UMA LEITURA LINGUÍSTICA DO NOME “KIMPA VITA”

Pelo Prof. Dr.º Vatomene KUKANDA. Linguista. 

UIGE, Julho, 2014 

0.- INTRODUÇÃO

0.1. Contexto

Até Julho de 1996, data da realização das Jornadas KiMPA VITA, actividades organizadas conjuntamente pelo Ministério da Cultura e o Centro Internacional das Civilizações Bantu (CICIBA), sob a coordenação do Prof. Doutor Manzambi Vuvu Fernando, o nome de KIMPA VITA era pouco conhecido em Angola. O referido evento, organizado em saudação ao 290º aniversário da morte de KIMPA VITA, tentou, através de diferentes actividades, esclarecer certos aspectos da figura mística dessa heroína e vulgarizar o seu nome.

Quanto a nossa comunicação, não temos a pretensão de fazer uma abordagem exaustiva do tema, mas sim colocar perguntas, abrir brechas e avançar hipóteses que poderão ajudar muitos estudiosos a descobrir a verdade sobre muitos factos que o tempo ou a corrupção humana alterou.

Em outras palavras, tentaremos abordar alguns aspectos de KIMPA VITA no domínio da Onomástica. Trata-se de fazer uma leitura dos elementos que contém o nome de KIMPA VITA e que podem ajudar a um melhor conhecimento da heroína.

0.2. O nome e a sua importância

            O Dicionário da Língua Portuguesa – 2009, da Porto Editora, define a palavra “nome” da seguinte maneira:

  1. palavra com que se designam seres, coisas, qualidades, estados ou acções, designação, denominação;
  2. 2. linhagem, família;
  3. 3. pessoa celebre numa dada época;
  4. 4. fama, reputação;
  5. 5. apelido, alcunha;
  6. 6. poder, influência;
  7. título.

            Qualquer que seja a definição que podemos escolher para a palavra “nome”, é preciso dizer que o nome tem uma grande importância e na nossa sociedade moderna, com o seu forte cunho económico, um homem sem nome é um homem sem valor. Todas as pessoas se identificam com um nome qualquer. Mesmo a Bíblia destaca o valor do nome:

            “Um nome é melhor do que bom óleo…” (Eclesiastes 7:1);

            “Deve-se escolher antes um nome do que riquezas abundantes…” (Pró. 22:1)

            Resumindo, podemos dizer que os nomes se utilizam para identificar pessoas. Os onomatólogos descobriram que o estudo dos nomes, de um determinado povo, revela um conhecimento acerca do mesmo, que outras ciências não podem revelar. Os linguistas descobriram muito a partir do estudo dos nomes. Os antropólogos deduziram uma valiosa informação sobre a cultura dos povos cujos nomes foram estudados. Os nomes são um instrumento tão importante para o conhecimento dos hábitos e costumes de um povo, suas esperanças e aspirações.

            A importância do nome é tal que muitos africanos crêem que o nome que uma pessoa leva, é por vezes, a chave para a compreensão do seu carácter e do seu comportamento. Isto é particularmente verdadeiro para as alcunhas e os nomes de glorificação.

            Por isso, não há ninguém que seja indiferente ao nome a que responde. As pessoas são muito sensíveis, quando os seus nomes são mal escritos ou mal pronunciados. Uma pessoa cujo nome é esquecido por um amigo, sente-se lesada e apresenta uma certa forma de ressentimento. Da mesma forma, sentimo-nos adulados, quando um amigo põe o nosso nome a um filho seu. Em África, uma forma especial de relação cresce entre a criança e a pessoa cujo nome herda.

0.3. Os nomes e a reconstrução da história

            Os nomes podem constituir uma grande ajuda para a reconstrução da história de um determinado povo ou para a procura da origem de um indivíduo. Por exemplo, para o homem negro deportado para as Américas, o conhecimento dos nomes africanos é de um valor inestimável. Um estudo detalhado daquela parte do seu nome que não se perdeu sob a experiência traumática da escravatura, podia dar indicações sobre a parte da África donde provém. Foi através do estudo assim que o escritor negro-americano, Alex Harley, descobriu a origem dos seus antepassados e publicou os resultados das suas investigações num livro intitulado “ROOTS” (Raízes) que foi levado à tela sob o título “KUNTA KINTE”. (De acordo com as buscas de Harley, Kunta Kinte tinha 17 anos quando foi capturado e levado no barco negreiro “Lord Liginier”, em 1767, para América. “Roots” (Raízes) descreve a vida de Kinte e dos seus descendentes cujo Harley é um deles. Do livro foi tirada uma mini-série televisiva que foi visionada em muitos países).

            O outro exemplo é o dos Gikuyu. Através dos nomes dados aos seus filhos e suas filhas, os Gikuyu da África oriental conseguiram recordar a sua história e os acontecimentos do seu passado durante séculos.

I.- A ANTROPONIMIA – ALGUNS TRAÇOS

1.1. O conteúdo dos dados onomásticos

Em geral, os dados onomásticos (nomes: antropónimos, topónimos, zoonimos, etc.) têm sempre uma história. É por isso que os dados onomásticos fazem compreender, além do sentido literal, os acontecimentos e as atitudes que justificam a sua escolha e os seus usos, assim como aquilo que está subentendido. Portanto, sendo elementos da realidade histórica e social, a eficiência dum estudo minucioso de antropónimos e outros é de chegar a confrontar as pessoas, etc. em questão com a referida realidade.

Os dados onomásticos em geral, antropónimos em particular contêm informações sobre as actividades humanas, a natureza do meio ambiente físico, alguns aspectos da visão do mundo, a história, etc.

Portanto, os nomes são antes de tudo uma realidade linguística visto que trata-se de mensagens verbais cujos signos são os da língua quotidiana. Mas são também uma realidade etnológica e psicossocial. Etnológica porque são o lugar da expressão cultural, na sua génese e no seu conteúdo. É psicossocial por que dizem, e pelo facto mesmo, afirmam e reforçam a rede das relações na qual o indivíduo ou então a comunidade se define socialmente.

Quanto à antroponímia como uma parte da onomástica (parte da linguístico que estuda os nomes), ela obedece a certas regras que variam de um grupo ao outro.

1.1. Nos bantu

No caso dos Bantu em geral, a criança recebe principalmente dois nomes. Se o primeiro esta ligado as circunstâncias que acompanham o nascimento, o segundo é o que a criança leva quando se torna adulto. E isto, muitas vezes, depois de ter passado pelos ritos de iniciação que fazem do rapaz um homem e da rapariga uma mulher.

Se o primeiro e conhecido de todos, o segundo fica muitas vezes secreto e limita-se só aos iniciados da mesma promoção. Em muitos casos, o facto de conhecer o segundo nome duma pessoa cria logo uma aproximação com ela.

Nos Bantu, a importância do estudo dos antropónimos verifica-se pelo facto que é sempre possível recolher dados históricos, sociológicos e outros dum determinado grupo.

1.2. O caso dos bakongo

            Em geral, a situação nos bakongo, não difere da dos outros grupos bantu. Apesar dos diferentes tipos de “zina” existentes (zina di nsansila, zina di lubutuku, zina di ntombola), os dois momentos essenciais na “aplicação” do nome são:

            – 1º momento: o nome dado após concertação e deliberação dos velhos da família, bem que o bebe tenha um nome provisório, “aplicado” pelos presentes ao nascer, de acordo com certos signos ou eventos observados naquele momento;

            – 2º momento: o nome que a criança recebe quando se torna adulto. A esse pode ser acrescentado um outro ligado seja à iniciação seja à pertença a uma sociedade secreta.

Quanto à imposição do nome nos bakongos, J. Van Wing, S.J escreve, no seu livro « Études Bakongo, Sociologie – Religion et Magie » o seguinte: « Un nouveau-né n’est pas un «muana», un enfant ; il n’est encore qu’un « Kimpiatu ». Il lui manque un nom pour être un muana complet. Kimpiatu signifie chenille ou chrysalide. Cependant les sages-femmes ont soin de donner au bébé un nom provisoire, en rapport avec certains signes, qu’elles observent à la naissance même ». (page 220). 

Théophile OBENGA escreve, no seu artigo intitulado « Naissance et Puberté en Pays Kongo au XVIIè siècle » (in Cahiers Congolais d’Anthropologie et d’Histoire – page 21) o seguinte: « Le moment de l’imposition du nom (zina) à l’enfant est également un grand moment. Le nganga assiste à la cérémonie qu’il préside tout naturellement. Le nom que reçoit l’enfant fait de lui un homme (muntu), car le nom est l’une des parties intégrantes de l’être humain qui ne meurt pas : zina ka di fwa ko. Le nom est une structure transcendantale par rapport à celui qui le porte, par rapport au clan aussi ; c’est une catégorie sociale qui vient de loin, des ancêtres du commencement, créateurs des premiers éléments de la culture ethnique, nationale. Ainsi les ancêtres revivent dans le nom porté par l’enfant. Le nom amène avec lui vertu, santé, force, prospérité, bonheur. Dans sa dimension historique et ontologique, le nom rassemble pour ainsi dire l’ancien et le nouveau, toutes les générations ayant habité et exploité le territoire clanique, les terres familiales. Le nom est un trait d’union, à travers le temps et l’espace, des générations lignagères successives. Donner le nom d’un ancêtre à un enfant qui vient de naître, c’est nécessairement actualiser l’histoire de la communauté villageoise à travers l’histoire des clans et lignages singuliers. Il n’est donc pas question de porter purement et simplement le nom d’un ancêtre, mais il s’agit fondamentalement de faire naître une continuité, de perpétuer les vertus des ancêtres, leur sang, leur génie. Le port d’un nom s’assume en Afrique noire profonde. Cela relève d’une haute éthique et non d’un rite quelconque. L’appartenance à un lignage, a un clan se conçoit, pour être valable et totale, au double plan du sang (biologique) et du nom (culture), surtout du nom, qui seul fait de l’enfant un homme du lignage, une figure clanique. »

 Como já referimos, no caso dos Bakongo em geral, a criança recebe dois nomes. Se o primeiro esta ligado as circunstâncias que acompanham o nascimento e a concertação dos mais velhos, o segundo é o que a criança leva quando se torna adulto. E isto, muitas vezes, depois de ter passado pelos ritos de iniciação que faziam do rapaz um homem e da rapariga uma mulher.

            Se a primeira é conhecido de todos, o segundo fica muitas vezes secreto e limita-se só aos iniciados da mesma promoção. Em muitos casos, o facto de conhecer o segundo nome duma pessoa cria uma aproximação com ela.

  1. ESTUDO DE UM NOME

O estudo tem três etapas essenciais que se resumem em:

                                    – Analise linguística;

                                    – Interpretação sociocultural dos dados;

– Confrontação do resultado da interpretação sociocultural

dos dados com as outras disciplinas

2.1. Análise linguística

Com já referido, o nome ou qualquer palavra é antes de tudo uma realidade linguística visto que trata-se de mensagem verbal cujos signos são os da língua quotidiana. Sendo assim, a análise linguística far-se-á a dois níveis:

– a nível interna (análise interna);

– a nível externa (análise externa).

2.1.1. Análise interna

A análise interna tem duas partes:

– Na primeira trata-se principalmente de examinar os sentidos que são dados ao tal nome como um tudo nos dicionários, enciclopédias ou pelos utentes numa situação sincrónica;

– A secunda parte da análise interna consiste em procurar o sentido que dão ao mesmo nome o conjunto das suas componentes (os diferentes elementos que o compõem). Esse trabalho pode levar o investigador aos sentidos primários ou escondidos do nome em estudo. A morfofonologia é duma grande ajuda. Esta ultima da a verdadeira natureza dos elementos que compõem um nome ou uma palavra mesmo quando esses não aparecem ao nível da fala. Depois de reconstruir os elementos componentes do nome ou da palavra, é preciso dar a cada um deles a definição que merece dentro da língua.

            Para esta parte, o investigador deve trabalhar com pessoas que dominam bem a língua para poder interpretar os sentidos dos elementos principais: – do classificativo (este tem um sentido particular em certas utilizações?) – e sobretudo do tema substantival (é necessário procurar saber se se trata dum denominativo ou dum deverbativo).

  • Análise externa

Esse nível leva o investigador a procurar os sentidos que toma o mesmo nome como sintagma. Em outras palavras, a análise externa examina os diferentes sentidos que toma o tal nome nas suas relações sintagmáticas.

– Ajuda das línguas vizinhas

A etapa da análise linguística, sendo um trabalho complexo, recorrer as línguas vizinhas pode ser uma das soluções, se não se conseguir destacar o verdadeiro sentido do tal tema substantival, para saber se houve um fenómeno de retenção, perda ou acréscimo do sentido original. Se se tratar duma língua bantu o passo será duplo na medida em que esta operação de busca poderá se fazer no interior da zona da língua em questão e fora desta. Este passo é necessário para chegar aos sentidos escondidos ou deformados pelas vicissitudes do tempo e sobretudo aos resultandos do encontro com a civilização europeia (neste encontro entre a África e a Europa, muitas realidades africanas foram deformadas pelos europeus e devolvidas aos africanos).

2.2. Interpretação sociocultural dos dados

            O nome é também uma realidade etnológica porque é o lugar da expressão cultural, na sua génese e no seu conteúdo. É psicossocial por que diz, e pelo facto mesmo, afirma e reforça a rede das relações na qual o indivíduo ou então a comunidade se define socialmente.

            O nome, sendo o deposito de muitas informações sobre as actividades humanas, a natureza do meio social e do meio ambiente físico, alguns aspectos da visão do mundo, a historia, a arte, etc., é dele que é preciso subtrair todas essas informações partindo da analise linguística.

            Nesta etapa, o conhecimento profundo da sociedade falante da língua que produziu o tal nome é mais que indispensável. Aconselha-se utilizar informadores idosos e conhecedores dos rodados da tal sociedade.

2.3. Confrontação do resultado da interpretação sociocultural dos dados

            Confrontação do resultado da interpretação cultural dos dados com as outras disciplinas (historia, arqueologia, antropologia, etc.) para chegar a uma leitura actualizada dos factos contidos no tal nome.

            A leitura pode ser dupla:

  • uma leitura sincrónica (ela é feita tendo em conta as condições da época do acontecimento) ;
  • uma leitura diacrónica (ela é feita tendo em conta e tempo que já passou desde o acontecimento até ao momento da análise).

2.4.Conclusões

            As conclusões a tirar no fim do estudo podem ir ao encontro da hipótese de partida ou ser completamente contrárias a esta. Bem tiradas, elas podem aclarar uma parcela da vida ou da história da sociedade falante a língua que produziu o nome analisado.

III. UMA LEITURA LINGUISTICA DE KIMPA VITA

            3.1 Composição

         A/- Esse nome contém dois componentes :

– Um substantivo KIMPA

                               e

– Uma forma conectiva abreviada VITA.

O substantivo KIMPA é da quarta (4°) classe em kikongo e está constituído de Ki- e de -MPA que significa «cena, jogo, estratégia, »

A forma conectiva completa seria KYAVITA, quer dizer do acordo relativo de KIMPA que é Ki-, da partícula conectiva -A- e do substantivo VITA «luta, guerra».

Portanto, a forma não abreviada desse nome seria KIMPA KYAVITA, «cena, jogo, estratégia de guerra ou de luta».

Pelo fenómeno fonético que afecta, muitas vezes, as formas conectivas, chega-se à forma KIMPA VITA que seria o resultado do seguinte processo:

                            KIMPA                KYAVITA

                            KIMPA                     AVITA

                            KIMPAA                    VITA

                            KIMPA                       VITA

B/- E também possível que os dois componentes sejam um substantivo e uma forma verbal constituídos respectivamente de KIMPA e de KYAVITA «cena, jogo que precede ou precedente».

Todavia, os acordos verbais sendo raramente afectados pelo fenómeno fonético que influencia as formas relativas, seria quase impossível com a forma verbal KYAVITA chegar até VITA.

Falando de forma verbal, VITA pode ser o imperativo de -Vit- «preceder». Assim, o conjunto KIMPA VITA teria um substantivo e o imperativo do verbo -Vit- e significaria «KIMPA PRECEDA» ou «CENA, JOGO ou ESTRATÉGIA PRECEDA».

3.2. As formas desse nome

O referido nome foi adaptado nas diferentes variantes do kikongo mesmo se a forma original esteja mais próxima da variante falada em Mbanza-Kongo. Contudo, duas formas são mais conhecidas até ao momento:

KIMPA VITA para as variantes do kikongo da província do Baixo- Congo (Republica Democrática do Congo)) e para aquelas das províncias do norte de Angola.

TCHIMPA VITA para as variantes do kikongo da Republica do Congo e outras que têm, para a quarta classe, o classificativo TCHI- (CI-)no lugar de KI-.

Portanto, KIMPA VITA ou TCHIMPA VITA designam uma única e mesma realidade, o nome da heroína da resistência cultural.

No entanto, duas outras formas aparecem em duas comunidades religiosas. Bem que a sua utilização seja limitada, tentaremos dar a nossa apreciação dessas formes.

Trata-se de:

NSIMBA KIMPA VITA

É utilizada pela comunidade Kimbanguista (como Batsikama). Segundo a explicação apresentada, a heroína seria uma gémea. Isto justificaria o nome de NSIMBA.

Os Bakongo dão aos gémeos os nomes de NSIMBA e NZUZI.

NSIMBA KIMPA VITA dos Kimbanguistas, não seria o resultado da deturpação da forma TCHIMPA KIMPA VITA que integra as duas variantes do mesmo nome? TCHIMPA não foi interpretado como NSIMBA? Contudo, a bibliografia existente não assinala esse pormenor. Nem o padre capuchinho Bernardo de GALLO que presenciou os factos ligados a KIMPA VITA se refere a essa particularidade. É provável que esse dado venha directamente da tradição oral que é preciso utilizar com muito cuidado.

– KIMPA VITA ESIPA

Não chegamos a receber uma explicação de ESIPA se bem que a comunidade MPADISTA tivesse dado certos pormenores ligados à vida da heroína:

«Os dados aqui apresentados são provavelmente tirados da tradição oral cuja verificação ainda não esta feita. Trata-se de:

Nome                                                                              Clã (LUVILA)

do pai =       NDO PETELO NTONI                          TITI KYA MPANZU

da mãe =     MALENGE MANLAZA                          KINLAZA

do marido = NTONI NZAVUNI                           KINGWANI NAKONGO

do filho =     NKEMBO DIA

                   BANZENZA

                   VAKINTETE

da aldeia = MBANZA KILOMBA TUUKU»

3.3. O nome de KIMPA VITA como um conjunto de dois componentes

Os componentes que constituem esse nome são presentes em muitas partes da zona kongo como antropónimos.

KIMPA pode aparecer como antropónimo e estar ligado a um contexto bem determinado (Kimpa é um dos nomes utilizados no Kimpasi).

VITA também é atestado como antropónimo para os que nascem em período de guerra ou de luta. 

Como reflexo do Protobantu, algumas línguas de Angola têm esse nome com o mesmo significado:

Ex.: Kimbundu         =   ita

Umbundu          =   ovita

Cokwe                =

Olunyaneka       =   ovita

3.4. KIMPA VITA COMO UM TUDO

Partindo dos resultados das nossas pesquisas, podemos, com toda modéstia, concluir que esse antropónimo foi utilizado provavelmente uma única vez e em circunstâncias bem determinadas que focaremos.

A mística ligada a esse nome talvez não permitiu aos Bakongo, que gostam perpetuar a memória das pessoas queridas, de utiliza-lo normalmente.

Em todo espaço kongo, não encontramos alguém, à excepção da heroína, que se chamaria KIMPA VITA.

Todavia, um facto chamou a nossa atenção. E o nome que traz um colégio feminino de Brazzaville, «Colégio Técnico TCHIMPA VITA».

3.5. ANALISE SINCRONICA DE KIMPA VITA

Uma analise feita tendo em conta as condições da época (analise sincrónica) nos leva a quatro hipóteses principais:

A primeira: tratar-se-ia portanto dum nome que a rapariga recebeu ao nascer, tendo em conta as circunstâncias de guerra, luta e caos generalizado que abalaram o Reino do Kongo após a terrível derrota de Ambwila em 1665.

A segunda poderia privilegiar o meio espiritual onde ela viveu antes de se tornar profetisa. Trata-se do culto de «MARINDA». Ela pode ter recebido esse nome neste meio por se ter sido destacada muito cedo. Pois certas fontes dizem que ela entrava, muitas vezes, em transes.

A terceira estaria ligada ao enquadramento que ela teve duma velha chamada MAFUTA que teria preparado o início das actividades da profetisa. Sendo uma sobrevivente de Ambwila, teria ela dado o nome de KIMPA VITA a antiga sacerdotisa do culto de «MARINDA»?

A quarta daria como explicação o ritual da iniciação de KIMPASI. Parece que KIMPA é um dos nomes muito utilizados na referida iniciação. Se for assim, KIMPA VITA teria uma explicação secundaria secreta que não seria a soma dos significados de KIMPA e de VITA em primeiro grau, tendo em conta não só a riqueza da expressão mas também a mística e o esoterismo que predominam no KIMPASI.

3.6. ANALISE DIACRÓNICA 

Se, a partir do século XV, as relações estabelecidas entre a Europa e a África em geral e a África Central em particular foram difíceis no plano económico, social e sobretudo humano, elas foram ainda mais complexas no plano religioso. E o caso de KIMPA VITA enquadra-se nesse ultimo plano.

Bem analisado hoje, ele foi um caso de intolerância religiosa e através do nome de “DONA BEATRIZ” (para a mesma heroína) transparece uma opressão antroponímica que já não tem razão de ser.

A Declaração Universal dos Direitos Linguísticos diz, no que toca a onomástica, o seguinte:

 Artigo 31: “Todas as comunidades linguísticas têm direito a preservar e usar em todos os domínios e ocasiões o seu sistema onomástico”.

            Artigo 34: “Todos têm direito ao uso do seu antropónimo na sua própria língua e em todos os domínios de utilização, bem como a uma transcrição fonética para outro sistema gráfico, quando necessário, tão fiel quanto possível.”

            A onomástica é um meio poderoso para a preservação da história, cultura, visão do mundo, etc. de uma comunidade. No caso da Universidade “KIMPA VITA”, qualquer pessoa, que fica confrontada com esse nome, procura saber quem era essa ilustra pessoa para que o seu nome seja posto a uma Instituição de Ensino Superior. Na sua procura de explicação sobre “KIMPA VITA”, ela será mergulhada na história do Antigo Reino do Kongo. E, dai com todo o ambiente que reinava na altura.

BIBLIOGRAFIA

BABA KAKE, I, Dona Béatrice, la Jeanne d’Arc Congolaise.Paris – 1976.

– BALANDIER, G, La vice quotidienne au royaume de Kongo du XVIè au XVIIIè siècle. Hachette – Paris 1965.

– BATSIKAMA, R, Ndona Béatrice, serait-elle témoin du Christ et de la foi du vieux Congo. Kinshasa – Ed. du Mwanza – 1970

– DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGUISTICOS, Barcelona, Junho 1996

– DICIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA, Porto Editora, Porto, 2009.

 

– FONSECA, A, Sobre os Kikongo de Angola – Ediçoês 70 U. E. A – Lisboa, 1985.

LAMAN, K., E, Dictionnaire Kikongo – Français, The Gregg Press Incorporated,New Jersey,1964.(republished)

– NGOIE-NGALA, D,- L’expansion bantu à la lumière de l’Onomastique (dans : les peuples bantu, migrations, expansion et identité culturelle) Tome II page 301 à 316. L’Harmattan – Paris 1989.

– La structure spatio-temporelle chez les Kongo (Communication présentée à la Table-Ronde Kongo-Téké Luanda 1989).

– Instituto de Linguas Nacionais.

– Lexicos tematicos – Luanda, 1986

– Esboço fonologico – Alfabeto Kikongo, Kimbundu, Cokwe, Umbundu,

Mbumala, Oxikwanyama – Luanda, 1986. 

– OBENGA, T, Les Bantu Présence Africaine – Paris 1985

– Naissance et Puberté en Pays Kongo au XVIIº siecle – Cahiers

Congolais d’Anthropologie et d’Histoire, Brazzaville, 1984.

– RONDIES, W. G. L, L’Ancien Royaume du Congo des origines à la fin XIXè

siècle. Ed. Mouton – Paris 1968.

– VAN WING, J., S.J. , Études Bakongo – Sociologie – Religion et Magie,

Desclée De Brouwer, Bruxelles, 1959.

 

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