ENTREVISTA AO DOUTOR PETELO NGINAMAU FIDEL NE-TAVA

É preciso que haja raízes, e raízes firmes. O conhecimento desses elementos, a vivência com base em algumas raízes, faz com que o cidadão se torne forte e firme, apesar das mudanças ocasionadas pela globalização. Vai haver essa abertura, porque com o tempo a mudança é praticamente inevitável, mas não deve haver mudança só por mudança: é preciso mudança pelo facto da abertura, mas essa abertura não deve subentender a negação total daquilo que carateriza os valores profundos de um povo, a partir da sua tradição.

Nota Biográfica

Petelo Nginamau Ne-Tava nasceu a 05 de Agosto de 1952. É licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Lubumbashi, República Democrática do Congo. Pós-graduado em Estudos Italianos pela Universidade de Perugia (Itália). Doutorado em Literatura pela Universidade de Lubumbashi. Foi docente e director-adjunto da cooperação, acessor científico do reitor e secretário do Conselho da Universidade de Lubumbashi. Leccionou na Universidade de Kinshasa de 1992 a 2003. Actualmente é Docente Investigador e Vice-Decano para os Assuntos Científicos da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. 

ENTREVISTA

MW – A Literatura oral é o reservatório dos valores culturais de qualquer sociedade. Gostávamos que o Drº. fizesse uma breve abordagem sobre a literatura angolana.

PNF –  Falando de literatura angolana, pode encarar-se duas vertentes: A vertente da literatura escrita, nesse caso em língua portuguesa e também em línguas nacionais, depois temos a vertente das literaturas herdadas da tradição oral, africana de maneira geral e angolana de maneira particular. Aquilo que pode interessar-nos mais deve ser a vertente da oralidade. Dizer que os povos que praticaram e viveram na oralidade, por não terem praticado a escrita, transmitiram de geração em geração os seus ganhos culturais, a sua experiência social, cultural e porque não política e filosófica, e as gerações mais jovens e vindouras acabam por receber como herança a riqueza desse acervo cultural, comum a toda uma comunidade. E então, cabe aos que recebem tal herança de procurar preservá-la e ver em que medida pode ajudar para viver melhor do que as gerações anteriores.

MW – Em termos estéticos, qual é a caraterização que se pode fazer dos textos das literaturas orais africanas?

PNF – Como literatura, que seja oral ou escrita, daqui ou de outros horizontes, há alguns traços característicos que se podem encontrar em literaturas de diferentes horizontes espaciais ou culturais e também de qualquer período histórico. Haveria assim, por exemplo, a utilização de recursos que podem definir uma forma que merece o nome de literatura, e são figuras praticamente universais, porque, por exemplo, mesmo que os nossos ancestrais não tenham deixado tratados, ensaios escritos sobre os recursos por eles utilizados nas narrações, canções, etc, todavia existem características gerais e universais tais como algumas figuras, como a repetição, a assonância, o paralelismo, temos alguns outros arranjos na estruturação que sejam capazes de mostrar uma intenção e uma performance de natureza artística, e isso encontra-se em textos escritos como também em textos orais do mundo inteiro.

E assim, a tradição oral angolana não foge à regra: é isso mesmo que faz que, ao averiguar as coisas de perto, em termos de explicação, de análise, verifica-se que há realmente uso de recursos, que fazem com que se criem efeitos de prazer, de emoção, de surpresa, que a literatura, nesse caso, tem como carácter lúdico. A gente pode, com prazer, descobrir alguns desses recursos que fazem então a performance a nível da dimensão estética.

MW – Estamos a viver num mundo chamado “global”, em que nós absorvemos hábitos e costumes de outras paragens, de outras culturas. Qual é a importância da divulgação da tradição oral a nível das famílias, e mesmo a nível da sociedade angolana?  

PNF – É uma pergunta muito importante, pela sua pertinência. É verdade, vivemos na época da globalização. Claro, essa globalização não começou hoje no século XXI: é um processo longo que começou há séculos atrás, mas que se vivia a um ritmo lento. Com o surgimento da era industrial, particularmente com o século XX, assiste-se a um encurtamento cada vez mais grande das distâncias no espaço e até mesmo pode-se dizer no tempo (o presente em relação ao passado). Isso faz com que a informação e o conhecimento se divulguem com muita rapidez; isso faz com que a alteração dos hábitos seja inevitável, porque os povos entram em contacto uns com os outros e há sempre mudanças devido a aproximação. Até aqui, tudo parece bom e justo. Só que o problema é grave no que diz respeito à sobrevivência das nossas culturas, e por conseguinte de nós próprios. Pelo facto de que, não se trata só de globalização, mas de efeitos perversos de assimilação, a nossa sociedade foi sujeita a um alto nível de assimilação.

É um projeto que foi implementado propositadamente pelo sistema colonial, nesse caso o sistema colonial português, que quis reduzir, senão aniquilar as culturas africanas. E esse projeto teve altos níveis de êxitos, se assim posso dizer, êxitos com certeza muitos maiores e firmes, muito mais fortes em relação com aquilo que os outros colonizadores conseguiram fazer. A colonização portuguesa chegou mesmo a destruir, de maneira muito mais visível, parte essencial daquilo que são as culturas africanas tradicionais.

Com essa vigência dessa realidade, mais trágica do que em outros horizontes geográficos, torna-se imprescindível fornecer um grande esforço no sentido de as entidades a vários níveis façam o máximo possível para tornar viável esse projeto de incutir nos cidadãos a partir das famílias, da sociedade global, mesmo nas ruas, a partir das organizações, das entidades, das escolas, tornar possível a exigência de os cidadãos conhecerem e interiorizarem em si próprios as realidades culturais que podem fazer a identidade cultural de um povo.

É preciso que haja raízes, e raízes firmes. O conhecimento desses elementos, a vivência com base em algumas raízes, faz com que o cidadão torna-se forte e firme, apesar das mudanças ocasionadas pela globalização, vai haver essa abertura, porque, com o tempo, a mudança é praticamente inevitável, mas não deve haver mudança só por mudança. É preciso mudança pelo facto da abertura, mas essa abertura não deve subentender a negação total daquilo que carateriza os valores profundos de um povo, a partir da sua tradição.

Torna-se imprescindível, que as entidades, a nível das organizações, das igrejas, ao nível dos indivíduos, para que os jovens a partir da idade de criança, já conheçam os valores e aprendam a gostar desses valores e façam esforço para interiorizá-los, de modos que mesmo que haja as alterações devido à globalização, permaneça alguma coisa, um fundo que ajuda o cidadão a viver de uma maneira mais equilibrada, um indivíduo que seja capaz de fazer discernimento entre o bem e o mal da novidade, entre o bem e o mal da tradição cultural, e assim pode melhor escolher o que fazer e reter da mudança, o que fazer e reter da tradição cultural, e assim criar um equilíbrio peculiar.

MW – Dr.º, na sua opinião, o que se deve fazer para que a juventude se interesse mais pela cultura e tradição angolanas?

PNF – A cultura e tradição angolanas não deve ficar só no ar ou nas bocas, é preciso que se faça alguma coisa a nível das instituições, para fazer conhecer essa tal tradição, essa tal cultura, não só nas suas formas mais visíveis e frequentes, que às vezes são talvez ligeiras, por exemplo em situações particulares como alguma dança, alguma escultura de madeira, são formas de cultura é verdade, mas, muitas vezes, para cidadãos que nasceram nas grandes cidades: é só mesmo como um passatempo, para dizer “temos uma cultura, somos angolanos, já fomos ver lá no teatro x, no cinema x alguma dança cokwe, alguma dança dos bakongo, então conhecemos a tradição oral”. Isso é uma tendência para instituir-se em conhecimento puramente folclórico, sem alguma incidência real na vivência cultural e mesmo social dos nossos concidadãos.

É preciso valorizar para divulgar alguns outros elementos que são menos visíveis, como a tradição literária que é um elemento da oralidade, teríamos de envidar esforços no sentido de dar a conhecer elementos da literatura e tradição que são portadores dessa cultura. Temos, por exemplo, os contos, os provérbios, as adivinhas, as canções, os mitos, as lendas, as epopeias: tudo aquilo é portador de todo um mundo, de uma visão do mundo, e faz isso a nossa especificidade, porque vê-se ai alguns valores tais como: a tolerância, o respeito do outro, particularmente o respeito da vida, que acaba por traduzir-se também em respeito dos princípios, em respeito dos mais velhos, os mais velhos sendo como sinónimo de modelo, do exemplo a seguir, da sabedoria, etc, então pessoas que tiveram de interiorizar esses valores, seriam pessoas que conseguem e conseguiriam viver numa harmonia consigo próprio, com os outros e com a sociedade de maneira geral e porque não com o próprio Deus através de uma ligação com os ancestrais que fazem o elo entre o mundo dos vivos e o mundo dos espíritos, o mundo dos mortos.

Pode fazer-se um esforço a nível do ministério da Educação, do ministério da Cultura e do ministério do Ensino Superior, para poder divulgar melhor o conhecimento dessa tradição oral, fazer estudos sobre esse património textual da oralidade e divulgar esses valores junto das crianças, junto da juventude, juntos dos adultos. É uma coisa que se pode fazer, organizar, conceber de maneira coerente: ai haveria mesmo um ganho no sentido de fortalecer os valores.

MW – Dr.º, em termos de desenvolvimento cultural, podemos afirmar que as sociedades de tradição oral conheceram a civilização tardiamente?

PNF – Não concebeu tardiamente. Na verdade, cada povo é povo e desde que o homem é homem sempre teve uma cultura, sempre desenvolveu a sua vivência, e então qualquer que seja a época histórica, qualquer que seja o horizonte geográfico, essa vivência acaba por criar uma cultura. Então, a cultura de cada povo remonta a tempos imemoriais, mas pode evoluir com base na a dinâmica interna, como também com base nos contactos com povos vizinhos ou mesmo que vêem de longe. Ai não pode haver um atraso, isto é cada povo organiza essa cultura segundo as suas exigências, segundo as suas realidades e acaba modificando-as com base nos tempos, nas exigências, etc. etc.

MW – Dr.º, como Vice-Decano da Faculdade de Letras para os assuntos científicos, e como a Faculdade de Letras foi a primeira instituição a nível superior a introduzir no seu currículo o curso de “Línguas e Literaturas Africanas” e consequente inserção das línguas nacionais no sistema se ensino, gostaríamos de saber como tem sido a divulgação dessas literaturas e se há uma política de orientação aos estudantes que terminam o curso.

PNF –  Ao nível do conhecimento, os estudantes têm uma cadeira de “literatura angolana”, e normalmente o professor começa por fazer uma incursão na oratura, porque a literatura angolana não deve ser só concebida como literatura angolana escrita em português, mas deve ver-se também antes da parte escrita em língua portuguesa: temos a parte da oratura, isso ao nível das cadeiras.

Na antiga Faculdade de Letras e Ciências Sociais, os vários cursos de línguas e literaturas, a saber: africanas, portuguesa, inglesa, francesa, tinham uma cadeira de “literaturas orais africanas”. De momento, essa cadeira só ficou no departamento de “Literaturas africanas” e, com essa cadeira, os estudantes já têm uma noção, no geral, é verdade, daquilo que são as literaturas orais em África, e particularmente em Angola, abordando alguns aspectos genéricos que caraterizam essas literaturas orais no nosso país. Ao nível do 3º ano, existe a cadeira “Estudo aprofundado de um género da literatura oral”: aí depende do professor, segundo a preferência que tem em relação a um ou outro género. Se for assim, e isso é bom também, haveria a possibilidade de a cadeira ser leccionada por vários docentes, cada um leccionando matéria sobre um género no qual desenvolve pesquisas em termos de interesse e de publicação, assim, seria mais completa.

Há também a cadeira “Análise de obras das literaturas em línguas nacionais”. É verdade que, de momento, não há uma produção conhecida de obras, como por exemplo poesia, teatro ou romance, em línguas nacionais, mas acho que, com o passar do tempo, poder-se-á desenvolver uma produção nesse sentido. De momento, temos a produção feita pela oralidade e que também pode ser transcrita e muitas vezes já o é em suporte escrito e com tradução para a língua portuguesa. É esta a situação em termos de conhecimento ao nível das cadeiras.

Ao nível de estratégias, seria bom encorajar os estudantes em optarem pelo estudo e investigação sobre aspectos da oratura. Angolana, uma vez garantido isso, trata-se de poder orientar no sentido de trabalhar sobre os vários géneros: cada um escolhe um género, conto, canção, adivinha, provérbio, e até agora não tem havido sobre os mitos, as epopeias e as lendas. Isso poderá vir progressivamente, de modo que a ambição, o projeto final seja a realização de vários estudos dos mesmos géneros em diferentes locais, para termos as mesmas temáticas aplicadas sobre vários territórios. Assim, com o andar do tempo, teremos uma espécie de cobertura mais ou menos total a nível nacional, provincial, municipal.

Podemos ter, segundo as línguas que são ensinadas na Faculdade de Letras, estudos sobre provérbios, contos, adivinhas, canções e com isso teríamos uma cobertura ou nacional, ou provincial, ou municipal ou comunal, sobre por exemplo, “a canção em Kimbundu”, “o provérbio em Kikongo”, “a adivinha em cokwe”, mas isso estudado em vários pontos, em várias comunas, em vários municípios de um género ou mesmo dos vários géneros. Isso seria uma coisa muito linda em termos de contribuição ao trabalho de recolha para o resgate, preservação e divulgação do acervo cultural da produção oral angolana.

MW – Que avaliação faz, a nível do país, do interesse dos académicos, investigadores e estudiosos na publicação de obras nessa área?

PNF – De maneira geral, foram feitos estudos, mas não tantos. Tem havido os trabalhos que foram elaborados por estrangeiros na época colonial há muito tempo. Tem havido alguns trabalhos feitos por nacionais para analisar, dar a conhecer textos sobre essas literaturas orais, mas acho que isso não chega: o nível de desenvolvimento de estudos e de pesquisa dessas matérias parece não satisfatório, é preciso mais.

Só podemos ter um interesse sobre essas coisas, quando houver a participação, colaboração, concepção e orientação dos professores, ainda poucos, que fazem pesquisas nessas áreas, quando houver talvez mais interessados entre docentes, discentes e pesquisadores, e mesmo antes de haver um número maior, que os poucos que trabalham tenham mais coordenação, interacção e que mobilizem muito mais estudantes, não quaisquer, os que realmente manifestem um interesse sério, mobilizar essa cadeia toda de indivíduos e possivelmente de meios financeiros para fazer mais, em termos de recolha de dados no terreno, em termos de estudos e em termos de publicação, porque enquanto não se publicar, o estudo parece como inexistente. É preciso mais esforços, mais meios, tem que se procurar financiamentos, mais indivíduos, particularmente estudantes a investirem nessas áreas. Haveria assim mais possibilidade de se realizar estudos, de se publicar o resultado de tais estudos e divulgá-los, para que não seja um simples trabalho de investigadores, mas que seja uma coisa útil que sirva para o fortalecimento de hábitos culturais, a descoberta e prática de valores que vêem da tradição oral, em prol de um desenvolvimento cultural e moral das nossas comunidades.

Sobretudo quando elas enfrentam realidades das culturas globalizadas, que arriscam um cancelamento das especificidades das nossas culturas e, por conseguinte, nos ameaçam de extinção. Ai a nossa sobrevivência cultural seria posta eminentemente em perigo e nós não podemos aceitar isso. Nós temos de sobreviver e mesmo de viver com plenitude, com base em algumas nossas especificidades culturais vindas da tradição oral, mas também aberta aos ventos da globalização, sem excesso, sem assimilação errada, sem risco de aniquilamento, sem prazer. Esse é o risco para a nossa juventude negar e rejeitar de maneira absoluta valores que sejam de tipo endógeno para abraçar com fervor e quase louvor valores supostos valores, que seriam bons simplesmente pelo facto de virem do exterior.

MW – Diz-se que em África, quando morre um velho, morre uma biblioteca. O que se lhe oferece dizer sobre essa máxima?

PNF – Essa frase de Ahmadou Hampaté Bâ, grande sábio da África do oeste, corresponde a verdade, na medida em que a maior parte dos Negros africanos antigamente não praticaram a escrita: tudo se vivia com base na oralidade. É por isso que na África negra, a tradição oral sempre teve grande força, porque era a base cultural que organizava a vida colectiva e dos indivíduos e essa tradição era portadora da cultura, da filosofia ou visão do mundo, e até mesmo da organização política e social. Esses mais velhos numa realidade cultural como essa devem realmente ser considerados historicamente como sendo bibliotecas, na ausência de bibliotecas materiais em locais cheios de livros, que são documentos escritos. Esses mais velhos representam, assumem a colecção do conjunto de conhecimentos acumulados ao longo de séculos, senão de milénios, pelos nossos ancestrais. Como o conhecimento transmitia-se de geração em geração, então cada geração a chegar era um conjunto de bibliotecas.

O conhecimento, de maneira geral e global, estava ao alcance de todos os indivíduos da comunidade, porque essa cultura comunitária tinha uma força muito forte: associava o seu acesso e a sua organização à sua manutenção todos os indivíduos da sociedade, através do processo de iniciação particular e também através da iniciação particular normal com a vivência ou a convivência dos indivíduos na sociedade.

Isto quer dizer que, com a extinção de um mais velho, que é um poço de ciência, como eram naqueles tempos da Idade Média ou do Renascimento, ou no início dos tempos modernos alguns indivíduos como: Pico della Mirandola, Erasmus de Roterdão. Então, esses, os nossos eram e são até hoje os mais velhos, e com a extinção dessa biblioteca viva é como uma biblioteca que está queimada.

Concordo plenamente com essa afirmação; é por isso que temos de lamentar o desaparecimento, o passamento físico desses nossos mais velhos que ainda conhecem a tradição ou as tradições, em termos de textos da oralidade. Com o evento do colonialismo, com o trabalho nocivo do projeto de assimilação, geralmente a juventude, sobretudo a que nasce nas cidades, é pouco conhecedora dessas tradições culturais, e não só é pouco conhecedora, mas não quer saber; não só não quer saber, mas despreza, então essa negação, essa rejeição deve nos encher de receio e de medo, porque cada vez que morrem esses mais velhos, cada vez se torna mais forte o risco de desaparecimento de porções inteiras dessas nossas culturas, digo bem, de porções inteiras, e ai onde houver muito menos indivíduos com conhecimento, mesmo mínimo, havia sempre um certo nível de preservação.

É preciso, mesmo nessa época de globalização, fazer com que os nossos jovens, sobretudo nas zonas rurais, onde ainda vivem mais ou menos em conformidade com alguns valores daquelas tradições da oralidade africana, e nessas zonas é ainda mais fácil fazer com que essas tradições permaneçam em alguns dos seus aspetos.

Deve haver um esforço, não só dos pesquisadores, mas também e sobretudo das autoridades, das entidades a nível oficial, para poder reforçar o trabalho dos pesquisadores e intervir a nível político para mostrar o positivo dessa riqueza cultural e contribuir de maneira visível, concreta e positiva, no sentido dessas tradições serem conhecidas, e naquilo que têm de positivo serem vividas, serem praticadas, servir mesmo para a moralização da sociedade, para a preservação dos valores.

Assim, a literatura não seria só uma coisa vaga, abstrata e inútil, mas sim uma coisa que interage de maneira íntima com a vida do indivíduo e sirva, como foi o caso no passado africano, de elemento motor da moralização da sociedade, do respeito dos valores. Isso fazia com que os que tinham as grandes virtudes eram mostrados e respeitados como modelos: depois da morte tornavam-se “antepassados”. São pessoas que se comportaram bem na sociedade, são venerados como entidades, quase como os santos na religião cristã. Portanto, não podia ser antepassado qualquer pessoa, é antepassado aquela pessoa que a sociedade dos vivos acha que foi mesmo viver no lugar onde estão os outros mais antigos.

Agora, uma pessoa perversa na sociedade, uma pessoa que se comporta mal, uma pessoa que não é modelo não pode ser referência. Com a sua morte, o povo dos vivos diz: Essa pessoa foi tão má e não merece ir viver no lugar dos ancestrais. E com certeza, não está ai, até a sua sepultura pode ser já não lugar de veneração, mas lugar de zombaria: Aquela sepultura é de um senhor que fez isso, fez aquilo, comportou-se mal, fez sempre mal aos outros. O seu nome e a sua posterioridade são praticamente amaldiçoado. Esse cânone moral obrigava os membros da comunidade a comportar-se bem, para serem referenciados, como pessoas de bem, que irão viver ai onde vivem os ancestrais, exactamente como nos cristãos: quem viveu bem tem a certeza que vai ser acolhido por São Pedro,  São Paulo, Moisés, Jacó e Abrão na porta do paraíso; os maldosos vão descer ao fogo do inferno, então isso tudo dava força ao homem para comportar-se bem, para ser acolhido mais tarde no paraíso, porque com o mau comportamento haveria sofrimento para a eternidade.

As culturas têm sempre essas injunções morais que encorajam o bem e desencorajam o mal. Se, na nossa tradição cultural, tínhamos essa crença que norteiava a convivência social depois da iniciação, com a morte cultural, parcial ou total, os povos africanos renunciariam completa ou parcialmente a esse conhecimento: há risco grande de amputação da vida cultural e da filosofia dos nossos povos. Lamentavelmente, muita gente desconhece os valores da tradição cultural e continua a ter a visão de que são coisas do passado, são coisas primitivas, são coisas de povos atrasados. Esta visão errada, que é própria de muitos dos jovens, não ajuda para valorizar as nossas culturas africanas, particularmente nesse caso as culturas da oralidade na sua vertente literária que é portadora de valores, como toda boa literatura.

MW – Para si, qual é o legado deixado pelos grandes africanistas como: Senghor, A. Diop, Aíme Cesaire, Lumumba, Nelson Mandela, Agostinho Neto, entre outros.  

PNF – Nós, como Africanos, temos de ter orgulho dos grandes africanistas porque eles criaram grandes ideias: alimentaram-se de grandes ideias, desta maneira, criaram sonhos, criaram projetos para os nossos povos, projetaram um certo caminho do destino dos povos africanos.

A geração de Senghor criou esse grande movimento cultural da Negritude que, apesar do tempo que passou, fica para mim uma coisa essencial cujo valor permanecerá ainda durante muito tempo. Naqueles anos 30, eles lançaram o movimento com a intenção, primeira, de valorizar o homem negro africano na sua cultura, na sua essência interna, perante o Europeu que era geralmente eurocentrista, cheio de preconceitos negativos para com os Africanos e as suas culturas.

Se eles fizeram isso naquela década até 1940/1950 não se pode dizer que o projeto, o ideal tenha sido ultrapassado, porque ficamos ainda, talvez menos, mas sempre, na mesma situação: há sempre uma certa colonização cultural que permanece, há sempre os efeitos perversos do projeto de assimilação, que foi um projeto de genocídio cultural. Assim, o Africano, sobretudo o negro, deve considerar sempre como actual o projeto e o ideal da Negritude. Valorizar o homem negro e as suas culturas, declarar o valor dessas culturas, e assim não só para valorizar essa africanidade, não só para afirmar essa africanidade, mas para propor esses valores culturais também aos outros povos como possibilidade de contribuição dos Africanos ao património universal, como contribuição dos Africanos na possibilidade de resolver os problemas que se levantam nesse nosso mundo actual globalizado, que Senghor chamava de a mesa, o “encontro marcado do dar e do receber”, o “concerto das nações”: cada um é convidado à mesa e deve poder trazer alguma coisa, não vir só para comer, receber. Mas vai trazer o quê? Vai trazer exactamente a sua diferença: é preciso que haja as diferenças, pois são essas diferenças que fazem a riqueza do todo em via de uniformizado, então não pode haver uma uniformização, nem unilateral nem total, deve simplesmente ser uma união das diferenças. Quem não tiver diferenças seria praticamente inútil: seria uma pessoa que vem à mesa para tirar e comer sem contribuir em nada. Assim, torna-se uma entidade inútil.

Depois temos tido os ideias de uma personalidade como C. A. Diop, o homem que morreu aos 60/61 em 1986 e que, durante quase décadas, lutou sempre nesse sentido de valorização do homem africano, depois de ter feito estudos de vários tipos aprofundados em história, em linguística, em química e física para fortalecer a demonstração daquilo que era a sua tese principal, isto é, a anterioridade da civilização faraónica negro egípcia, essa civilização que seria como o cimento de uma nova civilização africana que daria peso e força ao Africano, para se valorizar a si próprio e aparecer realmente como um ser útil no desenvolvimento do mundo.

Ele sempre lutou para fortalecer a demonstração dessa que foi para ele uma convicção indestrutível. Assim segundo ele e para ele, essa civilização egípcia faraónica que era então concretamente anterior à civilização grego-romana que foi a base, depois da Idade Média, do Humanismo e da restauração da civilização europeia, através do Renascimento com base nas cinzas da antiga civilização grego-romana, que foi tributária da civilização egípcia antiga. Isso é que estava a demonstrar C. A. Diop, mas os Europeus não quiseram aceitar, por ideologia, porque os Egípcios antigos do Faraó eram mesmo negroides, então por ideologia o Europeu não quis aceitar que os Negros teriam ensinado aos Gregos-Romanos. Foi um combate de toda uma vida.

O Africano deve continuar a crer na África, na sua solidez: a África pode também trazer coisas válidas: não seria só para a valorização do homem africano, não só para a valorização das culturas africanas, mas também e sobretudo para o Africano contribuir, que não se sinta como ser inútil, que não seja considerado como ser inútil. Para que isso aconteça, é necessário que ele demonstre que realmente é útil ou pode ser, que traga alguma contribuição que pode fazer com que o mundo evolua de maneira positiva com base na contribuição do Africano também, que traga alguma coisa, que participe na globalização, mas não de mãos vazias, que traga alguma coisa útil, que demonstre aos outros que ele pode ajudar a humanidade a crescer, a se desenvolver, e não seria, pelo menos de momento, em termos tecnológicos, porque os outros já demonstraram avanços que de momento não  alcançamos presentemente.

Mas tudo não é só tecnológico: tudo não é só material. Existem estas dimensões diferentes que sejam o espiritual, o moral, o psicológico, o cultural que até fazem o fundamento de uma civilização.

Daí, então, que a contribuição seja realmente forte na vertente espiritual e moral que poderá gerar um verdadeiro avanço, menos tecnológico mas que seja num bom sentido. O cientista, o grande químico, o grande físico vai servir para criar uma bomba atómica, essa bomba vai servir para matar. É preciso o avanço tecnológico virado para o sentido de destruição do homem e do universo.

Fala-se por exemplo, dos efeitos do aquecimento global: houve tantos avanços tecnológicos, mas, na verdade, estamos a matar o homem, estamos a matar a natureza, estamos a pôr em perigo a essência do universo. Isto demonstra que os aspectos tecnológicos são bons, mas não são necessariamente, uma vez desvirtuados,  a melhor parte do homem, da existência humana, da essência desse mundo, como dizia Jesus quando foi ter com as irmãs de Lázaro, Marta e Maria, uma estando a trabalhar na cozinha a queixar-se da outra que não estava a fazer “nada”, entre aspas, porque estava a “palavra de vida” de mestre. O mesmo disse: “Essa escolheu a melhor parte”, que não é necessariamente aquela material.

Sobre António Agostinho Neto, posso perceber o seu legado na sua parte cultural, de continuação e de ilustração daquilo que foi a exigência primordial da Negritude. Essa mensagem idealista da Negritude interessou a Agostinho Neto que quis mesmo escrever no sentido de fazer um recurso às culturas locais, aos valores endógenos, no sentido global de um poema como “Havemos de voltar” a partir da reivindicação cultural, como foi o caso na primeira Negritude com Senghor, Damas e Césaire. Como é sabido passou a uma fase política, uma vez a cultura tornada firme. Com efeito, chegou-se de maneira incontornável à descoberta de uma consciência política. Essa consciência política já não podia aceitar a submissão imposta por outro povo, que invade, que pisa e procura aniquilar o indivíduo, começando pelo cultural, continuando pelo político e acabando pelo económico. É nesse sentido que Agostinho Neto escreveu “Sagrada Esperança” (a palavra já está lá, “esperança”) e a “Renúncia Impossível”, texto que não podia, assim como era forte, denunciador ser publicado naquela época da dominação colonial. Ele mostrou essa convicção, esse ideal, de libertação de um país, de um povo, para que retomasse as suas raízes identitárias e continuasse triunfante no caminho para a libertação nacional e a independência. É isso que foi feito em colaboração com outras forças, outros lutadores, outros heróis, muitos dos quais tombaram e até foram mesmo esquecidos.

Na sua postura como político, num primeiro tempo é o lutador, o herói e, num segundo tempo, é o dirigente, como Presidente que teve que implementar estratégias de gestão para sair do antigo estado de escravos, dominados, ao novo estatuto de vencedores, de homem que tem a obrigação de criar mecanismos para gerir os destinos. Isto não é sempre fácil porque no tempo passado o destino foi gerido a partir do exterior por outro povo, agora o próprio povo tem que gerir-se, o que constitui uma grande prova: ou vamos mostrar seriedade ou então chumbar, com todo o risco de ser resubmetidos a uma nova escravidão, se não mesmo uma nova escravidão.

A esse nível, o homem mostrou uma certa coerência consigo próprio, a partir do seu ideal e a gestão política num nível de realização do seu pensamento. Acreditar numa ideologia e comportou-se consequentemente porque várias vezes fugiu à regra de muitas pessoas que afirmam no discurso convicções reais ou supostas, mas depois na vida real mostram outra coisa, os ideais afirmados ficando a um nível de verniz enquanto na verdade no pensamento não havia grandes convicções.

Então, a esse nível, Agostinho Neto até morrer demonstrou, na gestão das convicções, na sua maneira de viver, na sua maneira de gerir a sua vida privada, e mesmo depois da morte, não entrou nos caminhos da maior parte dos dirigentes africanos que declaram uma ideologia convincente mas na gestão concreta negam a mesma, causando decepções.

MW – Para concluir, gostávamos que fizesse uma apreciação dos estudantes do Curso de Línguas e Literaturas Africanas da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, e que deixasse uma mensagem para a juventude angolana no geral.

PNF – Para dizer a verdade, na maior parte dos casos, os estudantes que temos no Curso de Línguas e Literaturas Africanas não sempre quiseram aquilo de sua própria vontade, uns sim, mas sem sempre saber o que que iriam fazer concretamente. Alguns poucos, sim, sabiam aquilo que queriam, mas muito nem sabiam claramente aquilo que significava esse curso, aquilo que fazia e para quê podia ser útil.

Qualquer seja a maneira com que a pessoa entrou, que tenha tido anteriormente convicções e conhecimento daquilo que era o curso, que tenha entrado por obrigação, por constrangimento, sem convicção, eu digo simplesmente que, uma vez que a pessoa tiver a oportunidade de descobrir um mundo, deve ter a obrigação de procurar conhecê-lo.

Conheço um colega que, em 1971, quis fazer o curso de “Agrária” e, não conseguindo entrar, foi admitido em Filosofia, área em que fez o doutoramento. Docente universitário, diz hoje “Estou muito feliz de ter feito filosofia, não sei o que seria da minha vida sem a filosofia”.

O ser humano deve adaptar-se e aceitar a oportunidade que a vida oferece: numa possibilidade de abertura para encarar as coisas de maneira positiva.

O curso tem uma missão muito importante. O curso de Línguas e Literaturas, de maneira geral é um curso altamente cultural. Permite desenvolver elementos culturais dos povos, os nossos povos primeiro, depois os outros; permite despertar a consciência, criar o homem e, quando falamos de homem, trata-se do homem com “H” maiúscula e não há missão mais nobre, mais elevada do que essa de criar homens, com “H” maiúscula.

No que diz respeito particularmente ao Curso de Línguas e Literaturas Africanas, é o meio onde se vai desenvolver o conhecimento, as armas para procurar recolher os dados do património cultural da africanidade tradicional. É o lugar onde vão se forjar almas para preservar e por conseguinte resgatar e também divulgar essas culturas.

O homem formado na área de Línguas e Literaturas Africanas, que trate de linguística ou de literatura, deve ter fortalecido a sua consciência, a sua bagagem em termos de conhecimento do acervo cultural de Angola na sua tradição oral. É bom que participe na recolha desse património, e trabalhe assim no sentido de mostrar aos outros homens da nossa sociedade como é que tradição pode ser útil, como é que pode conseguir contribuir na criação de um homem novo.

Os africanistas têm essa pesada missão de procurar e reencontrar os valores, partilhá-los com os outros, convencer os outros e fazer esse trabalho generalizado de estudo para conhecimento de todo o espaço nacional através das províncias, através dos municípios, comunas e aldeias, conhecer os textos da literatura oral como canções, epopeias, lendas, adivinhas, contos, etc e ver quais são as pequenas diferenças num mesmo povo, as várias culturas, diferentes variantes das línguas, não só as ensinadas na Faculdade de Letras (kimbundu, kikongo, cokwe e umbundu), mas também as outras como kwayama, nhayeca-humb,e etc, de modos que se conheça melhor o país naquilo que traz como valores tradicionais ligados à oralidade.

É uma herança que podemos proporcionar os outros, para além de nós próprios. Todavia, esta herança não deve simplesmente se reduzir  em livros, mas servir no concreto na nossa vida diária: a arte africana, de maneira geral, foi uma arte funcional, quer dizer havia, para além do interesse estético, a dimensão de utilidade social.

Não é uma literatura como a dos Europeus, onde um indivíduo isola-se ao ler o seu livro. Aqui é uma riqueza que se partilha, o conto está a ser contado e os espectadores à volta da fogueira, estão a ouvir e podem, vendo os valores, adoptar os mesmos: é uma coisa a que adere, de maneira concreta, directa e real, a vida do indivíduo.

Por: Estevão Ludi e Domingas Monte

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