“A Representação da Mulher em “O Leito do Silêncio” de Isabel Ferreira”

Por: Domingas Monte

RESUMO

O presente artigo fala sobre a representação da mulher em “O Leito do Silêncio” de Isabel Ferreira. Pretendemos ao longo dessa abordagem, entender o pensamento e a escrita da autora sobre os vários assuntos que acontecem na sociedade angolana envolvendo as mulheres. O estudo pretende ainda descortinar o papel da mulher na resolução de conflitos, o seu posicionamento como mulher, mãe e mediadora, entre a comunidade e a família; entre o lar e o trabalho; e entre o ensino/educação e os filhos.

A mulher africana em geral e angolana em particular é caraterizada por uma força de vontade que a move, capaz de suportar a todos e a tudo. Ela é o sustento da família e até mesmo da comunidade. Acompanha e educa os seus filhos, mesmo em situações precárias, tendo muitas vezes ter de carregar os seus fardos e o fardo do marido. Transformam-se em “zungueiras”[1], percorrendo as artérias desse imenso país para não deixar faltar pão aos filhos e a sustentabilidade da família. Por outro lado, ela consegue ter disponibilidade para amar e ser amada, despindo-se das capas de guerreira, de batalhadora e garante de comodidade familiar, para desfrutar e usufruir do prazer nesse leito exuberante e ao mesmo tempo sagrado.

Palavras-Chave: Representação, mulher, feminismo, zungueira.

INTRODUÇÃO

A Literatura é a arte de compor e expor escritos artísticos, em prosa ou em verso, de acordo com princípios teóricos e práticos. Esta arte até há bem pouco tempo, assim como em todas as áreas do saber estava essencialmente indicada para os homens, sendo as mulheres relegadas para o Segundo plano.

O plano e o desejo masculino sempre foi marginalizar as mulheres, colocando-as em segundo lugar, seguindo as normas e costumes impostos por uma sociedade patriarcal e machista, com uma conduta arcaica e completamente demolidora sobre a mulher. Com isso, os sonhos e desejos da mulher vão ao longo do tempo sendo manietados e engolidos por essa dinâmica de vida. É preciso acordar e restabelecer ou estabelecer limites entre o bom e o mau, entre o aceite e o não aceite, entre a tradição e a globalização e entre a submissão e a manipulação, para erguer-se e levantar a sua voz, mostrando e vincando a sua visão de mundo sobre as coisas.

O universo da escrita proporciona à mulher uma redescoberta do mundo, do outro e de si mesma. Começa assim a libertar-se dos preconceitos masculinos e machistas e dos estereótipos das sociedades patriarcais para poder expressar os seus sentimentos e emoções livremente.

Quando a mulher entra para o mundo da literatura conquista a sua liberdade, como realça Alberto Mathe, “Acontece que quando uma mulher entra no universo da escrita, o homem às vezes sente-se ameaçado, pois ela já pode falar de si e do mundo sem precisar de um intermediário, tem a liberdade de expressar seus sentimentos e pensamentos acerca do outro e questionar aquilo que é a visão estereotipada do outro sobre ela” (2009:3).

É importante realçarmos, que a mulher africana sempre foi considerada, como a geradora e criadora de filhos. A esse propósito o mesmo autor afirma, “Em várias sociedades africanas apenas cabe a mulher gerar filhos, educa-los e prepará-los para a vida. Razões culturais e políticas permitem explicar a chegada tardia das mulheres na literatura ou a sua fraca participação, por exemplo, a dificuldade de acesso à instrução, as tradições seculares que atribuem à mulher apenas funções relacionadas com a maternidade e criação da prole, os critérios de seleção de obras literárias por editoras, sentimento de incapacidade e falta de estímulo, paternalismo de escrita, tudo isso se resume no pouco consumo de obras de autoria feminina”. (2009:2)

Na atualidade e com o advento da globalização, encontramos em África um número considerado de mulheres inseridas no universo da escrita, e muitas delas em pé de igualdade com os homens. Conquistaram o seu espaço e procuram deixar a sua marca vincada. A escrita permite-lhes reivindicar o seu espaço e explicar o mundo de acordo com a sua visão, sem a imposição dos homens.

A Representação da Mulher em “O Leito do Silêncio”

O Leito do Silêncio é um lugar de encontros e de desencontros. É um lugar de tranquilidade, mas também de relativa agitação, onde soam muitas vozes; umas doces e melodiosas outras em murmúrios, outras ainda em revolta e em gritos como se verifica nos seguintes versos provoca-me!/E parirei as ondas e calemas que há em mim!

Encontramos neste leito, representadas várias mulheres. Muitas vozes quebraram o silêncio que ecoam nesse manto sagrado ou sacralizado por Isabel Ferreira.

Das muitas vozes, das várias mulheres encontradas neste leito, destacamos: a Mulher – Kitandeira e Zungueira. Aquela que circula nas ruas da cidade e mesmo nos bairros de Luanda[2], com uma bacia na cabeça e quase sempre com filho às costas, fazendo uma venda ambulante dos seus produtos.

A palavra “Kitandeira” é como nos explica Domingos Van-Dúnem, um nome que deriva de “Quitanda”, vocábulo pelo qual são conhecidas as vendedeiras que efetuam o comércio sedentário ou ambulante. Essas mulheres conseguiram reverter a sua condição de vida, dedicando-se a essa atividade para sustentar a sua família, como refere o mesmo autor.

“A história bem revelou o esforço e a abnegação da quitandeira que, saltou do lodaçal e soube criar condições que contribuíram para a elevação social e cultural de várias gerações numa renúncia do ignominioso passado que por resoluto impediu a conspurcação da nova sociedade” Van-Dúnem (1987:13)

Etmologicamente o termo “zungueira” vem da palavra em kimbundu “kuzunga” que significa rodear, circular, e que foi aportuguesado para designar vendedora ambulante, uma mulher que anda de uma localidade a outra para a comercialização dos seus produtos (que podem ser: alimentares, roupas, calçados, brinquedos, medicamentos etc.). Essa venda ambulante é feita gritando e ou cantando. Da palavra originária “kuzunga”, foi eliminado o prefixo “ku” e acrescentado o sufixo “eira”, formando uma nova palavra “zungueira”. Esta mulher mãe, esposa, dona de casa encontra-se retrada no poema “A corrida da Zungueira”.

Uma, duas, três… Um monte de zungueiras

Vestem-se de gritos

Preenchem as bocas com as cores do pranto. 

Mulher – Mãe. Esta é a que gera vidas, cria e cuida dos filhos, sendo a sustentadora do lar e da família, podemos encontrá-la em: “Cântico Maternal”.

A noite vestiu-se de breu

Ergue-se a mãe em cantos silentes.

A soneira vagueia entre os lenções macios.

O materno embala o seu enfermo petiz.

Mulher – Batalhadora. É a semelhança da mulher-mãe, símbolo da persistência, ela não desiste, é uma lutadora que tudo faz para prover o sustento da sua família, principalmente dos seus filhos. Sendo a sua maior recompensa vê-los crescer com saúde e segurança; esta mulher está em: “Mulher da Tonga”.

Mulher da tonga! Mulher do campo!

Mulher do silêncio! Mulher guerreira!

Sou eu!

Sou eu!

Sou!

Mulher – Esposa. É segundo Alberto Mathe, companheira do homem, vista como o seu suporte. Ela é que completa os momentos difíceis da sua vida, mas também o acompanha nos momentos agradáveis, como se vê em: “Retalhos de Certezas

A tua onda bramindo contra as rochas…

Não conhece o ritmo da minha ondulação

Nem a doçura da minha maresia.

Trago-te o meu porto de sonhos

Para adocicar o sal das tuas marés.

E se o teu barco não ondula nas noites frias.

Certeza é que os teus lábios atracam no meu cais.

Mulher – Sensual. Essa mulher como afirma a poetisa brasileira, Elenira Vasconcelos no texto introdutório da obra em estudo, está sedenta de satisfação, “A alma feminina, sedenta de amor e cuidado, ilustra um coração e uma mulher que caminha ao dia como uma rainha e se deita à noite devorada pelas luxúrias do prazer,” (2014:9), como se pode verificar nos poemas: “Sublime Instante de te Amar”, “Ao Ritmo do Semba”.

Há noites que danço em ti…

Elegantizo-me como Ester!

Transformo-me em Kianda, deusa do teu leito

Adorno o nosso quarto com lavanda, nardo e mirra.

Há um semba fulgurante à tua espera

Mulher – Amante. Aquela que serve para satisfazer os desejos do marido de forma incondicional, representada aqui no poema: “Na Foz do meu Dongo

Mas tu…? Tu és ébrio por mim!

Tu sabes, e até tens a certeza, que sou a tua concha!

É na minha boca onde te encontras e te perdes…

É no meu corpo que te sentes infinito!

Mulher – Carente. Aquela que se sente desprezada e abandonada, pelo marido, e o seu retrato está em: “As nossas Vivências

Dormir sem te acariciar é um tormento

Morremos dia sim, dia não!

Ardemos se não há resgate… 

CONCLUSÃO

Depois de termos percorrido a obra de Isabel Ferreira “O Leito do Silêncio”, e de termos feito este pequeno exercício, concluímos que esta obra pode e deve merecer outras análises. Do ponto de vista da representação da mulher, ainda podem ser encontradas mais representações daquilo que são as batalhas das mulheres angolanas em particular e africanas no geral, mostrando os seus sentimentos, a suas lutas e o seu empenho na manutenção das famílias.

É ainda possível fazer dentro desta obra, outras leituras, outras análises, buscando novas temáticas, como a problemática do silêncio, o mar, a paz; entre outras que podem ser encontradas depois de um aturado estudo.

Com efeito, podemos destacar e colocar a mulher angolana num pedestal, pois ela representa a força das famílias e de todo um povo que luta para alcançar a sua efectiva estabilidade tanto emocional, como material. E a escritora Isabel Ferreira traça-nos e mostra-nos então nesse seu leito, o perfil da mulher angolana, e como ela trava a luta pela sobrevivência e permanência da família angolana.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Cunha, Raquel Ferro da, (2010), “A Foz Feminina: Constituição da Literatura Pós-Colonial Moçambicana”, Revista Historiador nº 3.

David, Debora Leite “A Representação da Figura Feminina nos Versos de Costa Alegre”,

Ferreira, Isabel (2014), “O Leito do Silêncio”, Editora Kujiza Kuami, Luanda.

Mathe, Alberto (2009), “Representação da Mulher na Literatura Moçambicana”, 7 de Abril de 2009.

Van-Dúnem, Domingos, (1987) “Sobre o Vocábulo Kitandeira”, Edição do Autor, Paris.

[1] Zungueira, vendedora ambulante, uma mulher que anda de uma localidade para a outra para a comercialização dos seus produtos (que podem ser: alimentares, roupas, calçados, brinquedos, medicamentos etc.).

[2] Essa venda ambulante, acontece também nas outras províncias de Angola, porém é mais acentuada em Luanda por ser a capital do pais, onde encontramos o maior fluxo de pessoas.

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