ENTRE A RAZÃO E A EMOÇÃO, UM SONHADOR

Por: Adilson Gonçalves

A literatura, tal como a pintura, a escultura, a dança, a música e afins, representa uma manifestação artística, porém dista-se das outras porque consegue, nas suas mais diferentes formas, uma interacção e constante interpelação com um vasto conjunto de experiências absorvidas pelo ser humano ao longo do seu curriculum vitae. Por isso, esse artista, enclausurado num sujeito poético ou narrativo, vai apresentar a sua visão pessoal sobre os acontecimentos que vivencia. Nesse âmbito apreciar uma arte significa imanentemente conviver com as incertezas, sentimentos, emoções e perturbações intrínsecas a todos os seres humanos.    

A arte reproduz-se a volta do cenário que a circunscreve, porquanto é o espelho social de uma época. À guisa desta asserção, importamos de Gustavo Bertoche (2006), no seu estudo sobre a “Obra de Arte” segundo o filósofo alemão Heidegger, uma hermenêutica simples sobre a natureza da arte, no qual afirma que a obra de arte é vista como uma “coisa”, pois congrega a sua volta variadas propriedades ou características; representa a unidade de uma multiplicidade de sentidos; bem como uma materialidade enformada pela essência do “apetrecho” baseado na sua utilidade, confiabilidade e solidez numa relação dialéctica entre mundo e terra. Compreende-se, então, que a todos esses caracterizadores da obra de arte são produto da imaginação material do poeta-sonhador.

Assim, o estudo sobre uma obra de arte permite-nos conceber melhor como o ser humano tem visto o mundo em que vive e, a partir do exemplo e da experiência alheios, reflectir sobre o nosso próprio proceder, logo, segundo Alberto Manguel (1997), “todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, como respirar, é nossa função essencial.”

Neste exercício necessário de leitura, apuramos, nesta compilação de textos versados livremente, o subjazer da visão apolínea de ver o mundo que se caracteriza pela adopção de uma postura objectiva, racional, analítica, fundamentada no real, que nos remete para um paradoxo, pois esta visão é característica dos géneros dramáticos e épicos e o que temos em mão é uma produção lírica, ou seja, poesia.

O verso livre ou o versilibrismo, proposto pelo norte-americano Walt Whitman, posteriormente teorizado pelo simbolista francês Gustavo Kan, surge entranhado numa das manifestações do Romantismo, cuja atmosfera é associada a um Iluminismo dominado pela filosofia de uma produção cultural e artística despida dos modelos clássicos, proclamando a liberdade individual do artista, em detrimento da imitação dos clássicos greco-latinos. Em consequência desta liberdade criadora, instaura-se nos estudos literários uma discussão advinda do facto de entre o verso livre e o poema em prosa ou prosa versificada existir uma pequena distância – uma diferença de grau, geralmente pouco perceptível -, levando a um questionamento: “o verso livre é prosa ou verso? Entretanto, conclui-se que a adesão ao verso livre não significa objectivamente a perda de substância poética, porquanto ela só se liberta dos ditames formais, como o número de sílabas, a rima, a regularidade dos versos e afins, todavia conserva, necessariamente, o carácter estético, ficcional e subjectivo do género lírico.

A RAZÃO DA MINHA EMOÇÃO configura-se como um conjunto de epopeias narradas em forma de versos, por existir, da parte do sujeito, uma certa relação de afinidade com esta estrutura textual: linhas curtas que constituem estrofes; portanto, foi esta mesma empatia que levou os cultores angolanos de 50 e 60 a qualificarem a poesia como a forma de composição que mais convinha, pela linguagem codificada por meio dos vários artifícios literários estético-formais.

A obra é assinada por Nzongo Timóteo Baia, um cultor que circula entre a arte e o evangelho de Cristo, manifestando um romantismo que prega a livre expressão das emoções humanas: o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a luz e as trevas, a crença e a descrença, a negação e a afirmação, etc.

Do corpus encontram-se perfilados quarenta e oito (48) produções poéticas, inaugurados pelo texto “A Razão e a Emoção” (pag.15), talvez por atravessar o título da obra, mas também por representar os dois gladiadores inconstantes nas decisões humanas – a razão e a emoção –, opondo-se numa dupla perspectiva a objectividade e a subjectividade, simbolizados, no texto, pelo coração e pelos olhos. O derradeiro suspiro da lista, arrebata o carácter epopeico de desenlace da diegese, pois, depois de uma vivaz interpelação entre a razão e a emoção, eis que surge a “Transformação” (pag.80) que apregoa a necessidade de se evitar a “cegueira”, pois ela significa “não ter brilho de viver” e depositar confiança num mundo em que:

“Tudo mudo, nada é constante,

Porém, jamais permita

Que as transformações operadas,

Em si,

Sejam negativas.”

O romântico é um sonhador, porquanto quer chegar ao âmago das coisas, na própria matéria das coisas. E é a partir deste materialismo aberto pela imaginação que vai descobrir imagens novas e profundas de realidades repletas de vícios existenciais; para ele, a imaginação é objectiva. Desta objectividade emerge uma das mais importantes características do Romantismo, o nacionalismo – o orgulho na história e nas tradições e hábitos do seu povo –, pois assimila-se como o cidadão de uma terra unida, uma pátria, promulgada pelos poemas “Carrego no coração” (pag.21), “Nascente” (pag.57), – verdadeiros hinos ao Rocha Pinto – e o “O choro de África” (pag.29), no qual enaltece as belezas do continente, como os rios, o mar, os peixes, o Kilamanjaro (o monte mais alto), mas que antiteticamente é habitada por fariseus que só querem debicar das suas imensuráveis riquezas, pois, infelizmente, é uma África que, em vez de se conservar como o berço da humanidade, como a história reza, ela dorme no seu próprio berço, ficando à mercê dos actos neo-colonialistas contra o bem-estar e o desenvolvimento do africano.

Num simbolismo antropológico, não existe melhor represetamen de pátria e terra que a mãe, portanto em sua natureza ontológica, prefere renegar-se a ela mesma a ter que deixar de acolher os seus filhos, os seus frutos. Nos textos “Longe da minha mãe” (pag.48) e “Obrigado mãe” (pag.55), esta figura, “Mãe berço /Mãe sofredora/ E batalhadora”, ecoa nos territórios oníricos do sonhador como uma chama viva de bondade, ternura, respeito e de amor imensurável para com os seus.

O sonhador tem sempre uma nuvem a transformar. A nuvem, aqui, é a metáfora de toda a realidade que se materializa através da sua imaginação. Esse brado de transformação do poeta-sonhador é representado por uma visão negativa do mundo e da sociedade, muitas vezes ligada a um amor não correspondido, fonte de um sofrimento indissociável, atestados no poema “Não” (pag.16), onde se auto incute a culpa pelo sofrimento da amada; em “Os Tempos” (pag.24), o eu lírico permeabiliza toda a sua ineficácia num tempo, que embora renovável, se reduz a um nada; e, por isso que “Queria disfarçar” (pag.32) todas as atrocidades por que passou e passaram os seus para fugir da realidade e do presente, todavia sem sucesso.

Faz parte dos sonhos do poeta uma constante analepse ao passado. E o romântico sonhador vê na infância um bem que ficou na lembrança, por isso a exalta nos seus versos como uma fonte verticalizante de um sonho do que poderia ter sido e do que pode ser a sua realidade materializada.

“Quero ser criança sonhadora,

E continuar a ter os meus motivos

Para ajudar este universo oprimido,

Que espera tanto de mim,

Como futuro vivo de uma nação

Tal como de todas as crianças de Angola.”(pag.36)

Viver é uma arte que exige engenho e imaginação, pois todos os dias somos desafiados com situações que nos convocam para exercícios de meditação constante num eterno devir humano, criando um mundo num instante e noutro, outro. Assim é como um sonho que o poeta prefere observar a realidade, diluindo-se nela e dela de forma transversal.

“Um poeta,

Tal como um palhaço,

Mostra sorrisos, por fora,

Quando, por dentro,

A sua alma sofre e chora.” (pag.64)

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ABAURRE, Maria Luiza, PONTARA, Marcela Nogueira, FADEL, Tatiana, Português – Língua, Literatura, Produção de Texto, 2004, Editora Moderna, São Paulo;
  • BAIA, Nzongo Timóteo, A Razão da minha Emoção, 2019, DC Editora, Luanda;
  • BERTOCHE, Gustavo, A Obra de Arte segundo Heidegger, 2006, Edição do Autor, Rio de Janeiro;
  • FERREIRA, Agripina Ercanación Alvarez, Dicionário de Imagens, Símbolos, Mitos, Termos e Conceitos Bachelardianos, 2013, EDUEL, Londrina;

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