INTERMUSICALIDADE – UMA ANÁLISE A VOLTA DAS MÚSICAS: “VOLTEI COM ELA E MINHA BÊBADA”

Por: Sérgio Van-Dúnem[1]

A arte é transformar ou dar beleza a alguma coisa, do ponto de vista estético, segundo a percepção individual. De acordo com Bohumil Med (1996:9) “a arte, como dizem os antigos, é a revelação do belo conforme o meio de expressão. Dentre as muitas artes que eventualmente existem pelo mundo, a música faz parte das artes sonoras cuja percepção é auditiva e sequencial; ela tem o som como matéria-prima. Por outro, os sons existem enquanto os intérpretes cantam, tocam, declamam”.

A música é todo e qualquer som produzido através de cordas vocais (pessoa) ou de um instrumento qualquer, porém, de forma organizada, como nos confirma Bohumil Med (1996), “a música é a arte de combinar os sons. Há quem define ela como sendo a arte de combinar os sons duma maneira agradável aos ouvidos. É das artes mais antigas que existe e, no entanto, para muitos, ela serve como terapia, divertimento e manifestação de sentimentos”, “com efeito, a nosso ver, mais do que o conto, lenda, a epopeia ou até o provérbio, a canção ao mesmo tempo lúdica e didáctica acalma os nervos… À volta da canção, género oral cuja execução suscita contágio dos sentimentos, de alegria como de tristeza,” Petelo Ne-Tava, prefácio “A Canção Kongo e Ovimbundu: Tradições e Identidades” (2019:9).

Uma pergunta bem interessante a ser colocada seria: que relação existe entre as músicas em análise?

Na verdade ambas têm muito a ver uma com a outra, ou seja, elas completam-se. A música cujo com o título “voltei com ela”, é da autoria do músico, compositor e productor Matias Damásio, foi lançada no final do ano 2018; é uma música que se tornou um sucesso desde o momento que foi lançada até aos tempos actuais; retrata a vida de um homem que vivia com a sua mulher, mas que por causa da sua má conduta sentiu-se obrigado a deixá-la. Por outro, a música “minha bêbada” é da autoria de Gerilson Insrael, um músico Angolano que pela sua forma de compor e cantar tornou-se o cantor predilecto de muitos jovens amantes da boa música; a mesma foi lançada no princípio de 2018, tendo com ela, concorrido ao TOP DOS MAIS QUERIDOS DE 2018. Retrata a vida de um homem que, viu-se obrigado a deixar a sua amada pelo facto de ser uma viciada em festas e por consequente, pelo álcool.

De facto, como dissemos atrás, e já agora respondendo a pergunta feita anteriormente, as duas músicas têm tudo a ver, a letra de uma quando cruzada com a da outra faz um contraste agradável, ou seja, elas contextualizam-se. Todavia, é importante que nos foquemos um pouco à volta daquilo que se chama “INTERTEXTUALIDADE” para que possamos entender melhor o conceito de “INTERMUSICALIDADE”.

De acordo com Ruth Wodak (2008), “intertextualidade refere-se ao facto de todos os textos estarem ligados aos outros, quer no passado como presente. Essas ligações podem ser estabelecidas em formas diferentes”. Ainda na mesma linha de pensamento, Nancy H. Hornberger (2010) refere-se “à intertextualidade como a interpenetração de ideologia de línguas através das crenças sociais”.

De facto o conceito de intertextualidade, aqui parece não ter nada a ver com a intermusicalidade, eles parecem distantes, um do outro. Mas, não, elas têm conexão; partindo do pressuposto de que a intermusicalidade é uma das modalidades da arte e que tem como objectivo fazer dialogar os textos ou as melodias do ponto de vista de arranjo musical, como afirma Tadeu Moraes Taffarello apud Plaza (2003), “a intertextualidade pode se estender à literatua e a todas as artes, surgindo dessa maneira, a intermusicalidade, intervisualidade e a intersemioticidade etc”.

Quanto ao conceito de intertextualidade, a teoria bakhitiniana compara-lhe ao dialogismo partindo do pressuposto de que é possível fazer dialogar uma obra artística ou texto com o outro texto ou obra artistica. Entretanto, a intermusicalidade faz dialogar um texto (a letra de uma música) com o outro texto, assim como faz a intertextualidade; como confirma Tadeu Moraes Taffarello apud Manson, 1996, “a intertextualidade é algo como a intermusicalidade em som”.

A música de Matias Damásio compõe-se de duas estrofes e a primeira diz o seguinte:

Aló família, não quero discutir com ninguém

Só vim informar que voltei com ela.

Aló amigos, não quero discutir com ninguém

Só vim informar que voltei com ela.

A vida é minha, o corpo é meu e o coração que está sofrer também é meu.

Todo mundo me dizia que ela não merecia, mas ninguém via que aos poucos eu morria;

Eu até bem podia ficar sem ela um ou dois dias, mas como fazer como enganar meu coração mamã?

E, a segunda estrofe diz:

Aló família, não quero discutir com ninguém

Só vim informar que voltei com ela;

Aló amigos, não quero discutir com ninguém

Só vim informar que voltei com ela.

Eu sei que o que ela fez não tem perdão, ela marrufou o meu coração;

Eu sei que foram vocês que me ajudaram nos momentos difíceis, vocês me salvaram da angústia.

Eu sei que prometi nunca mais voltar para ela, mais eu não posso mentir mais família, ela é a mulher da minha vida.

O coro diz: eu amo essa mulher, vou fazer como se eu amo essa mulher?­

Quanto à música de Gerilson Insrael é composta de duas estrofes. A primeira diz o seguinte:

I have money,

I have Gucci,

Mazeratti, Luiz Vitom;

I have a driver a house in Talatona,

Mas não sou feliz sem ela, devolvem a minha Lena.

Eu sei que ela é boa de copo,

Vai uma vai duas vai grade,

Todos os Sábados, chega tarde, mas também tem suas qualidades.

A Segunda estrofe diz:

E quando ela chupa desarruma a party,

Às vezes dioga; eu era feliz antes de levar a Lena de mim,

Senão aguentas me devolve só.

O coro diz: me devolvem a Lena, minha bêbeda.

É preciso realçar que as duas músicas, embora não partilhem o mesmo título, ou seja, tenham títulos diferentes, estão ligadas do ponto vista temático, ou seja, abordam o mesmo assunto, “amor vs separação”. Entretanto, na primeira estrofe da música “minha bêbada”, o autor conta-nos dum homem (hipoteticamente falando) que do ponto de vista social, tinha tudo que todo homem gostaria de ter, mas faltava-lhe a mulher que, por uma questão de respeito a sua família e salvaguarda da sua reputação ou do seu estatus social, viu-se obrigado a separar-se dela, por causa dos vícios que a mesma tinha.

Tendo em conta a primeira estrofe da música “voltei com ela” o homem passa por cima de tudo e de todos; o orgulho, o estatus social, o respeito a família e, até as tristezas que ela lhe causou e, então decide voltar com ela mesmo contra a vontade de todos (familiares e amigos). Para que houvesse uma reconciliação, em causa estava o amor que o mesmo sentia pela parceira, a mulher da sua vida; não conseguia viver sem ela. Portanto, esqueceu-se da promessa que fez a família e aos amigos, de nunca mais voltar com ela.

Me devolve a Lena, Minha bêbada. Eu amo essa mulher, vou fazer como se eu amo essa mulher? Os coros de ambas remetem para uma reflexão minuciosa, partindo do pressuposto de que foram músicas escritas em momentos diferentes e, por cantores difentes. Os coros casam tão bem que parece terem sido escritas, cantadas na mesma música, e pela mesma pessoa. Portanto, aqui se percebe que o homem não se importa com o facto da mulher bêbada, ter eventualmente o traído, ser viciada em festas. Mas o que importa mesmo é o amor que ele sente por ela.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WODAK, Ruth. Qualitative Discourse-Analalysis in the Social Sciences, 2008.

  1. Hornberger, Nancy. Sociolinguistic and Language Education, 2010.

Med, Bohumil. Teoria da Música, 1996.

Monte, Domingas. A Canção Kongo e Ovimbundu-Tradições e Identidades, 2019.

TAFARELLO, Tadeu. Intertextualidade e Intermusicalidade na Paródia L’uom Di Sasso, 2015.

[1] Licenciado em Língua e Literaturas em Língua Inglesa e membro efectivo da Associação Mwelo Weto.

4 comments on “INTERMUSICALIDADE – UMA ANÁLISE A VOLTA DAS MÚSICAS: “VOLTEI COM ELA E MINHA BÊBADA”

  1. Constantino Ndengue
    23 de Outubro de 2019 at 8:35 #

    Eu, Constantino Ndengue, de 28 anos de idade. Vem mui respeitosamente dizer que gostei da análise feita.

  2. Mauro Gomes
    24 de Outubro de 2019 at 14:58 #

    Está “dope”!Parabéns e bem haja!

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