CONVERSA COM ABREU PAXE – SARAU POÉTICO LITERÁRIO, 1.ª EDIÇÃO

“Bom, eu não olho para a literatura angolana entre antiga e moderna, não; não olho para esse lugar, porque para a minha compreensão hoje eu olho, ou seja, todos os fenómenos que acontecem na vida explicam-se na cultura, do mesmo modo a literatura explica-se na cultura. Entretanto, olhar para a literatura, seja ela um texto poético, seja ela um texto de prosa, seja o texto dramático ou qualquer outra forma de composição artística, a sua sustentação está na cultura, o seu aspecto de contextualização”.

DM: Mais uma vez, obrigada a todos. Vamos começar a nossa conversa com o escritor, docente universitário e investigador, Abreu Paxe. Como prefere que o tratemos?

AP: Abreu Paxe, como no bilhete de identidade.

DM: Como no bilhete, okay. Abreu Paxe vai falar-nos um pouco do seu percurso, da sua vida como escritor, professor e investigador também. E como sabemos e temos lido sobre a sua vida, o nosso convidado entra para o mundo da literatura como vencedor do prémio António Jacinto, certo? Fale-nos dessa experiência.

AP: Sim! Eu escrevia e estudava, era estudante do ISCED de Luanda. Ao longo do meu período de formação, eu partilhava as páginas do Jornal de Angola com a minha confreira Kanguimbo Ananás, na rubrica Vida Cultural, onde publicava os meus textos.

Então, quando eu concluo o curso de Língua Portuguesa – é uma licenciatura meio polémica, não sei bem como se diz, parece que é Linguística Portuguesa, alguma coisa assim. Quando eu termino o curso de Língua Portuguesa, ou seja, a fase curricular, em função dos estímulos que fui recebendo das pessoas que estavam nas lides literárias, entre eles o João Maimona, que me aconselhou a concorrer ao prémio António Jacinto de poesia.

Aí, eu e ele, mais ele que eu, cuidamos de seleccionar alguns poemas, mos entregou, eu não fiz nenhum tipo de observação, aceitei apenas o que ele propôs e fiz a candidatura. Duas semanas ou mais, se calhar já não me lembro bem o tempo que leva para anunciarem o prémio, só sei que um tempo depois recebi um telefonema da organização, INALD (Instituto Nacional do Livro e do Disco), a informar-me que eu tinha ganhado o prémio António Jacinto de poesia. Foi Assim.

DM: Muito obrigada. Considera João Maimona como o seu mentor?

AP: Quer dizer, o João Maimona facilitou este processo para o prémio, independentemente das relações que nós tínhamos. Mentor não sei; quer dizer, a palavra mentor é um pouco perigosa, meio que central; quer dizer, centralizada. Tenho até agora mantido momentos interessantíssimos e profundos, sinceros mesmo, com João Maimona, partilhamos muitas inquietações, sobretudo coisas ligadas à literatura, e acho que prefiro considerá-lo como esse outro lugar da contribuição a propriamente um mentor, porque ele não tem jeito para isso, ele nem tem jeito para ser pastor, não tem jeito para fechar as pessoas assim numa caixinha. Mas ele sabe espevitar as pessoas para as coisas sérias da vida e ele nesse aspecto jogou o seu papel.

DM: Como é que entra para o mundo da escrita, em que fase da sua vida e como começou?

AP: Bem, como comecei não sei, porque essas coisas não são programadas. É como acordar, uma pessoa quando acorda não diz que vou acordar, uma pessoa pode se levantar, pode decidir levantar-se, mas uma pessoa não diz que vou acordar, uma pessoa acorda!

E é a mesma coisa que acontece quando alguém também escreve, se inicia na escrita. Mas eu tive sinais, sinais assim orientadores ou marcas – algumas marcas que me foram orientando enquanto estudava. Aquela coisa de escrever cartas para as colegas, homenagear, retirar versos bonitos de livros que lia ou de poemas. Esse na verdade foi o ambiente que agora compreendo que foi me aproximando à ideia de querer escrever, de fazer literatura e coisas assim. Acho que, pronto, para início, é esse início que eu lembro que teria.

DM: Como é que classifica a literatura angolana, a antiga e a moderna, como faz, qual é a visão que tem da literatura escrita angolana?

AP: Bom, eu não olho para a literatura angolana entre antiga e moderna, não; não olho para esse lugar, porque para a minha compreensão hoje eu olho, ou seja, todos os fenómenos que acontecem na vida explicam-se na cultura, do mesmo modo a literatura explica-se na cultura. Entretanto, olhar para a literatura, seja ela um texto poético, seja ela um texto de prosa, seja o texto dramático ou qualquer outra forma de composição artística, a sua sustentação está na cultura, o seu aspecto de contextualização.

A cultura angolana é aquilo que nós sabemos que tem níveis de complexidades grandes. Agora, a literatura angolana, ela como uma coisa criada, inventada, vai ser pensada nos moldes clássicos da literatura. Mas, ao olhar para a literatura a partir destes moldes clássicos vemos que muita coisa fica de fora – mas fica de fora no sentido de como nós podemos disciplinar a nossa forma de abordar a literatura, porque se olharmos para o escritor comum, António Jacinto, mesmo Agostinho Neto e outros, vamos ver que eles vão buscar muitos aspectos que estão ligados à pré-Angola, aquele lugar que não é o lugar de Angola ainda, porque Angola passou a constituir-se depois; depois do processo colonial dos europeus, então, muita coisa da pré-Angola que entra na órbita da literatura, então aí quando eu começo a fazer a divisa entre o antigo e o moderno, eu posso ter dificuldade de reconhecer naquilo que é actual, as coisas antigas que estão lá.

A forma como as literaturas europeias se constituíram justificam um grande favor da construção filosófica e das inquietações filosóficas e científicas. Aliás, a própria literatura vai sustentar-se nessas inquietações filosóficas e científicas, como é o nosso caso. Agora, nós é que temos que ver as nossas, ou seja, temos que ver a partir do que a cultura vai nos dando, como é que nós podemos reorientar o olhar para essa literatura, eu olho para essa literatura desse modo.

Então, para mim, se os provérbios já estavam nas pinturas rupestres como disse Eduardo dos Santos, não o presidente, mas o etnógrafo português, se as pinturas rupestres já estavam nos Lunda Cokwe, então se calhar, provavelmente, a literatura angolana ou as formas de escrita, desenho de escrita, podiam começar nas pinturas rupestres, e quanto não também as manifestações artísticas.

Para aquilo que é o prospecto da teorização do fenómeno literário como das artes, acho que nós temos uma responsabilidade muito grande de ir criando uma epístola que saia deste lugar, do colonial, desse lugar que no fundo nos amarra com o inconsciente colonial. É a minha opinião sincera sobre o fenómeno literário.

DM: Fala de uma reconstrução da literatura, dos fenómenos literários e culturais. Eu pergunto: é possível fazer isso? De onde partiríamos para essa reconstrução do fenómeno literário angolano?

AP: A moeda de cem kwanzas: alguém tem uma moeda de cem kwanzas aí? A moeda de cem kwanzas, depois do último zero, tem aí um desenhozinho, não tem uma coisinha aí ao lado, viram? Quem tem aí a moeda? Ao lado o que é que tem depois do último zero, reconhecem isso que está aí? Depois do último zero tem uma imagenzinha aí, não é? Essa imagenzinha que está aí é o libongo.

Vocês já ouviram falar do libongo? (Audiência em uníssono: já, sim). Pronto, estão a ver a função? Esse próprio dinheiro que temos hoje, a moeda que saiu agora, recentemente, também está a veicular a memória que temos da utilização do dinheiro. A literatura – o texto literário – pode ter essa mesma função em que os elementos, ou seja, nós quando vamos para um texto literário podemos encontrar lá os textos linguísticos ou textualidade linguística e a textualidade cultural, que são os diferentes elementos da cultura que se alojam no texto.

Quando Ngunga, em Pepetela, aparece na base do MPLA, o contexto político é perceptível lá, mas também o outro lado cultural não está ausente quando ele vai ao kimbo onde foi fazer tratamento por causa da ferida que tinha no pé, depois disseram que ele não precisava de ser convidado, uma vez lá, ele já podia participar da festa. E nós, os Bantu, quem é que convida quem quando há festa? Ninguém! A festa é de todos da aldeia. Este é o aspecto cultural.

Então, estes elementos para que a gente não os tome como meros referentes textuais, nós precisamos de olhar para eles e irmos ao encontro daqueles aspectos, como é que posso dizer daqueles conceitos já batidos, aqueles conceitos que nos acomodam como o de identidade, coisas assim, e começarmos a questionar aquilo que a gente sabe que está no discurso da ordem, mas que é um discurso problemático.

Por exemplo, como vocês os estudantes dizem, “este aqui é um texto não-literário e este é um texto literário, a convenção determinou isso, mas se nós formos analisar as diferentes tipologias que compõem o texto literário são textos não-literários, o texto dialogado é um texto não-literário, o texto descritivo é um texto não-literário, o texto informativo é um texto não-literário, enfim! Ele diz que não é um texto informativo, mas todo ele, o Ngunga, a gente sabe que ele estava numa aldeia, que tinha ferida no pé, que foi lá o quê… Todo esse ambiente dá informação, então não é texto informativo?

Quer dizer, imagina agora a gente vai dizer que ele não deixa de ser um texto literário, continua a ser um texto literário, mas temos de compreender que aquilo a que estamos a chamar de texto literário o é por convenção, mas todo o ambiente estrutural dele é composto por textos não-literários.

Agora, para a nossa literatura, os problemas podem ser os mesmos, quer dizer, como é que nós podemos reconfigurar uma literatura em que o seu bojo e o seu contexto cultural lhe forneça elementos que não se acomodam naquilo que o clássico definiu como forma de olhar para a literatura, só. Mas ele vai para além daquilo, porque quando, imagina só, como é que nós do ponto de vista cultural, a partir da literatura, nos relacionamos com a literatura que se faz no Congo, aqui mesmo nos Congos? Porque nós temos a mesma base Bantu, não é isso? Então se circulam aspectos da tradição Bantu na cultura angolana, na literatura angolana, na literatura dos Congos, na literatura da Namíbia e da África do Sul, os Bantu estão nesses lugares todos, como é que nós nos relacionamos do ponto de vista Bantu com essas literaturas? Nós? Nós mesmo que somos professores? Também é professora – DM: Sim. Como é que nós nos relacionamos com isso? Quase que é nulo.

Nós trabalhamos no super estrato português e vamos transferindo as imagens para os lugares que se aproximam a essa mesma língua, a língua portuguesa. Então vamos a Moçambique, vamos a São Tomé, vamos a Cabo Verde, vamos ao Brasil, vamos a Portugal, e não aqui mesmo perto no Congo, não na Namíbia. Então, são esses outros olhares que eu acho que devemos afinar para reorientar e olhar para esse fenómeno ou para aquilo que nós temos como literatura.

DM: E como é que nós faríamos isso, olhar para dentro, para nós, para os outros povos com que estamos identificados, como é que faríamos isso?

AP: Isso já é responsabilidade das universidades, está aqui o Dr. Petelo. O Dr. foi o professor que introduziu os conteúdos da cadeira de literaturas orais africanas. Eu nem sabia se isso existia, nunca tinha ouvido falar até o Dr. Petelo chegar e dizer que existem literaturas orais africanas, claro, o nome pode ser feio, mas ela existe como configuração. Digo o nome pode ser feio no sentido de que as civilizações ou as culturas não são marcadas entre as que são orais ou as que são escritas.

Todas as culturas têm escrita e têm oralidade, a oralidade só surge para actualizar aquilo que é a escrita. A escrita está em todo o lado. Agora, há uma civilização que impôs uma convenção de escrita, que é aquela que usamos que se universalizou. Então a ideia que ficou é que escrever era só aquela forma, essa aqui do programa, esse tipo.

Não! Aqui em Angola quando se faziam as gravuras, as pinturas rupestres, quando se fazia no Congo, no reino do Congo, quando se fazia os petróglifos, já se escrevia. Os textos de Cabinda, aqueles provérbios de Mabayama Nzumbu, os sona dos Lunda Cokwe e aquelas formas dos rituais dos pastores, aqui no sul de Angola, são formas de escrita, são as diversas manifestações da escrita. Mas nós não fomos ensinados a olhar para a escrita dessa maneira.

Então, ao não olharmos para a escrita dessa maneira temos dificuldade de nos relacionar com essas coisas dessa maneira. Então, nós as reduzimos sempre numa insignificância como a que nós todos sabemos que é aquela, que elas existem e mostram. Então nós podemos reavivar estes discursos, olhar para o texto não só como uma forma escrita, mas olhar para o texto como aquilo que comunica, que é uma forma muito mais ampla de ele se manifestar.

A gente se olhar para essas coisas assim, sem paixões, mas de forma mesmo ampliada, então já podemos ter os ingredientes que vão sustentar no ponto de vista filosófico, científico – até se for o caso, aquilo que temos como desafio para as literaturas africanas. Isso é o que eu acho que é o desenho do resto, aliás, o professor Petelo introduziu aqui as literaturas orais africanas, enquanto teve ingredientes que sustentassem a cadeira. E nós, em função disso que eu disse, não podemos encontrar os elementos que vão sustentar esse lugar que nós queremos… não sei, eu pelo menos quero agora, não sei se esse é o teu caso, pode ser que… DM: Eu também quero (risos).

DM: Tocando nesse assunto das oralidades, oraturas como alguns querem chamar, das tradições, encontramos uma resistência por parte da academia, se assim podemos considerar. São poucos lugares onde nós ouvimos falar disso, ouvimos falar em pesquisar sobre essas matérias. Na sua opinião, por que razão há essa resistência – até porque já falou um pouquinho, mas eu quero que talvez olhasse para outro ângulo e nos explicasse a que se deve essa resistência –?

AP: Nós estamos aqui virados para lá. O que está a acontecer atrás de nós a gente não sabe: só saberemos se virarmos. Agora, nós fomos amarrados em conceitos e em posturas epistemológicas, até filosóficas, que não são próprias da nossa forma de nos reorientarmos na cultura.

Nós somos orientados para abordar as nossas realidades antropológicas, nós estamos orientados para reproduzir modelos dos conceitos, tecnicamente que nos foram impostos. Eu, por exemplo, fico muito preocupado – só para ir respondendo já essa coisa da resistência. Fico muito preocupado quando ouço um político – isso é normal, é aceitável. A identidade, para um político, pode funcionar como esse elemento que prima pela unidade: o político quer unir todo o mundo. Michel Foucault já dizia, em Metafísica do Poder, que “cada um que exerce poder coloca as pessoas no lugar onde ele quer que estejam – ele os controla lá”. Então, do ponto de vista político, a identidade pode funcionar como um lugar proclamado, mas não do ponto de vista cultural.

Então, eu nunca esperaria de um intelectual que usasse o conceito, a palavra identidade, como uma grande bandeira para nós, e sim, “a não para resgatar a nossa…”. Não, quer dizer, faz duas coisas, primeiro usa a palavra resgatar, que já é uma palavra muito melindrosa, e depois junta a palavra resgatar à identidade, vamos resgatar a nossa identidade. Mas vai resgatar a partir de onde, onde é que ele vai?

E onde é que está a identidade que ele vai resgatar e que depois vai trazer não sei onde: aqui na cidade, vai buscar aonde, em que lugar? Então, são posturas arrogantes dizer isso, não há arrogância nenhuma, é mesmo a verdade que nós precisamos de reconstruir.

Há conceitos batidos que não dão respostas àquilo que as nossas realidades antropológicas nos trazem como informação, como dados. Então, você olha para o provérbio como uma máxima ou não sei o quê que os mais velhos falam numa aldeia qualquer, você não vai ter olhos para compreender o provérbio na cidade. E se você compreender vai dizer “não, ele até na cidade aparece nos livros, naqueles livros em que os padres fizeram a recolha…”, então você só pode imaginar o provérbio, ou porque se falou, ou porque se escreveu.

Não, não, o provérbio pode estar numa grade – essa grade aqui, o feitio que tiver pode ser um provérbio, o provérbio pode ser uma decoração, como postura arquitectónica, o provérbio pode estar na cidade, ou seja, não pode estar, está. Aqui mesmo em Luanda há grades aí na cidade, grades, prédios em que o desenho arquitectónico, o perfil arquitectónico é um provérbio.

Agora, como é que você vai transformar isso em verdade, porque a única coisa que você pode entender é que o provérbio é escrito ou é falado. Quando é na aldeia é falado, quando é escrito é porque foi recolhido e fizeram um favor, então colocaram-no na escrita e publicaram-no num livro.

Você na universidade se não reorientar o olhar e ir buscar os provérbios lá onde está, fora desses lugares, você fica mesmo amarrado ao lugar de acomodação, e todo o mundo quer ficar acomodado, dá trabalho! Você ir começar a desfazer aquelas coisas que já estão feitas, porque não repete só já aquilo que os outros estão a fazer. É como entrar na mata. Uma pessoa quando vai a uma mata, se seguir os trilhos que estão na mata, você, quer dizer, é fazer como o outro pode fazer, entra lá e volta pelo mesmo caminho. Agora uma mata que nunca foi explorada, você não sabe se há um pântano, se há cobra, se há não sei o quê. Entrar nessa mata! Quem quer? Tem que ter espírito de aventura.

Eu acho que é isso que nos deve orientar. Então, a resistência que a academia tem é que ela, a academia, se acomodou com aquilo que ela encontrou – as epistemologias, as palavras, “ah! porque isso aqui é tribal”, mas está a chamar isso de tribal por que? Não sei, pode ser uma postura metodológica; “ah! mas está a chamar isso de tradicional por que?”, pode ser uma postura metodológica. Não significa ser necessariamente atrasado, mas depois todo o mundo diz “ah! isso é moderno, ah! isso é contemporâneo”.

Então, essa moeda aí que tem o libongo: não tem relação com o libongo? Deu para situar a moeda apenas no recorte contemporâneo? Não, sincrónico-contemporâneo. Mas ela aí, a moeda, já me estabeleceu uma relação diacrónica com o espaço. E o libongo que está aí é o dinheiro que se usou antes de existir esse lugar que se chama Angola. E ele já está no dinheiro dos angolanos, e o libongo não era dos angolanos. Então, essa resistência pode ser natural – e é compreensível, é porque alguém preparou o terreno e diz “é aqui, as coisas são essas”.

DM: E como é que podemos reverter esse quadro?

AP: É sair das amarras, das convenções, do lugar das convenções. Há um antropólogo de que eu gosto muito, o americano Roy Wagner, desculpe a citação, também é para dar importância que eu costumo a ler um pouco, senão ninguém me leva a sério, se não começo a citar aqui ninguém [risos]. Então, esse antropólogo, em “A invenção da Cultura”, ele já dizia que “o homem tem a dimensão de criar e de inventar. E sempre que cria ou inventa, cria o mecanismo de controlo”.

Aí, o mecanismo de controlo é o mecanismo da invenção, em que ele institucionaliza qualquer coisa que seja. Mas basta institucionalizar, entram no modelo de controlo, mas ele basta ter o controlo de uma coisa já surge a necessidade de voltar a criar outra coisa. Então, nós podemos ser criadores. Nós mesmos podemos ser criadores.

DM: O que nos falta?

AP: Há muita coisa que ainda falta em nós – as inquietações filosóficas. As discussões filosóficas acontecem onde, em que lugar? A ideia de que devemos inventar começa onde? Então quando esses padres fundaram o colégio do Congo, faziam concurso de poesia, foi mais ou menos os lastros de que terá começado aí a literatura.

E eu digo não! A literatura, para mim, pode ter começado quando o homem angolano – os angolanos, vamos já pôr isso entre parênteses andando lá para trás – no neolítico começou a fazer marcas na pedra e no chão. Então, quando falamos em pintura rupestre, chitundu hulo, estas que estão espalhadas por Angola são marcas da escrita. Por que não começamos a estudar a literatura angolana aí? Por que não começamos a estudar a teoria e a crítica da arte a partir daí? Para mim, é isso.

São formas de olhar que precisam de um estofo filosófico e de uma necessidade de criar certa aventura. E depois outra coisa, nós temos um país que se forjou de um nacionalismo alicerçado de um nacionalismo europeu, ou seja, eles são sim angolanos, nasceram aqui, mas são netos, filhos, bisnetos e outras coisas de europeus. Então proclamam um nacionalismo europeu nesse território que se chama Angola.

O nacionalismo Lunda Cokwe, o nacionalismo do Congo, o nacionalismo dos reinos que estavam aqui antes de surgir Angola: onde é que estão? Como é que está representado em nós? Isso tem que ter uma forte carga filosófica que desconstrua os preconceitos políticos e até biológicos que amarram isso. Só para dizer que isso, na verdade, é melindroso: é perigoso até falar disso. Depois tem problemas com a Polícia. DM: É verdade… (risos). AP: Não pode ter nada problema – é conversa (risos). DM: Sim, mas só que nós às vezes levamos à política… Muito obrigada, Abreu! Ficámos sem tempo.

AP: Oh, levaram o tempo? DM: levaram o tempo (risos).

AP: Quem foi que levou o tempo?

DM: Quem foi? Bem, mas há uma pergunta que não se quer calar. AP: Hum! DM: já reflectimos um pouco sobre as nossas raízes e culturas. E voltando à literatura escrita e naquilo que é a convenção, se assim podemos considerar, a geração actual, pelo que nós temos visto, tem publicado muitas obras sem qualidade e com muitos problemas. As obras estão a sair com muitos problemas mesmo. Para além desse grande desconhecimento da literatura da Angola profunda, como estávamos aqui a falar, essa convenção que também é essencial para um escritor, para um artista, não se vê nessas obras. Então, queria que nos desse o seu olhar.

AP: Eh! (risos) Agora é que vou funcionar tipo um médico, dar receita, para uma coisa tão complexa como a literatura.

DM: Sim.

AP: Mas… é aquilo que se costuma a dizer “aonde nós não chegamos ficamos sempre com a impressão de que o céu caiu”. Isso é um provérbio em Kikongo que diz: “kwena kweto lwaka kwo ezolo diabwa”. Quer dizer que aonde nós não chegamos ficamos sempre com a impressão de que é o fim das coisas, o céu caiu. Mas, claro, se nós andarmos vamos ver que o céu não caiu em lugar nenhum, o céu não caiu. Então, por que estou a dizer isso? É sobre essa visão, sobre os jovens e a qualidade das obras e esse lugar das convenções.

É muito difícil, mas é muito difícil mesmo numa sociedade em que a literatura pauta-se pelo princípio da competição… Porque a literatura funciona tipo competitividade: eu vou escrever para ser grande escritor. Então, até crio um ambiente à minha volta ou mesmo na sociedade que me leva a esta condição de grande escritor. Porque eu acredito que quando entro para o mundo da literatura é como alguém que está a apanhar um candongueiro que sai de um ponto até outro ponto e que há um lugar assim consagrado, até dizem: os escritores consagrados.

Não há escritor consagrado coisa nenhuma, o consagrado é o que se consagra, vem da bíblia, sagrado; Então uma pessoa que trabalha com a cultura vai ser consagrada como? São as convenções, é aquilo que estava a falar, é problema da moral cristã. Então temos um conjunto de equívocos, quer dizer, é difícil às vezes quando nós estamos a olhar para o outro e dizer: não, aquele está errado.

Eu pelo menos prefiro não olhar as coisas entre o que é certo e o que é errado; porque entre o certo e o errado perde-se muita informação, que é muito mais importante do que eu estar ou num pólo, ou no pólo do certo ou no pólo do errado. Por que estou a dizer isso? Não é que eu esteja de acordo ou aplauda muito aquilo que as manifestações artísticas, do modo geral, e a literatura – mais especificamente – têm mostrado: os jovens acreditaram que de qualquer maneira pode se chegar lá. Então, quando nós falamos que os jovens não leem, os jovens são mais medidos na ordem intelectual: a relação que eles têm com um livro físico.

Mas ler não é só a relação que você tem com o livro físico, ler é a forma também como você assimila as suas relações, as diferentes formas: ir ao mercado do Trinta, sair de lá com grandes imagens para um poema. E, também, tem a sua dimensão artística e literária. Agora, nós – como entramos na ordem intelectual – então confinamos a literatura na ordem intelectual competitiva. Então tem os gurus, as pessoas que entendem ou porque são bons escritores, ou porque são bons críticos; assim, reduzir as coisas nesta insignificância, é claro que os jovens que estão a vir somos nós mesmos com todos os problemas que nós temos.

Porque estes problemas que os jovens apresentam nós mesmos é que criamos esses problemas: ou não somos nós? É a cultura. Eu não disse que tudo que nós abordamos se explica na cultura. Estes jovens mesmos – não sei se estão a escrever bem ou estão a escrever mal, se calhar daqui a 100 anos eles é que vão ser grandes modelos de escrita. Não sei, talvez seja, não sei.

Agora, mas é aquilo… Domingas é bom, pronto. Ainda bem que nós sentamos aqui, estamos a conversar. Esses tipos de conversas têm que acontecer, ou uma vez por mês ou de quinze em quinze dias, mas conversar sem complexos. Também tem aquela coisa, eu me relaciono bem com o kuduro, com a saia do filho do Zua, a saia dela, aquilo é muita poesia que está ali. Ela fala, de repente fala de um passo de dança e ele dançava a música dos kotas, depois pára e diz: “a saia dela, oh a saia dela, o corpo dela, wawe o corpo dela”. Não disse mais nada, o resto fica por nossa conta.

Não, mas não era a poesia que está ali? Aí, não tem inteligência aí? Há muita coisa com valor e que nós nos relacionamos com isso. Nós vamos à música clássica, vamos aos modelos clássicos, que são modelos apertadíssimos… Vê só como! Desculpe, não posso falar de modelo, vê só como me vesti, eu até o cabelo, cada vez que eu apareço aí nos lugares onde eu costumo a ir perguntam: o senhor quer quê? (risos) Ou o senhor é aluno? Sim, sou aluno. Mas qual é o seu problema? Digo, não o problema é esse… Mas o senhor é professor? Vire, mude logo de postura. Claro que ele não tem culpa, porque o professor tem que ter uma forma própria de aparecer, estão a te ver de um fato, um ar muito sério, tem que ser sério, e sei lá.

Há umas características aí que dizem que o professor tem que ter (risos). Então, para o escritor também acabamos por no fundo cair nesses estereótipos, não é, não sei. Então a discussão é séria, Domingas.

DM: Muito obrigada! A discussão não termina aqui. Há muitas coisas por se dizer e vamos programar outra conversa com Abreu Paxe, porque a Associação Mwelo Weto começa aqui uma caminhada de saraus, uma vez por mês.

AP: Sim, pode ser, Mwelo Weto significa nossa porta não é?

DM: sim.

AP: É o lugar formal. É uma iniciativa boa, mas muito boa mesmo, é louvável, aliás, eu só tive a oportunidade de conhecer novas pessoas e, enfim, de poder partilhar isso que tenho, porque foi governada pelo Mwelo Weto. Mas, para mim, mais do que a porta, o que me interessa mais, e isso é um provérbio africano, o que me interessa mais é a janela. As coisas que entram pela janela. Tenho que ser explícito: as coisas que entram pela porta são coisas formais, são coisas relacionadas com a visita porque é na porta onde nós recebemos a visita, a porta tem uma relação com a visita, com as coisas… com as formalidades. A janela não. Não é a janela onde os gatunos entram? Então, essa postura que nós tivemos aqui, no Mwelo Weto, é a postura de quem entra pela janela. Mas ele chega lá, entra em casa e se acomoda, já não é visita. E as pessoas que estão lá em casa vão mesmo o reconhecer que este aqui é mesmo um dos nossos. Estão a entender? Então, para mim, nós vamos optar por uma postura, embora essa seja mesmo o Mwelo Weto, mas nós devemos transformar a nossa mwelo em janela. Nós temos que entrar pela janela, a gente não pode entrar pela porta, porque a porta é o lugar convencionado como lugar de entrada. Vamos entrar pela janela, esse é o conselho que eu deixo. (Aplausos)

DM: Muito obrigada a todos e até ao próximo encontro!

Por equipa Mwelo Weto: Domingas Monte (entrevista), Isaac Jorge (transcrição) e Caetano Cambambe (revisão linguística). Aos 27/07/2017

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