O LEITE DA LATINHA

Há alguns anos, uma colega, professora na mesma escola onde eu leccionava, conversava comigo sobre como fazer com que a Tininha, sua filha de apenas três anos, bebesse leite. Vendo-a tão preocupada, resolvi ajudar e escrevi o seguinte conto para a minha amiga ler à sua filhota:

           “Era uma vez um campo verde, verdinho, cheio de ervas fresquinhas. No campo, havia uma vaquinha preta com manchas brancas, comendo, contente, a ervinha do campo. A vaquinha chamava-se Pintada e era muito feliz porque gostava do campo verdinho, da erva fresquinha e da dona.

             A dona da vaquinha chamava-se Antonica e todos os dias lhe fazia festinhas e à noite, noitinha, levava a Pintada para o curral que é a casa das vaquinhas. Todas as noites, a senhora Antonica tirava das grandes maminhas da Pintada um balde de leitinho que depois ia levar à loja do senhor Ferreira para ele vender.

              E, naquela pequena aldeia, os meninos, de manhã, manhãzinha, bebiam o leitinho vendido pelo senhor Ferreira e que era trazido pela senhora Antonica que o tirava das tetas da vaquinha Pintada que comia a erva fresquinha do campo verdinho.”

            Convicta de que teria ajudado a minha colega com esta historieta da vaquinha Pintada, resolvi perguntar-lhe como iam as coisas com a Tininha.

            – Ana, nem imaginas o problema que me arranjaste!…

            – Porquê? perguntei, perplexa.

            – É que agora, na hora de beber o leite, a Tininha grita: não quero leite da latinha, quero leite da vaquinha!

            Tinha razão, a Tininha! À época do sucedido, decorria o ano de 1984, em Luanda, vivia-se uma grande escassez de alimentos e de outros géneros de primeira necessidade. O leite era vendido, apenas em pó, geralmente em grandes latas de dois quilos. E era preciso diluir bem esse pó em água morna, com muita paciência, pois ainda não existia o leite em pó, instantâneo, como nos nossos dias.

            Entretanto, essas latas, depois de vazias, eram usadas, frequentemente, como banquinhos, nas escolas, onde não existiam nem mesas, nem cadeiras.

            Fiquei a pensar que seria interessante fazer um texto, talvez outro conto, para explicar a situação, mas como fazer entender a uma criança de três anos o complexo processo industrial da transformação dos produtos lácteos?

            Na altura, senti-me consternada e quase que impotente. Assim, decidi não mais me aventurar a escrever histórias infantis, sem primeiro ponderar bem o contexto sociocultural dos possíveis leitores ou auditores.

Ana Bela Alves Primo – 17 de Maio de 2018

One comment on “O LEITE DA LATINHA

  1. Teresa nunes Nunes
    22 de Maio de 2018 at 6:18 #

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