Alda Lara, a poetisa de Benguela

Falar de Alda Lara não seria complicado, se apenas lesse para vós alguma biografia pesquisada aqui e ali, na net principalmente. Mas entrar no seu mundo interior, na sua alma, através do estudo da sua obra é um pouco mais difícil. No entanto, aceitei o desafio lançado pela professora Domingas e, de uma forma muito subjectiva, devo confessar, vou tentar falar-vos de Alda Lara.

         Começarei por ler um poema de sua autoria que já vos poderá dar uma ideia do seu pensamento de mulher e humanista:

RUMO

É tempo, companheiro!

Caminhemos…

Longe, a Terra chama por nós

e ninguém resiste à voz

da Terra…

 

Nela,

O mesmo sol ardente nos queimou

a mesma lua triste nos acariciou,

e se tu és negro e eu sou branca,

a mesma Terra nos gerou!

 

Vamos, companheiro…

É tempo!

 

Que o meu coração

se abra à mágoa das tuas mágoas

e ao prazer dos teus prazeres

Irmão

Que as minhas mãos brancas se estendam

para estreitar com amor

as tuas longas mãos negras…

e o meu suor se junte ao teu

suor, quando rasgarmos os trilhos

de um mundo melhor!

 

Vamos!

que outro oceano nos inflama…

Ouves?

É a Terra que nos chama…

É tempo, companheiro!

Caminhemos…

 

Rumo é o título deste belo poema. Todos precisamos de um rumo, de um objectivo na vida, enquanto pessoas, enquanto cidadãos – cidadãos do Mundo, cidadãos de África, cidadãos de Angola.

Neste e noutros poemas, Alda Lara fala do apelo da Terra. Aqui, podemos compreender que essa terra é Angola, se soubermos que ela ficou longe da sua amada Benguela, enquanto estudava medicina em Portugal. Mas mais adiante, ela apela à união e ao trabalho de todos perseguindo o tal rumo dizendo “e o meu suor se junte ao teu suor quando rasgarmos os trilhos de um mundo melhor!…”.  Na expressão “um mundo melhor” podemos considerar o mundo como a Terra, a nossa terra, Benguela, Luanda, Lisboa, dentro desse Mundo a que todos pertencemos. Ao mesmo tempo, conseguimos perceber a sua ideia universalista ao apontar como rumo da humanidade fazer um mundo melhor.

Alda Lara nasceu em 1930, em Benguela, mas ainda muito jovem foi estudar para Portugal, onde se formou em Medicina.

Nos finais da década de 50 e durante os anos 60 do século vinte, muitos jovens estudantes das universidades de Lisboa e Coimbra, nascidos em Portugal ou oriundos das suas colónias comungavam desse ideal de construir um mundo melhor.

Assim, Alda Lara fazia parte do grupo dos estudantes da Casa do Império que professavam, igualmente, ideias de liberdade e nacionalismo. Como era boa declamadora procurou dar a conhecer os poetas africanos de língua portuguesa e, numa sociedade ainda bastante fechada a novas ideias, publicou alguns escritos em jornais e revistas da época, como a revista Mensagem e o jornal ABC.

Alda Lara voltou para a sua amada Angola, formada em medicina, com uma vontade imensa de fazer o seu mundo melhor, mas pouco tempo depois faleceu, deixando uma obra incompleta, mas rica de conteúdo.

Seus poemas foram compilados e publicados, após a sua morte, por seu marido, Orlando de Albuquerque, também ele, escritor e médico.

Poetisa da geração Mensagem (e eu diria da Geração da Utopia), sua poesia fala do exílio, da saudade da terra e suas gentes, dos lugares da infância, dos amigos e das expectativas de um futuro em que pretendia participar logo que possível. Alda foi uma mensageira da sociedade civil, uma voz feminina de grande sensibilidade, a voz da mulher, da mãe, da mãe África, clamando no seu poema:

Presença Africana   

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!

Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!…

……………………………………………………………………………..

O legado humanista de Alda Lara pode ser resumido por um dos seus poemas intitulado Testamento onde deixa a sua herança, os seus valores, os seus pertences mais valiosos:

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada…

Esses, que são de esperança,
Desesperada, mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor…

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora…

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua…

 

Por: Ana Bela da Costa e Silva Alves Primo

Aluna do 1º Ano do Curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa

Faculdade de Letras – Universidade Agostinho Neto

Luanda- Agosto de 2017

Apresentação feita na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, durante o 2º “Sarau Poético Literário”, organizado pela “Associação Mwelo Weto-Nosso Portal”.

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