Kuduro: vanguarda versus ecletismo

Por Estêvão Ludi

A liberdade estética, como produto da Vanguarda e do distanciamento do purismo para evidenciar o ecletismo, marcou o ambiente do som e do ritmo da década de 90. Com influências, talvez, de uma dança nascida nas ruas dos Estados Unidos da América, denominada break-dance, uma dança marcada pela coreografia de talento individual. Kuduro é um género musical constituído pela dança e música, os dois traços transcrevem a sua performance. Os movimentos do corpo emigram, formando textualidades. Geralmente, há sincronia entre o tipo de dança e o título da música; é uma combinação que se cria para satirizar e entreter, ao mesmo tempo. Provavelmente seja esta a razão de imitação da natureza para aproximar o homem do universo material, a partir da dança.

Assim, pode-se observar decalque ou reprodução de movimentos e comportamentos de cão, de gato, de ladrão, de mentiroso, de rico, de pobre, etc., a preencher a coreografia; muitas vezes, a representação é feita a partir do traje do artista. Neste e noutros casos, a leitura da mensagem não deve ser limitada, deve interpretar-se a fusão da cor com o som. Nisto consiste a polaridade da arte: o bem pode ser representado como sinónimo de humildade e/ou de sofrimento, o mal como poder, arrogância e/ou felicidade. O criador da arte, no caso o kudurista, tem dois suportes onde explora a sua capacidade criadora para impressionar o público consumidor.

Deste modo, a exemplo de outros ritmos, o Kuduro é um estilo que apresenta uma característica “de arte funcional” e não é uma “arte gratuita”, somente com uma finalidade estética. Cada parte do texto, neste ritmo, produz duas finalidades: estética e social. Entretanto, pelo que se pode perceber, o criador da arte só poderá atingir a sua excelência quando este consegue influenciar o consumidor pela magia da sua perícia, fazendo comover e ser comovido. Os produtores deste género de música associam vários elementos para comover o consumidor e atingir a estética, apoiando-se na vanguarda e no ecletismo. A recriação é feita na melodia, na letra, nos instrumentos e no espaço ou ambiente. Todos estes elementos se associam aos movimentos corporais, que é um dos principais ingredientes na composição da música como um todo.

Por ignorância ou mesmo por desprezo, os puristas são os primeiros a criar deturpações na interpretação do rico folclore kudurista. Mesmo assim, os consumidores acabam por ditar o “top moda” de cada ritmo criado. A crítica nem sempre sai a favor da arte, às vezes é feita somente para defender uma ideologia musical.

O cantor De Gala, na música “Mostra Tudo”, quando diz: «mostra tudo mostra/dá do cambwa», ilustra um sujeito poético preocupado com uma realidade consumista, sem critérios. A simbologia do cambwa (cão) é uma crítica social que não se pode olhar só do lado obsceno da dança, há que se reflectir sobre a imagem deste animal. Se olharmos para outros parâmetros artísticos, encontramos também os mesmos enunciados, como por exemplo, em Paulo Flores e Bonga, evocando o cambwa (cão). Afinal, a liberdade na criação artística deve ser respeitada – talvez o artista tencione despertar a sociedade sobre certas práticas associadas ao cambwa (cão).

Na construção das letras no estilo Kuduro encontramos, também, vários fenómenos que transcrevem a vanguarda e o ecletismo, desde improvisações de letras, apócopes até mesmo “monotongações”. Estes fenómenos são visíveis não só neste estilo, mas também na música angolana em geral. Diferente dos outros dois fenómenos, a improvisação é uma característica que espelha a produção de letras sem preparação, algo produzido de repente. Há letras escritas com este carácter – apesar de traduzirem a sensação de algo feito às pressas, pois transmite um espírito eclético.

O improviso, muitas vezes, surge na letra e no ritmo. Neste caso, estabelece-se um entrosamento, onde a combinação dos dois elementos acaba por criar efeitos agradáveis. Para o caso de apócopes e “monotongação”, estamos diante de características fonéticas e fonológicas de termos, que, propositadamente ou por influência da fala, apresentam elisão de letras, como se pode verificar no trecho da música “Tó a cair com cadeira”- de autoria de Pé de Galo:

Mó ndengue, vamos deste lado, ya

Papoite, vamos doutro lado, ya

Tó a cair com cadeira

Tó a cair com cadeira

Tó a cair com cadeira

Tó a cair com cadeira

Tó a cair com cadeira

Mesmo a ver que já estou boyado

Os kotas tão sempre a pagar

Em (Meu) e em (Estou) temos um caso do fenómeno “monotongação”, onde os ditongos “eu e ou” foram aglutinados numa só vogal para uma só emissão de som ou tom. Este processo explica-se a partir de fenómenos culturais, em que a língua de primeira pode estar na base disso. Hipoteticamente, o morfema (ou) é um caso de elisão vocálica que o artista tenciona transmitir, ao transportar os elementos discursivos da fala comum para a música, ou seja, eliminou-se uma vogal. No morfema (eu) o fenómeno é o mesmo, mas a harmonia vocálica foi feita pela substituição de outra vogal.

Neste caso, pode-se falar de migração cultural no nível da língua, em que, no nosso entender, pode vir a ser o caso de inexistência do processo de ditongação nas línguas bantu. Para se adaptar a certos processos da fala, os falantes recorrem a vários mecanismos interdiscursivos, onde a migração se processa também. Numa segunda análise, temos dois casos, e Tão, e estamos diante da elisão de morfemas es, talvez pela lei de menor esforço, e/ou como já enunciamos. Todo este processo de simplificação envolve a chamada apócope, que é muito utilizada na literatura. O certo são os termos Meu, Estou e Estão.

Esta criatividade artística no Kuduro nem sempre é tida em conta pelos fundamentalistas que analisam a arte, apoiando-se no classicismo. Na verdade, apesar de haver linhas e modelos em qualquer actividade, o artista é definido pela singularidade da sua arte. Existem traços comuns que permitem incluir um autor numa determinada categoria da música, da pintura ou da escultura. Mas é da diversidade estética que se criam estilos individuais e ímpares. Não cabe ao crítico julgar a razão de escolha de categorias e de estilos, vale, pelo contrário, identificar as possíveis motivações, elencando os pontos que formam a criação no todo.

Não sendo uma ofensa à moral social e porque os artistas fazem parte do leque de indivíduos preocupados com a sociedade, os fazedores da música compõem aquilo que observam. O meio faz o artista, por um lado; por outro lado, o artista faz o meio a partir da sua invenção ou criação. Entretanto, caricaturas e quebras de tabu na língua são encaradas como insulto e atentado às normas sociais. Em muitos casos a intenção é de utilizar disfemismos para eliminar tabus, principalmente os comportamentos que parecem negativos à comunidade. E, muitas vezes, os kuduristas utilizam esta dinâmica linguística, pois esta manipulação da língua visa preencher o suporte musical que é composto por tabu da ordem religiosa, ética, supersticiosa ou emocional.

Em todos os casos, os falantes, que são considerados produtores da mesma língua, estabelecem normas basilares para o funcionamento adequado da mesma. Para tal, a estrutura de cada língua permite, no nível de sintaxe ou de semântica, concretizar a harmonia no seio da mesma comunidade linguística. Esta harmonia resulta na escolha de termos ou ideias para exprimir a realidade material ou imaterial, criando, assim, o chamado estilo individual e colectivo. Este limite nem sempre vigora na arte, o artista produz a realidade material, optando por um determinado estilo.

Em Filhos da Pátria (obra literária de João Melo – 2001), encontramos um exemplo de ecletismo na actualidade literária angolana), alguns disfemismos. A beleza da arte que o autor demonstra na sua obra ultrapassa a visão dos puristas. Na referida narrativa, cada realidade é designada pelo seu nome comum, como se diz: ela por ela. Inversamente, quando esta intenção surge no seio de uma categoria musical, como é o caso do Kuduro, a censura é visível.

Afinal, é a música que cria o distúrbio social ou o comportamento denunciado pela música é o autor da desordem social? Contudo, é caso para se dizer que o Kuduro é uma expressão da vanguarda e do ecletismo na música angolana. O desprezo do produto que se produz, hoje, pode levar-nos a pagar três vezes mais amanhã. Fui embora (Preto Show, Noite e Dia e Biura), Angola bué de Caras (Dog Murras), Manga de 10 (Papá Sweg), Tó a cair com cadeira (Pé do Galo) e Abre o livro (Noite e Dia) são, entre outras letras, exemplo de crítica social que caracteriza o comportamento da sociedade de hoje. Sejamos, nós, os primeiros a valorizar o que é local e não esperemos que a valorização parta de fora.

Considerações Finais

Diante de qualquer actividade, a arte prima pela excelência e pelo profissionalismo. O talento nasce pelo esforço constante aplicado na profissão. Mais que um simples exercício, a arte é uma das profissões onde cada artista demonstra o “poder” da sua magia. A finalidade é sempre cativar o consumidor. Para isso, a criatividade deve superar a exuberância daquilo que é usual. Nisto consiste a liberdade de criação e recriação.

A vanguarda e ecletismo são duas realidades que estão presentes no estilo Kuduro para marcar a diferença daquilo que cada artista produz. Mais que criticar, seria ideal identificar-se a “matéria-prima” que inspira os kuduristas para, diariamente, continuar a criar sons e danças feitos num estilo sem tabu. A decadência da moral, a falta de solidariedade, a prepotência, a prostituição, a falta de emprego e o improviso religioso são motivos que podem estar na escolha da vanguarda e do ecletismo.

Suavizar a linguagem ou a dança poderia, e sem dúvida, ser um dos estilos a adoptar, mas não se trata de seguimento de modelos, canonicamente, estabelecidos pela tradição clássica. Hoje, cada autor é um autor. Longe do olhar de quem não quer ver os reais motivos, a mensagem é transmitida de diversas maneiras, imitando e aproximando o real social, ou seja, estamos diante de uma sátira. A arte equivale a novos estilos e à experimentação de novas formas e movimentos, às vezes oposta ao quadro do modelo-padrão. Assim é a arte, assim é a arte de Kuduro.

2 comments on “Kuduro: vanguarda versus ecletismo

  1. Leal Mundunde
    27 de Setembro de 2018 at 14:05 #

    Antes porém,as minhas saudações ao autor do texto.
    Carissimo Ludi,as minhas felicitações pela reflexão em torno deste estilo muito consumido a nivel do país e em várias partes do planeta…
    Parabêns por abordado com profundidade sobre o assunto em questão.As vezes muitos limitam-se pela critica e esquecem-se do aspecto positivo do estilo cujo mentor é Tony Amado e muitos o cinsideram como rei e outros alegam ser o Seben(rápidas melhoras).
    É um texto para continuarmos a ler…
    Saudações do Poeta Leal Mundunde

    • Leal Mundunde
      27 de Setembro de 2018 at 14:10 #

      Antes porém,as minhas saudações ao autor do texto.
      Carissimo Ludi,as minhas felicitações pela reflexão em torno deste estilo muito consumido a nivel do país e em várias partes do planeta…
      Parabêns por abordado com profundidade sobre o assunto em questão.As vezes muitos limitam-se pela critica e esquecem-se do aspecto positivo do estilo cujo mentor é Tony Amado e muitos o consideram como rei e outros alegam ser o Seben(rápidas melhoras).
      É um texto para continuarmos a ler…
      Saudações do Poeta Leal Mundunde

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