O FEITIÇO DO BATUQUE

Sinto o som do batuque nos meus ossos,

O ritmo do batuque no meu sangue.

É a voz da marimba e do quissange,

Que vibra e plange dentro de minh`alma,

– e meus sonhos, já mortos, já destroçados,

Ressustam, povoando a noite calma

Tenho na minha voz ardente o grito

Desses gritos febris das batucadas,

Nas noites em que o fogo das queimadas

Parece caminhar para o infinito…

E meus versos são feitos desse canto,

Que o vento vai cantando, em riso e pranto,

Quanto o batuque avança desflorando

O silêncio de virgens madrugadas.

 

Músicos negros, colossos,

E negras bailarinas, sensuais,

Tocam e dançam, cantando,

Agitando meus ímpetos carnais.

O batuque ressoa-me nos ossos,

Seu ritmo louco no meu sangue vibra,

Vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,

Sinto em mim o batuque penetrando

– e já sou possuído de magia!

 

A batucada tem feitiço eterno.

O batuque de dor e de alegria,

Que sinto no meu ser, dentro de mim,

Nunca mais terá fim,

Nem mesmo além do Céu e além do Inferno!

 

Geraldo Bessa Víctor, in “Cubata Abandonada”. Prémio Camilo Pessanha, 1957

 

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