CANÇÃO E MEMÓRIA COLECTIVA: CASO DO GRUPO UNIÃO MUNDO DA ILHA

Por Domingas Monte

O presente artigo pretende fazer uma abordagem sobre a canção carnavalesca em kimbundu, especificamente a canção entoada e dançada pelo grupo União Mundo da Ilha. A intenção é perceber até que ponto, essas canções podem e/ou representam parte da herança cultural das comunidades ambundu, ancorada na memória colectiva do seu povo.

Trata-se aqui, da canção carnavalesca entoada e executada durante as festividades do carnaval, que culmina com o desfile central dos vários grupos carnavalescos na marginal de Luanda. Os integrantes dos grupos e demais foliões, marcham exibindo-se diante do júri e da plateia em busca da vitória. É nesse momento de euforia, que o semba, a rebita e a varina misturam-se ao batuque e às vozes para dar corpo a festa e a maior manifestação cultural do país. O carnaval reflecte, para além de muitas outras coisas, alegria, e o grupo União Mundo da Ilha exibe isso, como se pode ver no exemplo abaixo:

Mundu olo bokona mu cidade                                        O Mundo está entrar na cidade

Ni kusankuluka  kya atu yoso ni kwimbila                   Com alegria povo a cantar

Mundu olo bokona mu cidade                               O Mundo está entrar na cidade

Ni kusanguluka kya atu yoso ni kwimbila              Com alegria povo a canta

Em termos de composição, e, para o grupo em análise, a pesquisadora Sabuka (2016:17) afirma, “no grupo União Mundo da Ilha, normalmente, os compositores são maioritariamente mulheres com vocação e conhecimento da língua Kimbundu. Elas compõem canções em português e Kimbundu”. Veja-se um exemplo do seu alargado repertório e como ele remete para a memória colectiva e para a tematização de uma das suas bandeiras; o semba:

Semba… semba yetu semba                                                                  Semba… nosso semba semba

União mundo semba… wandala ngoweé semba                        União mundo semba só quer semba

Ô povo indala semba… indala ngoweé semba                           O povo quer semba… Só quer semba

Ô povo indala semba… semba yetu semba                  O povo quer semba… Semba nosso semba

Ikina ngoweé semba…ukina ngoweé ni semba            Dancem só o semba dança só com o semba

No trecho acima referenciado, percebe-se a relevância e a representatividade que o semba exerce na memória colectiva do povo ambundu, como estilo musical característico das suas gentes. Esses textos e de modo particular as canções, objecto de análise, abarcam parte da sabedoria dos seus antepassados, devem e têm sido conservados pelos mais velhos que os dominam, e são propagados nos vários rituais e eventos comunitários, como é o carnaval, para que os mais jovens as conheçam e tomem nota dos hábitos e costumes nelas veiculados, isto na senda, de que todo o conhecimento absorvido é pertença do povo e fica para a posteridade.

“Enraizada na memória coletiva, a tradição oral em Angola é, à imagem do que acontece na África subsariana, um dos veículos de transmissão e de preservação do conhecimento cultural dos povos angolanos deixado pelos seus antepassados. É, portanto difundida, ensinada e gravada na memória do povo, tanto nas zonas rurais como nos centros urbanos, de modo a que aqueles a quem a legaram a vivifiquem, assegurando assim o laço vital entre os vivos e os mortos” Monteiro (2014:20).

Essa herança, ancorada na memória colectiva transmite uma sabedoria ancestral como explica Hampaté Bá (1982:183), “nenhuma tentativa de penetrar a história e o espírito dos povos africanos terá validade a menos que se apoie nessa herança de conhecimentos de toda espécie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discípulo, ao longo dos séculos. Essa herança ainda não se perdeu e reside na memória da última geração de grandes depositários, de quem se pode dizer são a memória viva de África”.

Podemos afirmar que o grupo União Mundo da Ilha, através da sua canção, cantada e dançada, transmite e conserva a herança cultural dos seus antepassados, numa perspectiva de manuntenção da identidade e da tradição do seu povo. Assim, quando entram para o palco, não só festejam, mas, sobretudo, em cada canção, em cada passo de dança, em cada grito, em cada massemba, passam um testemunho, com toda a carga simbólica possível, o legado ancestral. As novas gerações são ensinadas e de forma reiterada nesses preceitos, para a sua perpetuação, ou seja, para dar vida aos espíritos dos anciãos que passaram por essa terra e que continuam a velar pelos seus entes.

In Revista Carnaval. Revista anual do Ministério da Cultura 2018.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa, Cultura Tradicional Bantu, 2ª Edição do Secretariado Arquidiocesano da Pastoral, Luanda, 2014.

HAMPATE Bá A, A Tradição Viva In: KI-ZERBO, Joseph, História Geral da África I. Metodologia e Pré-Hitória de África, São Paulo, Edição Ática/UNESCO, 1982, I Vol. p. 183.

IMPERIAL, Jovelina et. Al., União Angola Independente: Perseverança e Prestígio, Edições EAL, Luanda – 2012.

JÚNIOR, Paixão. Canções do Carnaval de Luanda: Classe B, Edições Decker Mat, Luanda – 2014.

MACEDO, Jorge, A dimensão africana da cultura angolan, Edição INIC/Ministério da Cultura, 2ª Edição, Luanda, 2010.

MONTEIRO, Domingas Henriques, Tradições Nacionais e Identidades: Recolha e Estudo de Canções Festivas e de Óbito Kongo e Ovimbundu, Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, para obtenção do grau de Mestre, 2014.

SILVA, Rosa Cruz e et. Al., Carnaval: E o Ngoema Criou o Carnaval, Edições EAL, Luanda – 2014.

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