O CAÇADOR E O CROCODILO

CONTO TRADICIONAL DA GUINÉ-BISSAU

Um caçador foi à caça e encontrou um crocodilo que também estava à espera de uma vítima. O caçador quis matá-lo, porém o crocodilo suplicou-lhe para não lhe tirar a vida, dizendo:
-Vim cá simplesmente à procura de qualquer coisa para matar a fome. Não encontro o caminho de regresso. Leva-me, por favor até à margem do rio.
Respondeu-lhe o caçador:
-Eu bem que te queria levar, mas tenho medo que me comas.
O crocodilo jurou que não havia de o comer. Propôs-lhe então o caçador:
-Só te levo se te amarrar a boca.
– Amarra-me a boca – atalhou o crocodilo.
O caçador amarrou-lhe a boca com uma corda, em seguida ligou-lhe todo o corpo a um pau e levou-o às costas até às margens do rio. Chegados ao destino, o caçador quis pô -Io no chão; o crocodilo pediu-lhe:
-Leva-me para mais longe.
O caçador entrou na água até aos joelhos. Suplicou-lhe o crocodilo de novo:
-Leva-me ainda um pouco mais longe.
O caçador aceitou. Disse-lhe então o crocodilo:
-Desamarra-me a boca, caso contrário não poderei comer.
Assim que o caçador lhe desamarrou a boca, o crocodilo disse-lhe:
-Prestaste-me, é certo, um serviço; mas agora tenho de te comer, única e exclusivamente para respeitar a nossa tradição: os meus pais, os avós, comiam todos os homens quantos encontravam no caminho.
Foi a vez do caçador pedir com insistência para não ser comido. O crocodilo rejeitou categoricamente tal pedido. O caçador fez-lhe então a seguinte proposta:
– Estou inteiramente de acordo que me comas, mas proponho que previamente peçamos o parecer de três transeuntes.
Um cavalo velho foi o primeiro a passar por lá. Cada um lhe contou a sua aventura a seu modo. Escutou com muita atenção as duas versões, depois dirigiu-se ao crocodilo:
– Come-o, como é vosso hábito. O homem é muito ingrato; quando eu era novo, com todo o vigor, cuidava bem de mim. Agora faz de conta que não me conhece.
Apareceu depois uma velha. Ela ouviu as duas versões da mesma aventura e disse logo ao crocodilo:
– Come-o, os homens são todos ingratos Quando jovem e bela, o meu marido jurou-me que só haveria de me amar a mim. Agora casou com raparigas novas, e nem sequer olha para mim. Come-o, segundo as vossas tradições.
O caçador estava desesperado, não vislumbrando nenhuma solução favorável à sua situação. Chegou a lebre. Cada um lhe expôs a aventura a seu modo.
– Estais muito longe, disse-lhes a lebre; já estou velha e oiço muito mal. Vinde, pois aqui à margem, para que vos oiça melhor.
Ambos saíram da água e chegaram perto da lebre, a quem contaram de novo tudo. Disse-lhes a lebre: Custa-me a acreditar. Como é que este homenzinho pode carregar com um gigante como tu? Para dar o meu parecer, é preciso eu ver com os meus olhos tudo quanto estais a contar-me. Portanto, regressai à floresta. Que o caçador te amarre de novo e te traga até aqui.
O crocodilo e o caçador aceitaram. Quando chegaram à floresta, a lebre disse ao caçador para amarrar melhor o crocodilo e perguntou-lhe:
– A vossa casta não come crocodilo?
O caçador respondeu:
– Claro que comemos.
A lebre disse-lhe:
– Salvaste-lhe a vida e ele quis comer-te; agora leva-o par casa e comei-o em família, tu, a tua mulher e os teus filhos.

(TEXTO ADAPTADO DE O CRIOULO DA GUINÉ-BISSAU)

Enviado pelo leitor Kanyohã Ndungue Kalungulungu

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