EXÍLIO E MEMÓRIA EM “JESUSALÉM” DE MIA COUTO

Por Domingas Monte[1]

Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral, não têm exércitos ou estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, eles sentem uma necessidade urgente de reconstituir as suas vidas rompidas e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado. O ponto crucial é que uma situação de exílio sem essa ideologia triunfante — criada para reagrupar uma história rompida em um novo todo — é praticamente insuportável e impossível no mundo de hoje (cf. Said, 2003:3).

Mia Couto realça, neste seu romance “Jesusalém”, as temáticas do exílio, da memória e da configuração da identidade numa sociedade pós-colonial em busca da sua afirmação identitária. O romance narra a história de cinco homens (Silvestre Vitalício, Tio Aproximado, Zacaria Kalachi, Ntunzi e Mwanito) que deixaram a cidade para viver numa aldeia abandonada. Numa odisseia que os leva a atravessar florestas, rios e desertos ao encontro de uma nova terra, um novo mundo, a nova “Jesusalém” – onde habitariam sem a azáfama da cidade e principalmente sem lembranças, uma aventura contada aqui por Mwanito, o afinador de silêncios.

“Meu velho, Silvestre Vitalício, nos explicara que o mundo terminara e nós éramos os últimos sobreviventes. Depois do horizonte figuravam apenas territórios sem vida que ele vagamente designava por «Lado de lá». Em poucas palavras, o inteiro planeta se resumia assim: despido de gente, sem estradas e sem pegada de bicho. Nessas longínquas paragens, até as almas penadas já se haviam extinto” (p.13).

Na tentativa de rasurar o passado que o atormentava com as lembranças da mulher morta, Dordama, Silvestre Vitalício autoexila-se com os filhos – Ntunzi e Mwanito –, o seu cunhado Tio Aproximado, o empregado, Zacaria Kalashi e a jumenta Jezibela, numa aldeia isolada e longe da civilização, passando a viver segundo os preceitos que ele tinha definido.

A narrativa está composta por três partes: a humanidade, a visita, revelações e regressos, respectivamente. Na primeira parte, o narrador fala-nos da “condição do exilado”. Essa foi uma posição adoptada voluntariamente pelo patriarca, que a partir dos seus devaneios autodeporta-se:

“Na verdade, não nasci em Jesusalém. Sou, digamos, emigrante de um lugar sem nome, sem geografia, sem história. Assim que minha mãe morreu, tinha eu três anos, meu pai pegou em mim e no meu irmão mais velho e abandonou a cidade. Atravessou florestas, rios e desertos até chegar a um sítio que ele adivinhava ser o mais inacessível. Nessa odisseia cruzámos com milhares de pessoas que seguiam em rumo inverso: fugindo do campo para a cidade, escapando da guerra rural para se abrigarem na miséria urbana. As pessoas estranhavam: por que motivo a nossa família se embrenhava no interior, onde a nação estava ardendo?” (p.21).

Os habitantes de Jesusalém haviam sido afastados da sua terra natal para se tornarem desterrados, por exigência de Silvestre Vitalício, que tendo perdido o norte embrenha-se no mato com a família, a fim de fugir do fantasma de Dordalma que o atormentava. Construiu o seu mundo – um mundo novo só deles, os únicos homens na face da terra, segundo o patriarca. Porém, nesse novo mundo não havia lugar para as mulheres e não se podia falar da mãe; portanto, a força matriarcal era assim retirada dos seus horizontes e sonhos. “Vou dizer uma coisa, nunca mais vou repetir: vocês não podem lembrar nem sonhar nada, meus filhos” (p.19).

Longe da civilização e num mundo novo e com a clara intenção de escamotear o passado, Vitalício prepara-se então para rebatizar os moradores de Jesusalém. A cerimónia decorre à entrada do acampamento, em rituais que só ele conhecia, onde todos perdem a sua identidade, adquirindo uma nova, sendo Mwanito o único que a manteve, com a justificação de que ainda estava em nascimento. Aproximado ainda tentou fazer com que o Vitalício desse aos filhos os nomes dos antepassados, mas esse recusa-se categoricamente: “se não há passado, não há antepassados” (p.43).

“E fomos convocados um por um. E foi assim: Orlando Macara (nosso querido Tio Madrinho) passou a Tio Aproximado. O meu irmão mais velho, Olindo Ventura, transitou para Ntunzi. O ajudante Ernestinho Sobra foi renomeado como Zacaria Kalshi. E Mateus Ventura, meu atribulado progenitor, se converteu em Silvestre Vitalício. Só eu guardei o mesmo nome: Mwanito” (p.42).

O exílio em “Jesusalém” representa uma condição extrema de isolamento, onde as pessoas não podiam comunicar com o mundo exterior, ou seja, não lhes era permitido conhecer nem saber o que se passava no “lado de lá”. Por outro lado, a identidade representa um conjunto de vínculos que permite a cada um de nós reconhecer-se e ser reconhecido, como ter nome próprio e um nome de família que nos identifiquem enquanto indivíduos pertencentes a um grupo, naturais de uma determinada região, cidadãos de um país e do mundo. Notamos que os habitantes da nova cidade foram obrigados a deixar os seus nomes para o “lado de lá”, para possuírem outros que os identificassem como cidadãos de “Jesusalém”.

Com o passar do tempo, Ntunzi e Mwanito começam a demonstrar a sua insatisfação por viverem longe da civilização. Ntunzi, o filho mais velho, inconformado com aquela situação e porque não queria viver sem o seu passado e isolado do mundo, traz dentro de si uma grande revolta que se traduz em acusações contra o pai. No entanto, Mwanito, mais comedido – e porque não tem memória de uma vida fora daquele lugar, experimenta um estranho sentimento de nostalgia por aquilo que não teve oportunidade de conhecer – nem mesmo a Dordalma, sua mãe. Com o descontentamento e as crescentes dúvidas que os filhos foram apresentando ao longo dos tempos, Silvestre assume um carácter ditatorial, impondo a sua vontade e pensamentos com o seu poder de persuasão.

Nesse regime ditatorial, os moradores de “Jesusalém” foram proibidos de conhecer e de saber o que se passava no outro lado do mundo. Não podiam aprender a ler, a escrever nem a rezar, vivendo completamente isolados. Havia uma ordem expressa de Vitalício que ninguém tivesse contacto com os livros:

– “Me ensine a ler, Zaca.

– Se quiser aprender, aprenda sozinho.

Aprender sozinho? Impossível. Mais impossível, porém, seria esperar que Zacaria me ensinasse fosse o que fosse. Ele sabia das ordens de meu pai. Em “Jesusalém” não entrava livro, nem caderno, nem nada que fosse parente da escrita” (p. 45). Porém, Ntunzi, que já sabia ler, propôs-se a ensinar Mwanito, usando os rótulos das caixas de material bélico armazenados no fundo do acampamento.

Através de um baralho e um lápis que Ntunzi tinha roubado ao tio Aproximado, Mwanito aprende a escrever, e com isso descobre o valor da escrita: ela é uma ponte entre o passado e o futuro, tempos que nele nunca chegaram a existir. À medida que domina a escrita, torna-se capaz de dar voz e corpo à mãe a qual não tem memória. Mas é também a escrita que começa a desfazer a sua credulidade em relação a tudo que o pai dizia. Nesse seu mundo particular, Vitalício submete-os a um total isolamento, onde não só a escrita, mas também as lágrimas e até as rezas eram impedidas.

– “Aqui ninguém reza! – Mas, pai, qual é o mal? – Questionou Ntunzi.

– Rezar é chamar visitas.

– Mas que visitas, se ninguém mais há no mundo?”(p. 49).

Com efeito, a incrível habilidade para contar histórias e representar povoava o imaginário do irmão com imagens que ele nunca tinha visto. No entanto, a aura que circunda a memória da mãe se desfaz quando, finalmente, Ntunzi revela que é tudo fingido, que não consegue lembrar-se dela, que a verdadeira orfandade da qual padecem é fruto desse total esquecimento. Na tentativa de lutar contra ele, Ntunzi rabisca, em todos os dias, as estrelinhas na parede de um muro, contando a passagem do tempo, até ser descoberto por Silvestre, que raspa a parede com uma pá, pois em “Jesusalém” é proibido ter passado.

A chegada de Marta a “Jesusalém” desequilibra a relação entre os homens daquele lugar distante, não só pela atracção que exerce uma presença feminina num ambiente social masculino, mas também pela diferença discursiva que ela impõe. Ao contrário da brutalidade de Vitalício, Marta é sentimental e compreensiva, como demonstra a passagem abaixo:

“Fazia tanto tempo que a mãe já não vivia, mas ela nunca chegara a morrer dentro do meu irmão. Às vezes, ele queria gritar de dor, mas faltava-lhe vida para esse grito. A portuguesa, no momento, o advertiu: Ntunzi deveria exercer o luto, domesticar o selvagem ferrão da saudade.

─Tens todo este lugar, tão bom, para chorar…

─De que vale chorar senão tenho quem me escute?

─Chora, meu querido, que te dou ombro” (p.164).

A história de Marta revela bem a razão para estar em Moçambique. Ela perde a sua razão de ser a partir do momento em que Marcelo a abandona. A ausência do amor faz com que se sinta vazia, uma mulher sem raízes, e que busque a possibilidade de nascer de novo. A escrita torna-se o local da voz, uma vez que a capacidade de se enunciar oralmente é insuficiente para expressar o seu vazio interior, o “exílio” que consiste na incapacidade de amar outro que não seja aquele que se foi.

Com a conquista da admiração e consideração de Ntunzi e Mwanito, Marta desfaz assim a distância entre o mundo criado por Vitalício e o “Lado de Lá”:

“Queria pedir que ela cantasse uma outra vez. Porque havia uma certeza, agora, dentro de mim. Marta não era uma visitante: era uma enviada. Marta era a minha segunda mãe. Ela tinha vindo para me levar para casa. E Dordalma, a minha primeira mãe, era essa casa” (p. 157).

Ao contrário de Ntunzi, que sonha com Marta como mulher, Mwanito é atraído pela sua gentileza. Aos seus olhos, ela é como ele, uma estrangeira no mundo: uma mulher que escreve lembranças, enquanto ele afina silêncios.

No entanto, apesar da sua arrogância, brutalidade e ditadura, Vitalício era um homem atormentado pelo seu passado e pelos fantasmas de Dordalma e dos antepassados, mesmo tendo se autoexilado, para fugir desse sofrimento e dos espíritos que o perseguiam. Não consegue livrar-se desse mal, e Mwanito é o afinador de silêncios que consegue tranquilizá-lo em muitas ocasiões com o seu silêncio.

“Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai quem me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios” (p.15).

Mwanito era então o amparo, o porto seguro de Vitalício. Era ele que o estabilizava com o seu silêncio e, consequentemente, a sua vontade de embarcar nos seus pensamentos penosos e na presença de memórias que o atormentavam.

De acordo com a obra, além dos homens que habitavam em “Jesusalém”, encontrava-se no local a jumenta Jezibela, uma figura feminina, portanto, que representava as mulheres e, por isso, o bem mais precioso para Vitalício, a sua amada e única merecedora do seu carinho e atenção, dedicando grande parte do seu tempo em cuidados a ela. Com o mal-estar que a presença de Marta trouxe à aldeia, Vitalício ordena então que fosse morta:

– “Pode afiar a espingarda, caro Zaca.

– Mas, Silvestre, é mesmo para matar?

– Matar e matar definitivamente”.

O destino de Marta estava traçado. O enlouquecido Vitalício ordenava assim a morte da intrusa que, com a sua chegada e permanência em Jesusalém, se instalou o caos provocando sentimentos de revolta por parte dos meninos. O patriarca na sua loucura insistia que se matasse a portuguesa. Como Kalash não conseguia acatar a ordem de seu patrão, Ntunzi oferece-se para cumprir a difícil tarefa de matar a portuguesa. Porém, o que o resto do pessoal não esperava é que Ntunzi matasse a amada Jezibela de Vitalício. No entanto, ao velar a sepultura de Jezibela, Vitalício é mordido por uma cobra e fica à beira da morte. O acontecimento precipita a saída de todos de “Jesusalém”. A caminho do “Lado de Lá”, Mwanito sente que carece de um novo nome, de um novo batismo. Ao contrário de todos os outros, que estão de regresso à própria casa, ele é o único a sentir-se rumo a um novo mundo.

O penúltimo capítulo do romance – intitulado “A árvore imóvel” – traz algumas revelações: uma carta de Marta a Mwanito que narra como Dordalma se suicidou, enforcando-se numa árvore, após ser violada por vários homens no dia em que partiu ao encontro de Kalash, o verdadeiro pai de Ntunzi, deixando marido e filhos.

No fim do romance, Mwanito surge como um rapazinho que frequenta a escola e tem acesso aos problemas sociais das cidades: a miséria, a injustiça, os efeitos da globalização e a corrupção da qual seu tio é o maior exemplo e, até mesmo, o flagelo do mundo contemporâneo: a SIDA, doença que mata o seu professor.

O seu reencontro com o irmão que se tornou soldado é acompanhado das memórias e da revelação de que a relação de dependência entre Kalash e Silvestre era um pacto construído sobre a culpa da morte de Dordalma. Deste modo, Mia Couto constrói uma narrativa calcada no autoexílio, na perda e na construção de novas identidades e na busca do sentido de pertença.

Ao fazê-lo insere, ainda que de forma indirecta, as questões que afligem os Moçambicanos nos dias de hoje. A busca da mãe desconhecida surge como uma metáfora para o desejo humano de sentido para a existência. Muitas são as discussões levantadas pelo romance: a questão do convívio entre sociedades e culturas diferentes; a dialéctica entre particularismos e valores universais; o direito à liberdade, à individualidade e à diversidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Couto, M. (2009). Jesusalém. [s.l]: Alfragide Caminho.

Said, E. (2003). Reflexões sobre o exílio. São Paulo: Companhia das Letras. Ugresic, D. (2011). O museu da rendição incondicional. Trad. Sofia Castro Rodrigues. [s.l]: Cavalo de Ferro Editor.

[1] Domingas Monte (Domingas Henriques Monteiro), Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes. Docente da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Escritora, presidente da Associação Mwelo Weto e Bloguera.

 

 

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