KUDURO: PROMISCUIDADE OU REVOLUÇÃO?

Por: Joaquim Caundo

Todos sabemos que as melhores formas de revolução nascem nas ruas. É simples e lógico na medida em que são os suburbanos e residentes das periferias que sofrem na pele a discriminação e a marginalização constantes vindas das classes dominantes. Ao longo dos séculos, os povos oprimidos sempre encontraram na arte uma maneira de manifestar os seus desejos e anseios mais íntimos, como o sonho pela liberdade, igualdade e, claro, entretenimento.

Segundo o site oficial da Zulo Nation, o maior grupo de Hip Hop do mundo, a arte desperta o que há de mais humano em nós, aguça nossas virtudes e torna-nos mais conscientes do sofrimento de outrem. Ou ainda África Bambata, o famoso fundador da cultura Hip Hop, que apresenta o ritmo, solidariedade e irmandade como características tipicamente africanas.

E, como sabemos, todos estes aspectos encontram-se presentes e enraizados no kuduro, estilo criado por jovens angolanos numa altura em que Angola começava a afirmar-se como um país independente. O kuduro começa nas periferias de Luanda com jovens e adolescentes fazendo animações em festas e discotecas com o simples objectivo de entreter; porém, só ganhou um espaço dentro da cultura “musical” angolana, quando Tony Amado – conhecido como o rei do kuduro – grava a primeira música.

Vários jovens e adolescentes angolanos reviam-se no ritmo e nas letras, o que tornou o estilo cada vez mais popular, principalmente, entre os jovens angolanos que se encontravam na diáspora – que tão logo começaram também a cantar. Entre esses estavam Sebem, Semal, Queima Bilhas, Rei Hélder e tantos outros. Estes faziam o kuduro baseado naquilo que Sebem chamava de paranóias. Sebem, durante muitos anos, dominou o mercado do kuduro com vários hits – junto com Tony Amado, que com os seus muchachos cantaram e encantaram a população.

Tudo mudou, à entrada dos anos dois mil, com o surgimento de vários kuduristas – que revolucionaram o estilo – e com a entrada das senhoras nesse mercado, marcando assim a ascensão de cantoras como Fofandó, Noite e Dia, Nayo Crazy e mais tarde a Gata Agressiva, Própria Lixa. Por alguns anos, o Rangel deteve o monopólio do kuduro, dando para o estilo vários artistas – dentre eles, o mais esquecido nos nossos dias, Magnésio, o autor do hit Tchiriri. Monopólio este que terminou com o surgimento de artistas de outros municípios, como os Lambas, os Defaya, os Turbantes, os Kalunga Mata – vindos do Sambizanga; os Cazenga – vindos do Cazenga; Pai Diesel, Máquina do Inferno, vindos de Viana.

A esta altura o kuduro estava completamente renovado e, ao contrário de paranóias, já havia rimas introduzidas pelos artistas surgidos nos anos 2000, tal como disse Bruno M: “eu não serei arrebatado sem dizer ao kota Sebem e Tony Amado que tudo é criado, mas tarde ou cedo é renovado.” (Bruno M, in 1 para 2).

Os kuduristas têm sido marginalizados de maneiras diferentes. Mesmo que muitos não admitam, existem em Angola jornalistas, empresários musicais e vários intelectuais que não toleram o kuduro nem os kuduristas, defendendo que o estilo nada mais é senão promiscuidade e um incentivo à delinquência. É, de certo modo, controverso fazer tal afirmação, sendo que todos sabemos como o estilo é popular entre os Angolanos e, como disse um músico que muito admiro, “[kuduro] é o estilo de música ouvida por um determinado grupo que revela os seus ideais, suas lutas, seu nível de intelectualidade, bem como seus desejos mais ocultos e profundos” (MCK, 2018, em entrevista ao Made in Angola, TV Zimbo).

Corroborando este pensamento, faço eu a seguinte pergunta: sendo o kuduro o estilo mais ouvido entre os jovens e adolescentes angolanos, será a juventude angolana nada mais do que promíscua e delinquente? Ou será ela o produto de um sistema dominante que a oprime, deixando-a sem opções e encontrando o kuduro como a única maneira de se expressar com liberdade?

Hoje é possível ouvir o kuduro e – sem muito esforço – perceber que o estilo não oferece apenas entretenimento, mas que é também um grito de revolta de uma geração que não tem voz nem vez e que usa o estilo para expressar os seus ideais e as suas lutas. Esse grito de revolta é fácil de ser percebido. A título de exemplo, temos um dos kuduristas mais popular, W King, que canta sobre as injustiças cometidas por agentes da Polícia Nacional – o que também já era feito pelos Lambas, como se pode ouvir no seu hit intitulado “comboio”, bem como por Reino Proibido e Elenco da Paz, grupos que vêm satirizando as vivências quotidianas do povo Luandense, provando assim que é possível fazer-se intervenção social por meio do kuduro. Percebe-se a partir do excerto abaixo:

Ninguém te ajuda, você padece Aparecem quando faleces A família te feitiça O vizinho te cobiça Todo mundo a te fazer massa Você não vê vida É desgraça […]” (sic) (Reino Proibido, in “Galo”).

Felizmente já é possível dizer em alto – e em bom som – que o kuduro é o estilo das multidões, o estilo no qual os Angolanos se reveem graças ao esforço de alguns empresários e do grande impulso dado com a criação do canal BeKuduro, que vem popularizando cada vez mais o estilo por meio de programas, dando assim oportunidades aos fazedores do estilo para apresentarem as riquezas do estilo – Kandongueiro, com a kudurista Noite e Dia; É de mais, com o kudurista Bebo Clone; Kuduro é teu, com os The Twins; Sai Bife, com os kuduristas Pai Profeta e Flor de Raiz, sem esquecer o Top Kuduro, com Francis Boy.

Trackbacks/Pingbacks

  1. 8 factos que acompanharam o crescimento do kuduro - 27 de Fevereiro de 2019

    […] das rimas, tinhamos as paranoias do Kota Sebem e Kota […]

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