A Imagem da Mulher (zungueira) na Música “Zungueira” do grupo Elenco da Paz

Por Caetano de Sousa João Cambambe

A música (no caso concreto do kuduro), para além de ser uma arte, é – na nossa forma de ver – um instrumento de intervenção social muito poderoso. Por intermédio dela – ou dele –, muitos são (ou foram) os “mudos” que ganharam “voz” e hoje têm toda a liberdade de sair por aí questionando “artisticamente” o modus operandi daqueles que detêm o poder público, assim como as condições sociais a que estão submetidos, fazendo com que os “surdos” que dirigem a coisa privada “ouçam” os gritos emitidos por aqueles mudos que, fartos dos dias actuais e das promessas incumpríveis, clamam por mudanças e melhorias.

Todos nós sabemos que vivemos num país rico (é preciso fazer recordar-lhes do texto “Angola é um país rico”?). Porém, essa riqueza, ao que se nos parece, é propriedade privada de uns, no caso daqueles que têm o controlo remoto do País em sua posse, sendo finalmente a pobreza, a miséria, entre outros males afins, um bem “essencial” e “indispensável” aos pobres.

A África, em comparação a outros continentes, apresenta provas de que é um dos mais carentes e necessitados de todos. Assim sendo, problemas é o que não falta. Uns têm direito a tudo, e outros, porém, têm direito a nada, mas ambos cumprem aproximadamente os mesmos deveres; têm sangue vermelho; respiram todos os mesmos ares; são enterrados a 7 metros da terra; são de carne e osso; foram criados por um só Ser; são iguais perante as leis; todavia, diferentes social e economicamente. Entretanto, nem todos têm a coragem de vir a público reclamar sobre isso diante daqueles que dirigem a coisa “privada”, talvez para que não sofram “consequências”.

Com efeito, o kuduro – assim como os outros estilos musicais – dá essa primazia e liberdade àqueles que, por meio da sua veia artística e pela capacidade que têm de reportar “artisticamente” variados problemas que afligem um grupo social, procuram trazer a público, por meio de um instrumental comparado a uma corrida de Moto GP ou ao Sonic, uma crítica aos costumes e hábitos actuais.

Para além de nos entreter, o kuduro, para os mais atentos, leva-nos também a reflectir sobre as diversas problemáticas do quotidiano (do) angolano. No caso concreto de Angola, nem todos ganharam a mesma sorte. As condições sociais não são as mesmas para todos os angolanos, donde uns têm privilégios sociais e económicos – e, por essa razão, frequentaram a escola, formaram-se e tiveram a sorte de ocupar um dos bancos principais nas mais variadas empresas –; outros, porém, por nascer numa família que nem sequer faziam ideia, deram no duro para, posteriormente, limpar a imagem paupérrima dela, isto é, passando pela parede e pela espada só para conseguir um reconhecimento educativo e profissional.

Como nem todos têm a mesma sorte, uns “partiram o lápis muito cedo”, por carecerem de apoios morais e materiais, e outros, no entanto, estudaram mas não conseguiram encontrar uma vaga nas empresas para que pudessem colocar na prática o que teoricamente aprenderam nas escolas básicas ou médias de formação de quadros.

Como a barriga não depende do encontro de um emprego para ser sustentada e, por isso, alguém tem de se virar para, de seguida, responder aos constantes apelos feitos pelas “lombrigas”, vários são os angolanos que encontraram a “zunga” como o principal meio para sustentar a si e aos seus familiares.

Entretanto, de segunda a segunda, das 6h às 18 – por vezes até mesmo às 21h –, abandonam as suas casas, as suas famílias –por vezes deixando uma criança a cuidar doutra –, para ir atrás do pão, do dinheiro para pagar a saúde, a educação, a alimentação, a habitação, entre demais necessidades.

No dia-a-dia, têm-se deparado com muitos obstáculos, já que a venda na via pública constitui uma penalização “criminal” por parte de quem for encontrado a proceder-se de tal forma, restando-lhe assim somente duas opções – ou ver o sol aos quadradinhos, ou ter de pagar uma multa para ser colocado em liberdade –, e é a partir disso que o grupo musical Elenco da Paz, concretamente com a música Zungueira, surge para dar voz àqueles que não a têm; para dignificar o grande esforço tomado por aqueles angolanos que, diariamente, percorrem Angola toda com uma banheira sobre a cabeça, bebés nas costas, passando sol, fome, poeira, sede, frio, riscos, enfim, só para que em casa não falte um pão seco com chá, um arroz branco para as crianças, uma vela para que os filhos, à noite, possam fazer a tarefa; para que não falte uma peça de roupa aos filhos.

Ou seja, surgem para demonstrar o quão importante são essas mulheres, que vão facilitando cada vez mais a vida de seus compatriotas, ao venderem porta a porta produtos “acessíveis” e a “bom” preço.

“Mulher zungueira é mulher de batalha

Que faz tudo para ter um pouco

Mesmo com pouco, ela luta

De cima a baixo com o seu negócio

O sobe-e-desce nunca pára

Tudo pelo pão de cada dia

No fim de tudo há benefício

Pela vossa força e energia

És uma mulher guerrilheira, batalhadora e sofredora 5h começa a batalha

Os filhos choram toda hora

Carregados pelas costas

Quando chega 18h, lá em casa não falta o jantar

Zungueira, mulher batalhadora

Trabalha todos os dias

Ela não depende da hora

Na via, de dia ou de tarde

Ela não pára, para sustentar os seus filhos

….

Acordo de manhã, pronto para zunga

Com muita força de trabalho

Caminhando na Praça do Tunga

É muita moral e alegria

Procurando o pão de cada dia

[…]

Vou zungar feijão […] para sustentar a minha filha

O dia está no fim

Na cidade eu vou andando

Meu negócio multiplicando

Sim, cada vez mais

Eu ando, de baixo para cima

Não importa qual é o meu clima

Kitandeira, sofredora,

Mulher decente, trabalhadora Mamá! Mamá!

Com bebé nas costas, vamo mbora

[…]”

Elenco da Paz, a partir do excerto acima, enaltece o trabalho prestado pelas mulheres zungueiras, traça a trajectória por que passam ao longo do dia, assim como faz sentir a todos a verdadeira dor que as zungueiras sentem, quando são interpeladas por agentes da PN e fiscais dos governos provinciais.

Curiosamente, estando bem ou não, quer fisicamente, quer psicologicamente, elas sentem-se obrigadas a trabalhar, durante um longo período de tempo, para que em casa não falte nada aos filhos. Levantam-se da cama praticamente as mesmas horas que um funcionário normal levanta para ir trabalhar.

Ao que se nos parece, trata-se de uma “profissão” como qualquer outra, embora nessa haja mais riscos em comparação às outras, como fugir sempre da polícia e dos fiscais, atravessar a estrada a correr para que não sejam apanhadas por tais agentes, passar o dia todo com peso nas costas, aguentar um período longo debaixo do sol e com fome, passar pela linha férrea, mesmo se o comboio estiver próximo.

No final de tudo, não são só elas que sofrem, porque, geralmente, estão sempre com um recém-nascido nas costas. Por vezes, são também sacrificados da mesma maneira como as mães se sacrificam.

“Essa banheira”, a partir do excerto acima, dá-nos a entender que se trate de um bem essencial para aquelas mulheres, que a têm como um meio no qual “escoam” os seus “produtos”, andando assim de cima a baixo por Angola toda. Essa banheira compara-se a colher, à “talocha” ou ao “andaime”, para um pedreiro; à chave, para um mecânico; ao “soco” e à “veica”, para uma charrua; a um motor, para os carros e motorizadas; a uma cadeira-de-roda, para alguém com necessidades especiais; à caneta, para um poeta ou escritor; a voz, para um jornalista, músico, advogado, juiz ou professor; a um volante, para um motorista; ao oxigénio, para os homens; às luvas e ao alicate, para um electricista; a uma gulha ou seringa, para um médico; ao gasóleo, ao óleo e à gasolina, para um carro, motorizada ou um gerador; ao tinteiro e ao papel, para uma impressora; à internet e aos livros, para um estudante; à madeira, para um marceneiro, enfim. Como já dissemos e voltamos a repetir, é a partir daquela banheira em que as zungueiras conseguem sustentar-se. É de lá onde sai o dinheiro para a formação e educação de seus filhos, muitas delas já viúvas ou mesmo abandonadas pelos maridos.

A partir do excerto que se segue, entende-se a importância que a banheira tem para as zungueiras. Quando retiradas delas, sentem-se como se o mundo desabasse sobre elas, isto é, como se lhes tivessem sugado todo o sangue ou mesmo lhes arrancado um dos órgãos principais do corpo: o coração.

“Na minha banheira tem de tudo um pouco

[…]

A esperança e o futuro

[…]

Tem formação e alimentação

Tem formação e educação

Casa, mobília e a felicidade para a minha família

Se soubesses o quanto é importante esta banheira na minha vida

Não tocarias,

Não mexerias e nem levarias”

A presente música, para além de ser um meio de defesa ao trabalho exercido pelas mulheres “zungueiras” e não só – uma vez que haja homens que exercem também tal actividade –, surge também como uma crítica direccionada ao modus operandi dos agentes da Polícia Nacional e da Fiscalização dos governos provinciais que, se esquecendo do valor humano da pessoa e da ética deontológica inerente às suas profissões, as tratam como se fossem objectos, como se fossem tudo, menos pessoas que sentem na pele o quão doloroso é ser humilhado.

Na nossa forma de ver, só ocorre o que ocorre – a venda na via pública – por falta de oportunidades de emprego, mercados criados sem estudos de viabilidade, assim como a ausência de postos de trabalhos.

Nalguns casos, muitos empregadores chegam a exigir muitíssimos anos de experiências a pessoas que terminaram a formação recentemente. Assim sendo, não tendo tal requisito, preferem a venda ambulante para se auto-sustentar a ficar em casa de braços cruzados, vendo o dia passar, o sol a abrir e a fechar, a energia a “ir” e a “voltar”, as poeiras daqui, as poeiras dali.

Em muitos casos, tais vendedoras chegam a perder a vida, ao tentar escapar-se da polícia ou então dos agentes afectos às fiscalizações provinciais ou municipais. Em outros casos, elas procuram medir forças com os agentes da PN ou da Fiscalização, talvez pelo mau tratamento ao qual têm sido submetidas.

Há tempos, na Vila de Viana, houve um agente da PN que passou por uma tamanha humilhação, isto é, foi espancado pelas zungueiras, à semelhança que muitos agentes fazem a elas, como se tratasse de uma “vingança”. É uma música que nos convida a reflectir sobre o modus operandi dos agentes da PN e da Fiscalização, a importância da mulher zungueira na sociedade angolana, assim como as políticas públicas emanadas pelo Governo, que nunca foi a solução perfeita para se erradicar o fenómeno “zunga”, senão mesmo um atalho à morte, à revolta, à desestruturação familiar, entre outros males afins.

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