DELÍRIOS, O DIVÃ DO POETA DO RIO KWANZA: UMA TENTATIVA DE PSICOLEITURA

Por: Adilson Gonçalves[i]

«O que à pobre mente ocorre,

vejo se a boca discorre

e se, alfim, da luta esqueço

o mundo e as suas misérias;

eis surgem ideias sérias,

quero falar… e emudeço!»

 Cordeiro da Mata in Delírios

As circunstâncias latentes da abordagem a que nos propusemos fazer, coincidem conceptualmente com o poema «Fisionomia» (pag.173), do qual importamos a primeira quadra «As aparências iludem / é bem certo este rifão; / muitas vezes um bom rosto / não reflecte o coração!…». -, pois que, não obstante encerrarmos algum conhecimento biográfico sobre o autor da obra, o que nos terá hipnotizado é, fundamentalmente, o título que se descobre na capa, Delírios. Ao longo da transe, brotou-nos uma questão, inconscientemente e baseada no conhecimento de senso comum: terá o autor ficado maluco e saíra por aí delirando os seus devaneios?! Felizmente o nosso ego, o grande mediador dos conflitos intrapsíquicos, ajudou-nos a perceber que não. Entretanto, apoiados ao racionalismo filosófico de Jesus Maestro, partimos em busca da razão de tal título sob o olhar da psicanálise.

A literatura, enquanto construção humana e racional, e a psicologia, campo categorial que estuda a mente humana, sempre estiveram entrelaçadas, porquanto a literatura é produto de um exercício psíquico. Todavia, foi à literatura a que Freud, desde as suas primeiras elaborações teóricas, recorreu para analisar os seus pacientes, associando-os à leitura de Sófocles e de Shakespeare para, a partir daí, criar um dos seus fundamentais conceitos, o «complexo de Édipo», contribuindo, deste modo, para uma concepção psicanalítica à luz da teoria do psiquismo e do devir humano (MARINI, 1997). Não obstante esse contributo da psicanálise literária à crítica, Schopenhauer alerta-nos: Uma clara compreensão da natureza da loucura, uma concepção correcta e distinta do que constitui a diferença entre o são e o insano – na sua opinião – ainda não foi encontrada (BARLOW & DURAND, 2008).

A psicanálise, enquanto método, baseia-se naquilo que o paciente tem a dizer, ou seja, na sua linguagem, pois é nesse discurso onde supostamente o seu inconsciente provoca e canaliza as imagens, as sensações, os afectos, as lembranças, os pensamentos que, por sua vez, serão objectos de análise (MARINI, 1997).

Cordeiro da Matta, o poeta do rio kwanza, «condenou-se a um exílio interior» nas margens do caudaloso kwanza logo que se estabeleceu no negócio, ficando à mercê da natureza e das musas que lhe cercavam a mente e causavam os delírios que se resvalaram nas mais diferentes nuances: do amor – «Enquanto o poeta ama» (pag.177), da beleza da mulher – «Rozalinda» (pag.39), do nacionalismo – «A política» (pag.127), do realismo social – «Queixumes» (pag.140), do bilinguismo – «Nguibanga-kiê!» (pag.84), da religiosidade – «O Mosquito» (pag.123) e da angolanidade[1] – «Negra» (pag.101), a partir da qual lhe é atribuído o título de patriarca.

Mas, então, o que são delírios e como entendê-los sob a lupa da psicanálise?

Uma definição objectiva aduzida pelo Dicionário Universal revela que delírio é um estado de «perturbação das faculdades mentais ou intelectuais causadas por doença.» À luz da psicanálise, delírio ou delirium é um transtorno cognitivo caracterizado pela alteração frequentemente temporária que se manifesta por confusão e desorientação, pois as pessoas afectadas parecem perder o contacto com as coisas ao redor, não conseguem se concentrar e manter a atenção, há deficits marcantes de memória e linguagem (BARLOW & DURAND, 2008). Portanto, a partir dessa descrição clínica, percebe-se que o sujeito-paciente em estudo não reúne estes sintomas, pois apesar de ter estado «Só!… como o monge, como o cenobita / em agra solidão, / sem os entes por quem tanto palpita / triste coração!…» (pag.117), dispõe de uma clara percepção do ambiente que o rodeia, não obstante a « manhã fria, nevada, / nessas manhãs de cacimbo / [via] formosa, correcta, / não sendo europeia dama, / a mais sedutora preta / das regiões da Quissama.» (pag.109), e mantém a sua memória orientada espáciotemporalmente «Nos tempos que lá vão, tempos de negra memória, / que de sanguíneas páginas encheram a história, / era o mato do pobre escravo o aprisco, o rebanho, / onde do vil negreiro a insaciável ambição / de cofres rechear, nunca teve repressão!…» (pag.95), permitindo-lhe interrogar e declarar que a felicidade perfeita «É nome que só no papel s’escreve, / e nunca pertenceu à Realidade…» (pag.208).

Entretanto, essa preocupação idealista com a (in)existência de uma felicidade perfeita, confessa, então, um diagnóstico: o sujeito sofre de transtornos de humor, caracterizados por desvios brutais de humor. E, fazendo parte de um sistema com alguma instabilidade político-social, carimba ao longo dessas «linhas singelas» os sintomas característicos desse tipo de transtorno: a) Pensamentos recorrentes de morte – «Anelo» (pag.42), «Kicôla» (pag.63); b) Sentimentos de tristeza, vazio e angústia com tendência a chorar – «Tédio» (pag. 170), «A Minha Sina» (pag. 205); c) Sentimentos de menos-valia ou de culpa excessiva ou inapropriada – «Loucura» (pag. 73), «Confissão» (pag. 65); d) Auto-estima inflada ou grandiosidade – «?!» (pag.120), «Muâno, Tata» (pag.167); e) Alegria, entusiasmo ou euforia exagerados – «Desejo» (pag.79), «O seu olhar» (pag.83).

O DSM-IV-TR[2], citado por Barlow & Durand (2008), descreve transtornos psicológicos ou comportamentos anormais como disfunções comportamentais, emocionais e cognitivas que são inesperadas em seu contexto cultural e associadas com angústia e substancial inadequação ao funcionamento. A propósito, a mente do sujeito em estudo vê-se num conflito intrapsíquico constante entre a sua força emocional ou id e a sua consciência, conhecida como superego, porquanto faz parte de um «Séc’lo em que sem dotes ter, / se pode o dente meter / numa arte – sem professar – / como (a ele) chamam poeta, / sem tocar da glória a meta, / só por uns versos rimar!…» (pag.57). Nessa conjectura, o seu ego, enquanto mediador do conflito, e por um sinal instruído pela ansiedade, cria um mecanismo de defesa[3] de sublimação[4] em que ele consagra os seus versos incultos e selvagens às circunstanciais do momento e, para que a memória do tempo não se lhes apague, deitou-os no divã, ou seja no papel, ou seja nos delírios.

Assim, «Delírios», um poemário dividido em três partes: «118 poemas líricos e épicos, 17 “quadras e sextilhas” e 4 poemas memorialísticos sob o título de “Lágrimas”» (pag.25), configura-se como o divã do Jakim ria Matta – seu nome em Kimbundu –, ou seja, o repositório terapêutico das sessões de observação (in)consciente dos seus próprios processos psíquicos anormais, onde, no decurso, patenteia um poeta em «posição incerta entre a de médico e a do neurótico» (MARINI, 1997), cujo pensamento aspirava à imortalidade e, por elevada auto-estima e grandiosidade, exigia: «Prestai, sábios profundos, / homenagem sincera / ao africano ousado / que as ideais regiões / há – sem medo – sulcado.» (pag.120).

E, como se de uma nota se trata-se, Aristóteles, citado por Barlow & Durand (2008), salientava que os principais filósofos, poetas e outros criativos tinham tendência à melancolia. Para além deste traço psíquico, Matta partilha com Camões, o autor de «Os lusíadas», uma relação intertextual ao nível do conteúdo. A intertextualidade ouve-se, mais especificamente, nos textos «Amar» (pag.211) de Matta e o soneto «Amor» de Camões, nos quais ressoa uma visão neoplatónica de um «amor que é capaz de promover o aperfeiçoamento do ser, permitindo que se desprenda das coisas ilusórias da vida e contemple o “belo em si”, a verdadeira essência de tudo.» (ABAURRE, PONTARA & FADEL, 2004)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ABAURRE, Maria Luiza, PONTARA, Marcela Nogueira, FADEL, Tatiana, Português – Língua, Literatura, Produção de Texto, 2004, Editora Moderna, São Paulo;
  • BARLOW, David H., DURAND, Mark V., Psicopatologia – Uma abordagem integrada, Tradução da quarta edição norte americana, 2008, Cengage Larning, São Paulo;
  • Dicionário Mais Gramática – Língua Portuguesa, 2003, Texto Editores, Luanda – Angola;
  • FONSECA, António, Angolanidade Literária: Sim ou Não? in Colectânea de Textos sobre Angolanidade Literária, 2011, Edições de Angola, Luanda;
  • .MARINI, Marcelle, IN: BERGEZ, D. et al, Crítica Psicanalítica em Métodos críticos para a Análise Literária, Trad. de Olindina Maria Rodrigues Prata, São Paulo, 1997.

[1] Luís Kandjimbo, citado por António Fonseca, declara que «os atributos categorizadores da angolanidade apresentam-se como modo de um espaço psicológico e social em que interagem aspectos racionais e irracionais do imaginário, envolvendo factores históricos, religiosos, estéticos, éticos, etc. – Adriano Botelho de Vasconcelos et alli, Colectânea de Textos sobre a Angolanidade Literária, Luanda, Edições de Angola, 2011, p.22.

[2] DSM (Diagnostic Statistical Manual) Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria.

[3] Processos protectores inconscientes que mantêm sob controle as emoções primitivas associadas aos conflitos, de maneira que o ego pode continuar a funcionar adequadamente. (BARLOW & DURAND, 2008).

[4] Dirige sentimentos ou impulsos mal-adaptativos potenciais para comportamentos socialmente aceitos (BARLOW & DURAND, 2008).

[i] Adilson Gonçalves, membro efectivo da Associação Mwelo Weto, estudante da Faculdade de Letras da UAN, curso de Língua e Literaturas em Língua Portuguesa.

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