As mensagens quer sagradas quer profanas são transmitidas para o além sem nenhum problema. Quando não são convocados e invocados, eles também podem aparecer e sob diversas forma para o protegerem o seu povo.

In («A Canção festiva e funerária em kikongo – Estudo temático», monografia apresentada para a obtenção do grau de licenciatura) Domingas H. Monteiro

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