DIALOGISMOS EM “NGA MUTURI” DE ALFREDO TRONI

Por Joaquim Caundo

INTRODUÇÃO

Nga Muturi é a típica narrativa oitocentista Angolana, pois retrata inequivocamente e sem sombra de dúvidas a sociedade crioula na qual Luanda estava se transformando na época. Com os portugueses chegando cada vez mais aos milhares e consumando a sua ocupação, nessa que um dia viria a ser a capital do país. O que de uma maneira inevitável levou a miscigenação dos traços culturais de ambos os povos, dentre os quais a obra em questão oferece mais realce aos aspectos linguísticos e religiosos.

Uma sociedade colonial que vinha se desenhando aos poucos e que só depois da Conferência de Berlim (1884-1885) ganhou forma. É por esta cidade crioula e miscigenada que Alfredo Trony (autor da obra em análise) se apaixonou, e como não podia deixar de ser, inspirado pelo cruzamento de duas culturas aparentemente heterogénias escreveu aquela que viria a ser a peça fundadora da narrativa angolana.

A obra foi publicada pela primeira vez em folhetim nos anos de 1882, no Diário da Manhã (Lisboa), desde então foi ganhando reedições dentre as quais a de 1980 pela União dos Escritores Angolanos, e em 2014 recebendo um lugar de destaque entre os clássicos da literatura Angolana.

DIALOGISMOS NA LITERATURA

Originalmente, o conceito de dialogismo é da autoria de Mikhail Bakhtin, que o define como sendo o estudo dos pontos de intersecção entre textos diversos. Em geral, textos escritos na mesma época, quer sejam pelo mesmo autor ou por autores diferentes tendem a coincidir nalguns aspectos cruciais.

É essa relação dialógica que se percebe ao ler as primeiras narrativas angolanas, essa relação de intertextualidade e interdiscursividade resultante de um trabalho de pesquisa levada a cabo pelos autores da época nomeadamente; Óscar Ribas, António de Asssis Júnior e Alfredo Troni. Cada um a seu jeito, estes autores conseguiram de forma artística e magistral registar um dos períodos mais importantes da historia de Angola.

Óscar Ribas traz nas suas obras uma narrativa mais etnográfica por isso foca mais nos aspectos culturais predominantes da época, o dia-a-dia, os ritos e costumes apaixonantes do povo Bantu que o intrigavam e claramente deviam ser levados ao conhecimento dos outros portugueses.

Já Assis Júnior e Alfredo Troni, por se tratar de dois linguístas, estavam mais concentrados naquilo que eram os fenómenos linguísticos resultantes da miscigenação dos dois povos, chegando mesmo a trazer ao de cima muitas vezes o aspecto do crioulismo.

Por se tratar de obras publicadas no mesmo período, o espaço quer o físico como o social coincide, assim como o contexto histórico nelas narrado. Essas obras dialogam entre si de modo indiscutível gerando assim um clima propício para o estudo da literatura comparada, intertextualidade e interdiscursividade.

“Nga Muturi” é classificada como uma noveleta, pois é curta demais para se classificar como um romance, porém longa de mais para se considerar um conto.

A trama é no seu todo narrada por meio de Flashback ou analepse construindo assim aquilo a que o professor João Baptista Cardoso chamou de universo da narrativa.

ʺEnredo ou trama de uma história de evento ou acontecimento (conjunto universo), este, por sua vez, é constituído por acontecimentos marginais ou fatos (subconjuntos do conjunto universo) que evoluem ao longo da narrativaʺ (Baptista :35).

Na obra em análise, a trama evolui desde o começo, ou seja, o conjunto universo começa a ganhar forma no primeiro capítulo, como é possível observar no trecho que se segue.

Nga Ndreza (nome que tem na sociedade de Luanda, uma sociedade onde só avultam os panos, sim, mas que guarda um certo número de conveniências) afirma que é livre, que foi criada em Novo Redondo e pertenceu a família de F… e quando muito, cala-se quando lhe perguntam se é buxila…

A trama começa com Nga Ndreza (personagem principal) já em Luanda, entretanto, sendo o ponto central da narrativa a ascensão da personagem, surge à necessidade de remeter o leitor à sequência de acontecimentos que se desencadeiam nessa ascensão. Por este motivo dá-se ainda no primeiro capítulo o Flashback ou ainda se preferirem uma viajem ao passado da personagem principal.

 Os flashbacks são usados como recurso a serviço do tempo psicológico. O flashback consiste num regresso no tempo, em relação ao momento em que o enredo se desenvolve. No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, a condição de morto é o presente para Brás Cubas, narrador e protagonista da obra. A partir deste presente, a personagem volta ao passado próximo em flashback e conta o seu enterro, seguido de como morreu. Só então remonta ao passado mais distante, relembrandoa  sua juventude e maturidade. Em Nga Muturi podemos observar o mesmo fenómeno.

 … ao ver na casa fronteira o vulto da pequena vendedeira, destacando na sombra do corredor pela luz avermelhada da candeia de Azeite de palma, tem uma vaga recordação de outros tempos passados em umas terras muito longe, de onde a trouxeram quando era muito pequena…

É exactamente neste momento que se faz um breve encaixe começando desde aqui a narrar sequencialmente, ou seja, uma acção dando origem à outra num efeito de causa e consequência. Gerando aquilo a que Aristóteles na sua obra A Poética designou por Verosimilhança.

 ʺA verosimilhança É a lógica interna do enredo, que o torna verdadeiro para o leitor; é, pois, a essência do texto de ficçãoʺ (Gancho 2002:2).

Como já referimos, o acontecimento principal da narrativa é a ascensão da personagem principal, portanto de modo a conduzir o pensamento do leitor a essa ideia e criar um universo onde tal ascensão se torne possível, o narrador vai construindo sequencialmente por meio da narração uma relação entre os acontecimentos marginais como no caso da obra em análise; o momento em que a personagem principal é brutalmente arrancada do convívio com a mãe, passando pelo momento em que é vendida ao seu novo proprietário, os acontecimentos que se dão na casa até a morte do proprietário levam o leitor a dar crédito as ideias que estão sendo narradas criando um efeito verosímil na consciência do leitor tornando assim possível dentro do universo da narrativa que a serva ascenda a Nga Muturi.

O narrador é heterodiegético e omnisciente trazendo de forma clara embora não muito detalhada a vivência das personagens. Conhece o espaço, o tempo e até a emoção dos intervenientes do enredo jogando assim o papel de narrador observador.

Enquanto a trama se desenrola, na tentativa de oferecer mais detalhes ou então dar corpo a narrativa, embalam-se os olhos do narratário com recursos estilísticos que emprestam alguma estética ao texto e enriquece a vivência das personagens como é possível ver no exemplo a seguir.

e a mama, tomou-a então nos braços silenciosa, deixando cair sobre seu rosto uma lágrima bem quente…

O narrador serve-se de um português padrão embora não tão erudito como os que podemos encontrar nas obras de Óscar Ribas, mesmo ambos sendo contemporâneos chegando mesmo a descrever de forma evidente o mesmo espaço social nas suas obras.

O nível de linguagem usado pelo narrador contrasta com aquele usado pelas personagens que na maior parte dos casos chega mesmo a cruzar-se com termos em Kimbundo, gerando assim uma atmosfera crioulisante que é de certa forma coincidente nas obras de ambos os autores, nomeadamente Nga Muturi de Alfredo Troni e Uanga de Óscar Ribas também já aqui mencionado.

 No prefácio da obra Uanga evidencia-se este facto como se pode ver mais abaixo:

O narrador utiliza um português padrão, cuidado, literário, em minha opinião demasiado erudito, justificado pelo contexto político, social e cultural em que a obra foi escrita, só a identificação aparente com a língua do país colonizador, tornavam possíveis a sua publicação. (Irene Guerra Marques 2009)

É importante que se traga este facto a tona porque, uma vez que Óscar Ribas descreve em Uanga, Luanda nos anos 1882, o que acaba inevitavelmente coincidindo com o espaço social e o tempo da obra em análise. Torna-se um tanto quanto impossível falar do contexto histórico de Nga Muturi sem se referir as obras de Óscar Ribas e António de Assis Júnior e reparar nas similaridades que elas carregam. Para mais detalhes ver a segunda parte da presente análise.

O espaço físico da narrativa é claramente delimitado desde o começo, pois o narrador começa por mencionar Luanda como a localização da personagem principal no momento em que a trama se desenrola. Apôs o flashback menciona-se de forma rápida a região de Novo Redondo, voltando outra vez para Luanda onde Nga Ndreza é vendida para o seu novo proprietário.

O espaço social é de uma sociedade miscigenada. Embora ainda em formação e em crescente desenvolvimento. O facto de a personagem principal misturar hábitos cristãos e fetichistas remete-nos a esse cruzamento entre duas culturas completamente distintas, mas quando misturadas resultam numa sociedade crioula, linda e apaixonante.

Os sete capítulos da obra giram em torno do trajecto da personagem principal desde que é vendida até ascender de criada para Nga Muturi. Ao longo desse trajecto mencionam-se muitas outras personagens, algumas com maior realce que outras. Algumas personagens não passam de nomes, títulos, ou até mesmo graus de parentescos como é o caso da mamã, do tio, do Padre, do vizinho, do patrão ou até mesmo da Chica.

A noveleta Nga Muturi é de grande importância para o estudo da literatura angolana e não simplesmente por se tratar da peça fundadora da prosa em Angola, mas também por constituir um documento importante na história da sociedade colonial, seus mistérios e todos os traços que foram herdados pela sociedade actual. A sociedade luandense descrita nesta obra encontra-se algures entre as sociedades tradicionais africanas e as sociedades actuais resultantes do processo de aculturação do qual Angola e todos os países africanos foram vítimas.

É importante realçar-se aqui os aspectos mais relevantes dos quais a obra faz menção como é o caso dos rituais, as práticas fetichistas, a miscigenação entre o cristianismo e os hábitos locais bem como os aspectos linguísticos predominantes da época. Também o empoderamento feminino que apesar de não ser um aspecto muito predominante da sociedade daquela altura ainda assim aparece implícito ao longo da narrativa. Sem esquecer aspectos como a concubinagem, as práticas esclavagistas e a assimilação. Todos estes aspectos encontram-se não só na obra em análise, mas também em obras publicadas dentro do mesmo espaço temporal, o que revela a importância de tais temáticas e o seu predomínio no inconsciente colectivo da sociedade daquela época.

O feiticismo é um aspecto predominante da sociedade oitocentista, sendo referido por outros autores como António de Assis Júnior em O Segredo da Morta onde a personagem principal foi vítima de Njivunji, fruto da maldição deixada pela madrinha de quem ela roubara panos e jóias. Algo semelhante é narrado por Óscar Ribas nas suas obras A Praga e Uanga.

O feiticismo consistia na consulta dos intérpretes dos espíritos, chamados de Kimbandas e era realizado para variadíssimos fins, como podemos ver na obra em análise. A personagem principal recorrre a um kimbanda para poder engravidar, ainda ao longo da narrativa é possível encontrar repetidas vezes o narrador fazendo referência a tal prática, como é possível observar na página 20.

…que lhe vestiram uns panos bonitos, e que uma preta que estava em casa e servia o senhor a mesa, olhava para ela, iracunda, e a ameaçava com o olhar confirmado pelo que lhe dizia as escondidas, de lhe fazer feitiço…

A mistura entre os costumes cristãos e locais também é bastante comum, a título de exemplo pode se tomar o facto de o enterro do patrão ter sido realizado por um padre não por se tratar de um cidadão português, mas porque o cristianismo vinha se enraizando na sociedade luandense, as rezas de Nga Ndreza feitas em Kimbundo. E é facto porque também pode se observar nos romances O Segredo da Morta onde uma das personagens principais no caso Ximinha (a madrinha), apesar de frequentar a igreja e se mostrar cristã perante a sociedade não abre mão de consultar os kimbandas e em Uanga onde a mãe de Catarina após ter rezado a St. António e não ter os resultados esperados recorre a um kimbanda.

Assimilação pode ser cultural ou social, é o processo pelo qual pessoas ou grupos de pessoas adquirem características culturais de outros grupos sociais.  Novos costumes e atitudes são adquiridos através do contacto e comunicação, no qual cada grupo de imigrantes contribui com um pouco de seu próprio traço cultural na nova sociedade. A assimilação cultural normalmente envolve uma mudança gradual e ocorre em vários níveis, tornando-se completa quando novos membros da sociedade se tornam irreconhecíveis em relação aos antigos (Eva Nick et all 2001)

Tal como deixa clara a definição, trata-se de um processo lento e gradual porém de grande influência. É possível notar ao longo da obra um abandono gradual dos hábitos e costumes locais, na maneira de agir e de falar da personagem principal. O processo de assimilação cultural e social começa a desenhar-se em Luanda a medida que os colonizadores foram ganhando mais espaço. Porém as consequências de tal fenómeno são mais notáveis na sociedade actual do que na sociedade na qual a obra foi escrita. Porque tal como já foi acima referido, por incluir vários níveis o processo tende a ser demorado, tornando-se por isso inter-geracional.

O empoderamento feminino é uma problemática pertinente, recorrente da bastante ignorada. É pouco referenciada talvez pelo facto de não parecer tão notável na sociedade daquela altura. Todavia, é possível observar quer em Nga Muturi, O Segredo da Morta e também em Uanga, mulheres subsistindo por conta própria, famílias monoparentais e ainda assim mães solteiras de classe média.

No caso das três obras já mencionadas, as mulheres em questão são todas viúvas, e ganharam os bens de herança. Porém no caso de Ximinha em O Segredo da Morta, ainda antes da morte do marido, ela decide montar o próprio negócio a fim de ter fortuna própria, até porque após a morte do marido, ela abandona a casa onde viviam.

A mãe de Catarina em Uanga mostra-se uma mulher de posses, conseguindo tomar conta dos filhos e viver sem grandes problemas.

No caso de Nga Ndreza é bem claro o seu estatuto, pois como narra a estória ela era respeitada pelas grandes famílias e invejada por outras não simplesmente pelas posses, mas por ser uma senhora de bons hábitos e costumes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TRONI, ALFREDO; NGA MUTURI. U.E.A. 1980

TRONI, ALFREDO; NGA MUTURI. CLÁSSICOS DA LIT. ANGOLANA 2012

RIBAS, OSCAR; UANGA. EDIÇÕES FENACULT 2014

JUNIOR, ANTONIO DE ASSIS; O SEGREDO DA MORTA . CLASSICOS DA LIT. ANGOLANA 2012

GANCHO; CANDIDA VILARES; COMO ANALIZAR UMA NARRATIVA. 2002

ARISTOTELES;  ARTE POÉTICA.

MONTEIRO, DOMINGAS HENRIQUES, Tradições Nacionais e Identidades: Recolha e Estudo de Canções Festivas e de Óbito Kongo e Ovimbundu, 2014

CARDOSO, João Batista, Teoria e prática de leitura, apreensão e produção de texto.

 

 

2 comments on “DIALOGISMOS EM “NGA MUTURI” DE ALFREDO TRONI

  1. Sílvia Mendes
    1 de Maio de 2018 at 22:39 #

    Muito interessante! Fiquei com vontade de ler as obras em questão. Já conhecia os títulos das longínquas aulas de literatura da faculdade; agora acho que vou efetivamente lê-los.

  2. Domingas Monte
    8 de Maio de 2018 at 22:00 #

    Leia, são obras interessantes. Depois pode deixar aqui, as suas impressões.

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