A PERSONALIDADE DO KUDURO

Por Isaac Hossi

“A música é a alma do universo, sem ela o universo não teria passado de apenas uma explosão, ela traz harmonia ao caos.”

Uma pergunta que me faço frequentemente é “o que será que faz as pessoas dançarem tanto ao ouvir “cinco” ou “seis” palavras repetidas sob o fundo de uma batida provavelmente produzida com três ou quatro hits e uns tantos ‘boom backs’, enquanto o sujeito ‘kunangava’ à entrada de casa?”.

Bem, se me perguntar qual seria a resposta, não faço a menor ideia. Ou talvez faça, mas na tentativa de manter o mistério da ‘coisa’ vivo, prefira negar-me a ciência do porquê. Não é fácil resistir à tentação de por fim incorporar o motivo do porquê tanto ‘alarido’ por alguém dizer “a felicidade, todos nós queremos” ou “wassa, wassa”.

Mas mais difícil ainda é negar que estas duas ou três palavras repetidas têm o poder de juntar almas num propósito, conectar pessoas, amolecer as nádegas do(s) ‘ku-duro(s)’, quebrar as barreiras das classes sociais, juntar quem pouco, muito e quase nada tem com aquele que nada pode fazer além de esperar ter.

É nessa oposição, entre meras letras que fazem os pés (nádegas, frequentemente) desconhecerem o descanso e as composições educativas ou apelativas que levam as mãos às consciências das pessoas, que o kuduro se afirma como parte importante da cultura e costume de muitos angolanos.

Há muito que ele deixou de ser apenas uma forma de entretenimento, um mero passatempo – hoje é todo uma cultura. É uma forma de agir, de ver as coisas, de se comportar. Assim como é possível distinguir cantores de rock ou sertanejo (dois estilos que carregam muita personalidade) pela roupa, forma de agir ou até mesmo de pensar, já se vê que os kuduristas vão aos poucos atingindo esse status – se isso é bom ou não, não vem ao caso, aqui pelo menos – diferente, por exemplo, de cantores que vão alternando entre os estilos (semba, kizomba, zouk); os kuduristas, maior parte, têm uma personalidade que os caracteriza como tal.

Vejamos casos recentes como Noite e Dia, Flor de Raiz ou a mais recente ‘sensação do kuduro’ – Bad Orguita, a forma de apresentar-se, o jeito de falar, a ousadia, as alcunhas, a energia, em suma, a personalidade remete-nos ao kuduro. Não é impossível, mas é difícil ver ou ouvir dizer sobre a cantora Poca-py e ligarmos de imediato, por exemplo, com o zouk, sungura, semba ou kizomba. Por outro lado, se olharmos para uma cantora como Pérola ou Ana Joice, há uma variedade de estilos musicais que estas poderiam inserir-se.

Outro exemplo muito visível da ‘personalidade do kudurista’ é o Nagrelha, autoproclamado Estado-maior do Kuduro, que, mesmo tentando respirar novos ritmos em “Não me tarraxa assim”, inconfundivelmente deixou a sua marca de kudurista na música.

Muitos outros são exemplos de uma “personalidade do kuduro”, Pai Banana, Bruno King, Rei Panda, Panda da Lei, Jéssica Pitbull, Própria Lixa (já falecida) e muitos outros. No entanto, é necessário clarificar que essa personalidade não é transversal, ou seja, cada um desses artistas tem o seu próprio estilo dentro (da personalidade) do kuduro. Claro, há sempre as ovelhas descoordenadas que tentam sair do rebanho, cantores que passam pelo kuduro apenas por ser um estilo do momento ou uma forma de ser lançado ao mercado.

Assim sendo, a ‘personalidade do kuduro’ seria o conjunto de características distintas que os kuduristas têm e que constituem a alma do kuduro e, portanto, é importante como limites do saber fazer kuduro.

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