4 de Janeiro de 1961: uma data inesquecível na memória dos Angolanos

Introdução

            É nossa pretensão, com o presente trabalho, discorrermos sobre as causas que estiveram na base dos acontecimentos registados a 4 de Janeiro de 1961, na região da Baixa de Cassange, mas de forma detalhada.

             Como o trabalho está dividido em duas partes, na primeira realizamos o que dissemos no princípio desse texto e, na segunda, fazemos questão de ilustrar, por intermédio de uma peça teatral, o jeito como se sucedeu o acto de 4 de janeiro de 1961, embora fosse de forma resumida.

4 de Janeiro de 1961: uma data inesquecível na memória dos Angolanos

            Agastados com o trabalho esforçado, paupérrimas condições laborais, rendimento salarial ínfimo, a 4 de Janeiro de 1961, os camponeses da região da Baixa de Cassange, que trabalhavam no cultivo da plantação de algodão, isto a serviço da empresa COTONANG, decidiram paralisar as suas jornadas laborais, por questões já aludidas. Antes disso, eles eram retirados das suas aldeias e obrigados a cultivar algodão nos terrenos indicados pela empresa. Postos lá, a empresa acima referenciada não fazia questão de pagar dignamente o salário dos camponeses que trabalhavam na plantação de algodão.

            Segundo Anabela Silveira, in A Baixa de Cassange: o prenúncio da luta armada (s/d, p. 1): Os únicos rendimentos dos agricultores aparecem no final de cada campanha com a venda obrigatória do algodão à COTONANG que estabelece preços reduzidos e frequentemente compra produtos de primeira classe a valores de segunda.

            Dito de outro modo, os camponeses, num terreno orientado pela COTONANG, eram obrigados a trabalhar para o cultivo de algodão. Após a colheita, a empresa COTONANG decretava que os camponeses deviam vender, obrigatoriamente, os seus produtos a ela, estipulando assim o preço. Tratava-se de um produto, que, para os camponeses, deviam ser vendidos a preços consideráveis, e não aqueles que a COTONANG ordenava.

            Para Mota (2007, p. 188), a cada camponês era imposto o cultivo de um hectare sendo obrigado a vender toda a produção a preços estabelecidos pela Companhia Algodoeira, sem direito a “refilarem”.

            Ao longo dos campos de cultivo, «se alguma cheia ou improviso acontece nas lavras que tinham a seu cargo, os agricultores ficam entregues ao seu azar: a COTONANG não os compensava pela perda inesperada de um ano de trabalho nem tão pouco lhes prestava assistência com fertilizantes ou pesticidas. Se o terreno […] começava a dar sinais de saturação, os capatazes da empresa forçam-nos a deslocarem-se para locais a quinze ou vinte quilómetros das suas cubatas e se os campos junto às aldeias são bons para o algodão, os agricultores, depois de horas a fio de trabalho árduo, vêem-se obrigados a percorrer grandes distâncias até às terras afastadas onde já é permitido cultivar os seus alimentos […]».(Vaz et al, 2010, p. 54).

            A COTONANG, sempre que houvesse algumas falhas nos campos de cultivo, não se responsabilizava delas. Pelo contrário, os camponeses eram obrigados a trabalhar um ano no cultivo de algodão, sem quaisquer subsídios. Se os campos onde cultivavam fossem atacados por chuvas e por outras pestes, eram obrigados, pela COTONANG, a ir trabalhar numa zona bastante distante das suas casas, zona essa que oferecia melhores condições de solo, o que deixava os camponeses totalmente agastados.

            De acordo com Mota (2007, p. 189), em 1960, a produção de algodão atingiu cerca de 20 mil toneladas, tendo cada camponês produzido em média cerca de 270 quilos. O preço pago pela COTONANG aos camponeses era tão irrisório que para uma produção de 20 mil toneladas, a empresa monopolista arrecadou mais de 200 mil contos […].

            Diante de tudo isso, os camponeses, devido às condições laborais, decidiram fazer greve, exigindo assim mais condições humanas, de trabalho e salarial. «Distroçados moral e economicamente, mas inspirado numa forte componente religiosa e crentes de que havia chegado o momento dos “Ventos da História” varrerem a injustiça de Angola, os explorados trabalhadores rurais, contra tudo e contra todos, preferiam a morte a terem que carregar o pesado fardo da escravatura por mais tempo» (Mota, 2007, p. 187).

            Agastados com toda a situação que se vivia na época, onde tinham direito absoluto ao trabalho, mas não a um rendimento considerável, os camponeses decidiram dar um basta à injustiça que se lhes era submetida pelo regime colonial português. Sonhando com um dia próspero e melhor, contrapondo-se às ideologias colonial, preferiram correr risco, arriscar as suas vidas, fazer frente ao regime, para ver se se libertavam daquilo.

Em Dezembro desse ano [1960, no caso], depois de acesa discussão por toda a vasta região, o povo da Baixa de Cassanje decide abandonar o trabalho escravo a que estava sujeito. Revoltam-se contra a situação de exploração em que vivem, expulsam os capatazes e auxiliares, destroem algumas cantinas de europeus e recusam-se a cultivar mais algodão. (Mota, 2007, p.189).

            Segundo o Padre Manuel das Neves (apud Silveira, s.d, para 6), «houve levantamento entre 1 e 14 de Fevereiro, em sinal de protesto […] contra a política esclavagista dos colonialistas portugueses […]. Centenas de angolanos prenderam 8 comerciantes […] o chefe de posto e durante 6 dias fizeram o que quiseram: obrigaram a trabalhar na estrada durante o dia em certas ocasiões sem alimentação […]. Sempre que os pontecos não estivessem no lugar, obrigavam os colonialistas a descerem e a cortarem paus e construírem pontes […] destruíram todos os haveres dos comerciantes».

            Aquelas foram, portanto, umas das atitudes assumidas pelos camponeses que, revoltados com o regime, fizeram questão de protestar contra e exigir melhores condições. No protesto, fizeram questão de sequestrar alguns comerciantes portugueses, capatazes e destruíram alguns estabelecimentos comerciais. Também fizeram questão de meter os sequestrados, no caso de portugueses, a fazerem os trabalhos que os camponeses faziam, isto é, trabalhar durante o dia todo sem alimentação, cortar os paus, isso durante seis dias.

A notícia da grave ao trabalho escravo propaga-se rapidamente por toda a região; são cada vez em maior número os aderentes ao espontâneo movimento. (Mota, 2007, p. 189).

            Esse protesto e greve ao trabalho, segundo o Jornal A Voz da Revolução (apud Silveira, s.d, para 7), teve como líder António Mariano, que, mudando de Angola para o Congo, fez questão de contactar a UPA, ABAKO de Kasavubu, agremiações religiosas, entre outos, que anunciavam a libertação do país. Segundo ainda aquele jornal, o líder daquela revolta era um seguidor acérrimo de Simão Kimbangu.

            Para fazer face ao colono, os camponeses tiveram de fazer jus à crença religiosa, que os levava a ter consideração a quinze mandamentos.

As populações são submetidas a rituais de iniciação e levadas a respeitar quinze mandamentos. As armas não abundam e as que existem são obsoletas, mas os sacerdotes dizem ao seu rebanho para não temerem a retaliação dos colonos porque as armas dos brancos apenas deitam água[1].

            Para Mota (2007, p. 189), em fins de Janeiro de 1961, centenas de camponeses concentraram-se na sanzala de Teka dia Kinda com a convicção de que as forças divinas em que espiritualmente se apoiam os ajudariam nas suas lutas contra aos exploradores.

            Foi necessário crer em “deuses” para que os camponeses ganhassem coragem para enfrentar o regime. Acreditavam que os deuses os protegiariam de qualquer ataque militar que estavam prestes a sofrer.

            Numa das inúmeras mensagens místicas, ficamos a conhecer a seguinte: “Maria nossa protectora há muito que anda preocupada com o nosso sofrimento. Ela aparecu ao povo de Cassulo Kenda… precisa amarar ropa na cintura com trança de capim e fazer pulseira também de capim”.[2]

            A mensagem espalha-se rapidamente e atravessa a fronteira Norte de Angola pela voz dos feiticeiros […] e é aceite como salvação para os povos cujo passado comum era a exploração colonial, a miséria e a vida sem futuro (Mota, 2007, p. 189).

            Em relação a isso, o colono português, tomando o conhecimento do sucedido, ficou preocupado, o que lhes levou a preparar o seu braço-armado e, depois, tentar negociar com os camponeses. Como os camponeses estavam fartos da situação, recusaram-se a negociar, algo que fez com que a informação chegasse a Luanda. Nalgumas parcelas da Baixa de Cassanje, houve algum consenso entre os militares, que usavam armas para persuadir, e os trabalhadores que, após isso, retomaram ao trabalho, mas houve regiões em que os camponeses não aceitaram negociar. De recordar que, de acordo com Anabela (s/d, p. 9), a negociação durou cerca de 30 dias. Tal negociação não tinha só como fundo de pano “o regresso ao trabalho”, como também o desarmamento da população e a apresentação daqueles que lideravam a rebelião.

            Enquanto as populações fugiam das sanzalas, refugiando-se assim para a mata ou para o país vizinho Congo, e o número considerável de adeptos à guerrilha crescia, a força aérea colonial preparava-se para atacar.

            Face à greve, segundo Mota (2007, p.190), uma […] coluna militar dirigida pelo capitão Teles Grilo Comandante da 3.ª Companhia de Caçadores Especiais passa pela sanzala, mas é forçada a conter-se um pouco mais à frente, porque uma árvore derrubada sobre a estrada impede o avanço das viaturas. O povo com catanas e azagaias […], observando as movimentações da tropa colonial. As viaturas imobilizam-se; descem alguns militares. O capitão Teles […] estabelece diálogo com os populares perguntando-lhes o que se estava a passar. Os camponeses respondem-lhe prontamente que estão fartos de ser explorados pela COTONANG; reafirmam que não querem mais cultivar algodão.

            Foi então que, a partir da situação supra mencionada, o governo de Salazar sentiu a necessidade de enviar uma equipe de pilotos, cujos aviões se faziam transportar de bombas de grande porte, a fim de bombardear a região de Baixa de Kasanji, devido à greve efectuada pelos camponeses que, cansados com o trabalho forçado, já não não queriam mais saber dos campos, trabalhar para o colono, nem que isso lhes custasse a vida.

            A primeira equipe enviada por Salazar à Baixa, no entanto, solidarizou-se com o povo daquela região e, como humanos que eram, preferiram lançar as bombas em zonas despovoadas, alegando que o que aquele povo queria eram só boas condições de trabalho, dinheiro e comida, e nada mais, além disso. Era, no entanto, um povo inocente, muito humilde, que só queria ser feliz.

            A segunda equipe, porém, fez questão de cumprir com a ordem emanada pelo governo central. Isto é, fez questão de lançar as bombas em zonas onde houvesse mesmo populações, deixando-as despovoadas e com um número assustador de mortes.

Conclusão

            Face ao que noutras páginas aludimos no que diz respeito ao acontecimento de 4 de Janeiro de 1961, isto na região da Baixa de Kasanji, mormente na província de Malanje, chegámos então a concluir que se tratou de um dos piores acontecimentos já registados na história de Angola, quiçá mundial, uma vez que centenas de vidas inocentes foram retiradas, sanzalas foram queimadas, tudo porque, clamando por melhorias de condições sociais e humanas, os camponeses que trabalhavam na plantação de algodão a cargo da empresa portuguesa COTONANG decidiram paralisar os braços, até que os problemas fossem solucionados.

            Como, na época, o país estava sob domínio colonial português e era visível no rosto dos angolanos a necessidade de se livrar Angola das garras europeia, a coragem dos ex-trabalhadores da COTONANG, em Malanje, foi uma força impulsionadora para o prénuncio da luta pela indepedência nacional de Angola.

Referências bibliográficas

Mota, H. (2007) Angola, Lágrimas e Sangue: contos do tempo colonial. Luanda: Nzila.

Silveira, A. (s.d) A Baixa de Cassange: o prenúncio da luta armada. (s.l)

Váz, M. R. (2010) Os anos da Guerra Colonial. Porto: QuidNovi.

Detalhes sobre a estrutura da peça teatral (peça teatral criada inspirada nos acontecimentos de 4 de Janeiro de 1961)

Género: tragédia.

Escrita: prosa.

Tema da peça: O dia do “não ao trabalho forçado”.

Duração: 15 minutos.

Modalidade discursiva: diálogo.

Discurso dramático: texto principal e secundário.

Caracterização:

  1. Linguagem: popular e corrente.
  2. Espaço: a cena desenrola-se num campo de cultivo de algodão.
  3. Vestuário: roupas que caracterizavam os camponeses da época: saia, blusa e pano.
  4. Personagens:

Luzia: camponesa, fisicamente baixinha, de corpo forte e, psicologicamente, calma, decide expressar o seu descontentamento face à situação laboral que viviam na época, aclamando por melhorias de condições laborais, humanas e, sobretudo, salarial

Fineza: tal como a Luzia, na peça aparece também se contrapondo às ideologias coloniais no que ao trabalho diz respeito, sonhando também por um novo dia, em que estariam livres das garras do regime colonial português.

Issungo: com o mesmo comportamento da Luzia, Fineza e Issungo, esta também desabafa os dias ruins que enfrentava nas plantações, quando trabalhava sem alimentação e durante determinadas horas.

Kaputu: português arrogante, um dos representantes da empresa COTONANG nas plantações, aparece dando ordem aos camponeses, chamando-os nomes e não levando muito em conta as necessidades por que eles passavam. Para este, com sol ou sem chuva, todos deviam trabalhar e, no entanto, sem qualquer reclamação.

Ahmed: com duplo papel, aparece na peça como sendo o soba da sanzala e esposo da Lucrécia.

Lucrécia: com duplo papel também, surge como esposa do soba da sanzala e camponesa.

Engrácia: tal como as demais personagens, ela aparece reclamando do trabalho forçado.

João Fernandes: chefe do armazém onde ficam as sementes, surge na peça como um cidadão português, orientando assim aos camponeses como é que deveriam trabalhar nas plantações.

O dia do “não ao trabalho forçado”

            Devido aos abusos do colono, mormente do governo de Salazar, no dia 4 de Janeiro de 1961, um grupo de camponeses reuniu-se para manifestar-se contra aos maus tratos e trabalhos forçados. Nada mais queriam, senão mesmo os seus direitos por aquilo que trabalhavam, para que, finalmente, desenvolvessem a si mesmo, o meio e a família.

            Visto que naquela altura tudo era estipulado pelos colonos, tanto os preços do algodão como também a compra das sementes e os impostos que eram quebra-cabeça para quem esforçosamente trabalhava para em troca receber um prato de comida, os camponeses decidem parar com tudo, nem que isso lhes custasse a própria vida. Contudo, foram formados pequenos grupos de sindicatos para revolta parcial dos trabalhos, começando com os líderes das organizações.

            Assim, numa manhã de quinta-feira, num dia bastante cinzento, os camponeses da região da Baixa de Cassanje reencontram-se e, como já lhes era costumeiro, partiram para o seguinte diálogo, isto no local das plantações:

Entra a Luzia, a Fineza, a Engrácia e a Issungo

Luzia (posta no local das plantações e dialogando com as suas colegas de trabalho, dezabafa)

 – Todos os dias na lavra, trabalho bué, não ganho nada e ainda por cima esses mindele (brancos) falam que nós não fazemos nada. Nós chegamos aqui às 5h, nem matabicho, nem almoço, nem nada. Assim então é como? Sol é sol, chuva é chuva, frio é frio, e ainda por cima o dinheiro que nos dão é bucado. Eu estou cansada

Fineza (exaltadamente exprime o seu descontentamento no seguinte tom, enquanto faz a colheita do algodão, mas gesticulando)

– Possas mana Lu! Eu também estou aborrecida e muito frustrada com esta falta de consideração. Eu trabalho o dia todo, como o pão que o Diabo amassou e, no final de tudo, o rendimento é uma miginha. Tomara que isso acabe um dia! Esses brancos deveriam mudar essa forma de tratar os pretos, porque, afinal de conta, a única diferença que há entre o preto e o branco é a cor da pele, pois o que eles sentem nós também sentimos.

Prossegue a outra colega, que, no momento, fazia recolha dos algodões que estavam no chão, colocando-os nos sextos.

Issungo – ewa, kidi mwene, ainda com tanto trabalho realizado, kaputu fala que nós não trabalhamos nada. Ainda vamos mostrar para eles como é ficar sem trabalhar. Ainda a terra é nossa, wandala oku tu explora lá.

Engrácia – Mana Fineza, mana Luzia, amanhã esses mindele (brancos) vão ver com quantas tábuas se faz um barco. Quem trabalhar vamos revoltar-nos contra eles.

Saem a Fineza, Engrácia, Luzia e a Issungo, e entra João Fernandes, Ahmed, Lucrécia e Kaputu.

João Fernandes (chefe dos armazéns de sementes, após ouvir os desabafos dos camponeses, diz ironicamente, num sotaque totalmente europizado, o seguinte)

– Ouvem lá, já chegaram para receber as sementes, ó seus pretos!?

Ahmed (com uma expressão facial totalmente melancólica e descontente, responde ao chefe do armazém de sementes nos seguintes termos)

– Será que já baixaram o preço das sementes? Se já, tambulenu (recebam). Senão, awa!, As nossas vidas não melhorará só um kabukado. Ewa! Nas nossas sanzalas fome é fome, e ainda por cima tudo é só para vós.

Kaputu (arrogantemente, diz)

 – Vós estais a gozar, pretos ignorantes! Olhai que, se não começarem com o trabalho, vão apanhar algumas chibatadas.

Todos os camponeses gritam em conjunto:

– Ainda que apanharmos chibatadas, hoje é hoje! Ninguém vai trabalhar, okidi mwene.

Naquele dia, ninguém trabalhou e a greve prolongou-se até algumas semanas.

Kaputu – vamos terminar com esta mangonha dos pretos, começando com os castigos terríveis até quando eles se rendam.

Nem com isto os donos das terras renderam-se, e esta foi, portanto, a postura de todos os camponeses naquele momento.

Ahmed – Ana ngola, mwazekele kyebi? Phalahi mindele ajile kutomonesa hadi phalahi etu ana dyembu tutalango yoso alobanga kikyene? Mbo meus filho curage deno kumabya haga tukalakala phala tu kwatelesa familía mwevu?

Lucrécia – Kikawaba wa mutu sofelesa etu mumu tukalaka maji okudya a mutu bana kikale ni valor. Kidi mwene, mwadi wami. Hadi ya vulu tulenge.

Ahmed – Kindala kiki tulama haji, mukonda ngana soba mwene wajiya yoso twanda banga.

Luzia – Nós sofremos muito; somos escravizados pelo colono; levamos o colono de tipóia, às costas, servimos para tudo, produzimos e continuamos escravos. Plantamos algodão; trabalhamos a terra; e continuamos na miséria. Nós trabalhamos, o colono enriquece; não aguentamos mais.

Kaputu – Se não trabalharem, vão todos morrer.

Os camponeses em conjunto dizem:

– Hoje, agora mesmo, queremos morrer. As armas que trazes deitam menya (água). As balas dos mindele (brancos) não matam.

Kaputu – As balas são mesmo de verdade. Elas matam.

Como os camponeses acreditavam na protecção das forças místicas, continuaram a temer. Para desacreditá-los, o exército colonial que estava no local começou por disparar, lançado assim algumas granadas.

– Vamos, lancem as bombas – disse o capitão do exército no local.

Após o lançamento, algumas pessoas conseguiram escapar-se rapidamente da explosão. Como ninguém ficou ferido, os camponeses optaram por duvidar uma vez mais das armas dos brancos, o que fez com que o exército atirasse fogo a todos, vitimando cerca de 310 camponeses.

Estes camponeses, no entanto, foram enterrados numa vala comum aberta na região do Quela, na província de Malanje.

Passados alguns dias, o assunto chega ao governo portuguès que estava em Luanda, o que fez com que tal governo ordenasse o bombardeamento de inúmeras sanzalas da região de Baixa de Kasanji, vitimando uma boa parte da sua poupulação.

Chefe do governo – preparem os aviões, os armamentos, a fim de bombardearmos a zona da Baixa de Kasanji.

E assim foi cumprida a profecia. Milhares de mortos, casas queimadas, famílias desalojadas, mortos e um despovoamento regional.

Elaborado por: Caetano Cambambe; Amélia Vieira; Lucrécia da Fonseca; Engrácia Afonso; Luzia Miguel; Fineza dos Santos; Rosária Issungo; Ahmed Bembo.

[1] NUNES, António Lopes Pires. Resenha Histórico Militar das Campanhas de África. In: Afonso, Aniceto; Gomes, Carlos. Os anos da guerra colonial, 1961-1975, p. 53.

[2] Apud Mota, 2007, p. 189.

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