“A Canção Kongo e Ovimbundu – Atravessa o Atlântico e navega pelo Tejo e Douro”

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Por Luísa Fresta

Lisboa, 25-04-19

Nesta obra faz-se um estudo centrado em duas etnias em Angola, os Ovimbundu e os Bakongo, e perdoem-me qualquer imprecisão que a autora fará o favor de corrigir. São etnias que abrangem regiões diferentes de Angola e que no seu conjunto englobam cerca de 50% da população pelo que o estudo tem claramente bastante abrangência.

O foco são as canções festivas destas duas etnias e também as relacionadas com óbitos, cerimónias fúnebres, os pontos em comum a nível textual ou extratextual e os fatores diferenciadores, sendo de notar que cada performance é irrepetível, na medida em que existem adaptações ao contexto específico e a oralidade tem essa característica, de ser associada à espontaneidade e ter marcas únicas em cada ocorrência.

Encontramos temas recorrentes nas letras de canções em ambas as etnias: o lar e a vida doméstica, o simbolismo e a sátira, em canções festivas, enquanto nas canções de óbito (não necessariamente tristes, porquanto podem servir para exaltar o cumprimento da missão de uma vida) há temas que nos parecem surgir com alguma frequência, com algumas nuances: o sofrimento e a solidão, a geografia e o relevo do terreno, ou a menção de animais. A evocação de Deus e a oração estão muito presentes nas canções em kikongo, já entre os Ovimbundu predominam, segundo o que nos pareceu observar, temas como a Mãe, os feiticeiros, a família e até metáforas sobre o sono e o medo. (Este pequeno aparte resulta de uma leitura muito pessoal da tradução das letras de canções e não vincula de modo algum a análise da autora, que no entanto refere a menção explícita e frequente a Deus e a dimensão de religiosidade nas letras das canções em kikongo).

A presente dissertação apresenta, portanto, informação muito detalhada que inclui trabalho de campo nas províncias do Zaire e do Huambo junto das populações ovimbundu e bakongo sobre as quais incide o estudo que se consubstancia na recolha de letras de canções festivas e de óbito na língua original (umbundu ou kikongo); essas letras foram traduzidas para português de maneira literal e estudadas as suas ligações e impacto na cultura e no modus vivendi das respetivas populações.

Há um aspeto interessante que é o facto de muitas dessas performances e rituais — sintetizadas nas letras das canções — estarem hoje influenciadas pela globalização e se terem adaptado em certa medida aos novos tempos, embora essas tradições se observem sobretudo no meio rural. Por exemplo, ao casamento tradicional sobrepõe-se muitas vezes o religioso e o civil, ainda que o primeiro tenha maior significação no âmbito social e cultural. Esta amálgama e convívio pacífico de práticas de natureza diversa parece-nos um sinal de tolerância nos dois sentidos (modernidade versus tradição) e também um reflexo claro de sincretismo.

É de salientar que são práticas que sobreviveram a séculos de colonização e à penetração de outras culturas através da evolução tecnológica e por esse motivo a importância de trabalhos como o da Domingas é a de trazer, primeiramente para a Academia, e logo para a sociedade em geral, o conhecimento e a percepção de costumes por intermédio das canções, costumes que embora sendo localizados e singulares se inserem também num conjunto mais amplo de códigos de vários povos bantu. Sendo que a própria palavra bantu significa na sua génese “pessoas” (mesmo que actualmente o termo seja usado de forma mais restrita) não é de admirar que em outros povos do mundo encontremos comportamentos e rituais vagamente assimiláveis ou mesmo comparáveis a alguns dos que são descritos neste livro, dentro e fora do continente africano.

Como nos diz a autora, na página 47:”(…)Existe um ponto comum entre os dois grupos etnolinguísticos, como demonstra a coleta realizada nas duas regiões: as canções de lamento são exclusivamente cantadas por mulheres. Existem mulheres especializadas para o efeito; elas cantam e dançam em funerais (…)”. Fim de citação.

Correndo o risco de dizer alguma heresia, arriscaria notar que fazem lembrar carpideiras nos funerais e o facto de se cantar e dançar como forma de celebrar a pertença a um determinado grupo também é e foi usado ao longo da História um pouco por todo o mundo; as canções são entoadas colectivamente em cerimónias religiosas, em festas infantis ou de outras faixas etárias, com o intuito de promover a socialização e de transmitir um conjunto de normas, valores e conhecimentos.

Também os griots são aqui lembrados: cantores, contadores de histórias e perpetuadores da memória coletiva por grande parte de África, que aliás a Domingas refere explicitamente neste estudo, pois trata-se de personagens incontornáveis nas culturas africanas. Vem-nos também à memória, de passagem, mas inevitavelmente, a recolha de contos orais feita pelo autor senegalês Birago Diop e que resultou no livro Os Contos de Amadou Koumba transpostos para o francês escrito.

Parece-me que neste livro a autora nos ajuda a compreender através dos elementos que divulga que o fundamento das tradições, nomeadamente das canções nos dois contextos referidos, é o de amenizar a vida dos indivíduos através da sua participação activa na vida comunitária, prepará-los para a vida e estabelecer um conjunto de normas que facilitam a comunicação e a partilha.

Nas sociedades africanas a vida em comunidade é muito valorizada, não havendo lugar, diria eu, para o individualismo ao qual nos habituámos, muitos de nós, em outras latitudes. As festividades são vividas em grupos mais ou menos inclusivos e os eventos como o cerimonial associado à morte também são partilhados, de acordo com um protocolo relativamente consistente, embora com margem para pequenas adaptações e parametrizações. A ritualização faz-se por meio de canções e danças, segundo o que lemos neste trabalho, e essas performances obedecem a regras que são transmitidas de geração em geração. Mais importante até do que a letra das canções, talvez seja a intensidade do canto, as onomatopeias, o gestual, designadamente o bater de palmas, e a adaptação às circunstâncias particulares de um evento. Há um padrão em quase todas estas canções e um deles é a existência de repetições e de gritos.

Estas canções servem para preservar a memória colectiva, as crenças, a filosofia, reverenciar os antepassados que transmitiram esse legado, tidos como o elo entre o mundo visível e o invisível mas também e sobretudo ouvir a palavra divina sobrepondo-se a todas as coisas. Elas também pretendem corrigir certos comportamentos socialmente reprováveis ou tidos como potenciadores de conflitos, através do humor e da crítica velada, protegendo a comunidade de atritos mais graves e consolidando a identidade colectiva. Dir-se-ia que existe nestas canções festivas um certo pragmatismo, pois quase sempre encerram uma dimensão prática e socialmente útil.

Não vou desvendar mais do que o estritamente necessário para situar a obra, geograficamente. Creio que é uma importante ferramenta antropológica, e lá estou eu a meter-me por caminhos perigosos.

Não resisto a trazer a lume um pequeno chiste que ouvi em tempos, para me fazer perdoar pela minha interpretação quiçá leviana de um trabalho tão sério, e o chiste foi-me contado por uma antropóloga: dizia ela que a sociologia enumera e descreve as pessoas que estão à porta da igreja e a antropologia explica porque é que elas lá estão. É uma explicação simplista mas que ajuda a situar os leigos como eu e creio qua a Domingas conseguiu, segundo esta simpática definição, cumprir a missão de uns e outros. Ela enumera, tipifica, exemplifica, ilustra recorrendo a um amplo conjunto de fotografias e mapas que registam etnias e zonas geográficas, funções, cerimónias, rituais e performances várias, argumenta e conclui, como se deve. Recorrendo a uma extensa bibliografia e webgrafia, a trabalho de campo e de gabinete, estruturou o objecto do seu estudo de maneira a que constituísse uma mais-valia para além dos muros da Universidade, contribuindo para um melhor conhecimento da literatura oral angolana e africana, como era seu propósito, e agradeço-lhe pessoalmente por isso.

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